(em russo: Ла́зарь Ма́ркович Лиси́цкий) (23 de novembro de 1890 – 30 de dezembro de 1941), conhecido pelo pseudónimo El Lissitzky (em russo: Эль Лиси́цкий, em iídiche: על ליסיצקי), foi um artista, designer, fotógrafo, tipógrafo e arquiteto russo. Foi uma figura relevante durante a vanguarda russa, contribuindo para a formação do suprematismo em conjunto com o seu mentor, Kazimir Malevich, e autor de inúmeras mostras de arte e trabalhos de propaganda para a então União Soviética. A sua obra exerceu grande influência na Bauhaus e nos movimentos construtivistas, tendo sido pioneiro em técnicas de produção e soluções estéticas que viriam a dominar o design gráfico ao longo do século XX.
Todo o percurso de El Lissitzky está intimamente ligado à crença de que o artista podia ser um agente de mudança, mais tarde resumida no seu edito, "das zielbewußte Schaffen" — criação orientada por objetivos. Lissitzky, de fé judaica, iniciou a sua carreira com ilustrações para livros infantis em língua iídiche, como forma de promover a cultura judaica na Rússia, um país em profunda mudança e que revogara as leis antissemitas pouco tempo antes. Começou a lecionar com apenas 15 anos, uma atividade que manteve ao longo de toda a vida. Ao longo de várias décadas, ensinou em diversos cargos nas mais variadas escolas e meios artísticos, divulgando e aprofundando conceitos. Este sentido de dever esteve presente quando trabalhou com Malevich na direção do grupo artístico suprematista UNOVIS, onde desenvolveu uma variante suprematista própria, Proun, e mais tarde, quando em 1921 assumiu o cargo de embaixador cultural da Rússia na República de Weimar, na Alemanha, influenciando figuras relevantes da Bauhaus e do movimento De Stijl durante a sua estadia.
A sua obra influenciou e deu origem a importantes inovações na tipografia, fotomontagem, design de exposições e ilustração literária, sendo o autor de obras consagradas internacionalmente e veneradas pela crítica especializada. Manteve-se produtivo até ao leito de morte, onde viria a produzir, em 1941, um dos seus últimos trabalhos — um cartaz de propaganda soviética de mobilização para a construção de tanques para a guerra contra a Alemanha nazi.
El Lissitzky nasceu em 23 de Novembro de 1890, em Pochinok, uma pequena comunidade judaica 50 km a sudeste de Smolensk, no antigo Império Russo. Durante a infância viveu e estudou na cidade de Vitebsk, agora parte da Bielorrússia. Mais tarde, viveu 10 anos em Smolensk na companhia dos avós, onde frequentou a Escola de Gramática de Smolensk, passando as férias de verão em Vitebsk. Tendo sempre demonstrado interesse e talento para o desenho, começou a receber formação aos 13 anos por parte de Yehuda Pen, um artista judeu local. Por volta dos 15 anos, o próprio Lissitzy começou a dar aulas de desenho. Em 1909 candidatou-se a uma academia artística em São Petersburgo, tendo sido recusado. Embora tenha passado no exame de admissão e se tenha qualificado, a lei durante o regime Czarista apenas permitia a admissão de um pequeno número de estudantes judeus nas escolas e universidades russas.
Tal como muitos judeus no Império Russo, El Lissitzky foi estudar na Alemanha, para onde emigrou em 1909, tendo ingressado no curso de engenharia civil na Universidade Técnica de Darmstadt. Durante o verão de 1912, El Lissitzky, segundo as suas próprias palavras, "deambulou pela Europa", passando algum tempo em Paris e percorrendo a pé 1 200 km em Itália, observando obras artísticas e esboçando pormenores de arquitetura e paisagem. O seu interesse pela cultura judaica antiga teve origem nos contactos com o grupo de judeus russos em Paris, que era liderado pelo escultor Ossip Zadkine, amigo de infância de Lissitzky, que o iniciou nos conflitos entre os vários grupos artísticos na diáspora. No mesmo ano de 1912, alguns dos seus trabalhos seriam expostos pela primeira vez, incluídos numa exposição organizada pela União de Artistas de São Petersburgo. Permaneceu na Alemanha até à deflagração da I Guerra Mundial, tendo sido forçado a regressar a casa através da Suíça e dos Balcãs, a par de muitos dos seus conterrâneos, incluindo outros artistas expatriados nascidos no Império Russo, como Wassily Kandinsky e Marc Chagall.
Depois do regresso a Moscovo, Lissitzky trabalhou nos gabinetes de arquitetura de Boris Velikovsky e Roman Klein, ao mesmo tempo que frequentava o Instituto Politécnico de Riga, transferido para a capital durante a guerra. Em 3 de junho de 1918 obteve o diploma de engenheiro-arquiteto, tendo imediatamente começado a trabalhar como assistente em vários gabinