Emma Goldman (em hebraico: אמה גולדמן; romaniz.: Ama Goldman; nascida em Caunas, Governo de Knovo, Império Russo – falecida em Toronto, Ontário, Canadá) foi uma anarquista judia russa, conhecida por seu ativismo, seus escritos políticos e conferências que reuniam milhares de pessoas nos Estados Unidos. Teve um papel fundamental no desenvolvimento do anarquismo na América do Norte na primeira metade do século XX.
Goldman nasceu em Kovno (atual Kaunas), na Lituânia — que era, então, parte do Império Russo. Emigrou para os Estados Unidos em 1885 e viveu em Nova Iorque, onde conheceu e passou a fazer parte do florescente movimento anarquista. Atraída pelo anarquismo após a Revolta de Haymarket, Goldman tornou-se uma renomada ensaísta de filosofia anarquista e escritora, escrevendo artigos anticapitalistas bem como sobre a emancipação da mulher, problemas sociais e a luta sindical. Ela e o escritor anarquista Alexander Berkman, seu amante e companheiro por toda vida, planejaram assassinar Henry Clay Frick como uma ação de propaganda pelo ato. Embora Frick tenha sobrevivido ao atentado, Berkman foi sentenciado a vinte e dois anos na cadeia. Goldman foi presa várias vezes nos anos que se seguiram, por "incentivar motins" e ilegalmente distribuir informações sobre contracepção. Em 1906, Goldman fundou o jornal anarquista Mother Earth (Mãe Terra).
Em 1917, Goldman e Berkman foram sentenciados a dois anos na cadeia por conspirarem para "induzir pessoas a não se alistarem" no serviço militar obrigatório, que havia sido recentemente instituído nos Estados Unidos. Depois de serem soltos da prisão, foram novamente presos — junto com centenas de outros progressistas — sendo deportados para a Rússia. Inicialmente simpatizantes da Revolução Bolchevique daquele país, Goldman rapidamente expressou sua oposição ao uso de violência dos sovietes e à repressão das vozes independentes. Em 1923, ela escreveu sobre suas experiências entre os bolcheviques, dando forma ao livro Minha Desilusão na Rússia (My Disillusionment in Russia). Enquanto viveu em Inglaterra, Canadá e França escreveu uma autobiografia chamada Vivendo Minha Vida (Living My Life). Com o início da Guerra Civil Espanhola, em 1936, Emma, já com mais de 60 anos, viajou até a Espanha para apoiar a Revolução Anarquista.
Durante sua vida, Goldman foi celebrada por seus admiradores, como uma livre pensadora e "mulher rebelde", e achincalhada pelos adversários, como sendo defensora de assassinatos políticos e revoluções violentas. Seus escritos e conferências abrangeram uma variedade de assuntos, incluindo o sistema prisional, ateísmo, liberdade de expressão, militarismo, capitalismo, casamento e emancipação das mulheres. Também desenvolveu novas formas de incorporar políticas de gênero no anarquismo. Emma Goldman morreu na cidade de Toronto, no Canadá em 14 de maio de 1940.
A família de Emma Goldman integrava uma comunidade de judeus ortodoxos habitantes da cidade lituana de Kaunas (que na época era chamada Kovno, e era parte do Império Russo). A mãe de Goldman, Taube Bienowitch havia se casado anteriormente com um homem com quem havia tido duas filhas — Helena, em 1860, e Lena, em 1862. Quando seu primeiro marido morreu de tuberculose, Taube ficou arrasada. Goldman mais tarde escreveu: "Todo amor que ela tinha havia morrido com o jovem com quem ela havia se casado aos 15 anos de idade".
O segundo casamento de Taube fora arranjado por sua família, como Emma o definiu, "bem diferente do primeiro". Seu segundo marido, Abraham Goldman, investiu a herança de Taube em um negócio que rapidamente fracassou. As dificuldades decorrentes, combinadas com o distanciamento emocional entre marido e mulher, criaram um ambiente tenso em casa. Quando Taube ficou grávida, Abraham desejou desesperadamente que a criança fosse um menino. Segundo ele, uma filha só serviria como mais um sinal de fracasso. Posteriormente eles teriam três filhos, mas a primeira criança que tiveram juntos foi mesmo uma menina, Emma.
Emma Goldman nasceu em 27 de junho de 1869. Seu pai era severo com os filhos, utilizando-se de violência física para puni-los quando o desobedeciam. Usava um chicote apenas contra Emma, a mais rebelde de todos eles. Sua mãe pouco a consolava, solicitando apenas raramente que Abraham moderasse suas surras. Goldman mais tarde especulou se o temperamento raivoso de seu pai não seria, ao menos em parte, resultado de frustração sexual.
Os relacionamentos de Emma com suas irmãs, Lena e Helena, eram contrastantes. Em Helena, a mais velha, encontrava o conforto que não encontrava em sua mãe. Foi ela quem deu à infância de Emma "todas as alegrias que porventura teve". Lena, no entanto, era distante e impiedosa. Às três irmãs somavam-se também os irmãos Louis (que morreu aos seis anos de idade), Herman (morto em 1872) e Moishe (morto em 1879).
Quando Emma era adolescente, a família Goldman mudou-se para a vila de Papilė, onde seu pai passou a administrar uma taberna. Enquanto suas irmãs trabalhavam, ela se tornou amiga de um servente chamado Petrushka, que estimulou nela as "primeiras sensações eróticas". Posteriormente, ainda em Papilė, ela testemunhou um camponês ser açoitado com um chicote em praça pública. Esse evento a traumatizou e contribuiu para o desprezo pela violência das autoridades, que iria marcar toda a sua vida.
Aos sete anos, a família Goldman se transfere para a cidade prussiana de Königsberg (então parte do Império Alemão), onde Emma foi matriculada em um colégio secundário estatal. Um de seus professores, especialmente cruel em punir os estudantes desobedientes, tomou Emma como alvo preferencial, batendo em suas mãos com uma vara. Outro professor tentou molestar suas estudantes mas acabou sendo despedido quando Emma passou a enfrentá-lo. No entanto, entre os docentes da escola, ela encontra um professor de língua alemã que lhe demonstra simpatia, emprestando-lhe livros e até mesmo levando-a a uma ópera. Estudante apaixonada, Goldman passou no exame de admissão ao ginásio, mas seu professor de religião se recusa a providenciar um certificado de bom comportamento, impedindo que ela fosse aceita.
A família muda-se novamente, dessa vez para a cidade russa de São Petersburgo, onde seu pai abre uma loja após outra, falindo diversas vezes. A pobreza que se abateu sobre a família forçou os filhos a partirem em busca de trabalho. Emma trabalhou em vários lugares, incluindo uma loja de espartilhos. Ainda adolescente, implorou para que seu pai lhe permitisse voltar à escola, mas, em vez disso, ele atirou um de seus livros de francês no fogo e gritou: "Garotas não precisam aprender muito! Tudo o que uma filha judia precisa saber é como preparar Gefilte fish, cortar bem o macarrão e dar ao homem muitas crianças".
Sem poder frequentar a escola Emma Goldman buscou educar-se por conta própria. Logo começou a estudar a agitação política do contexto em que vivia, particularmente os niilistas responsáveis pelo assassinato de Alexandre II da Rússia. Aquele movimento intrigou-a, mesmo não conseguindo compreendê-lo completamente naquela época. Quando leu o romance de Nikolai Chernyshevsky O Que Há Para Ser Feito? de 1863, ela finalmente encontrou na protagonista do livro, Vera, um modelo a ser seguido. Vera adotara a filosofia niilista, escapando de sua família repressora para viver livremente, criando uma cooperativa de costura. O livro cativou-a e permaneceu como uma fonte de inspiração durante toda a sua vida.
Enquanto isso seu pai persistia em planejar para Emma um futuro como dona de casa e tentou arranjar-lhe um casamento quando ela completou quinze anos. Naquele período pai e filha passaram a brigar constantemente: ele reclamando que ela estava se tornando uma mulher "perdida", e ela insistindo que apenas se casaria por conta própria e por amor. Na loja de espartilhos, Emma era forçada a escapar das investidas indesejáveis dos oficiais russos e de outros homens. O mais persistente deles levou-a a um quarto de hotel e cometeu o que Goldman chamou de "contato violento"; Dois biógrafos chamam isso de estupro. Ela ficou perturbada com a experiência, arrebatada pelo "choque da descoberta de que o contato entre um homem e uma mulher pudesse ser tão brutal e doloroso". Sentiu que aquele encontro para sempre pesaria sobre suas relações com os homens.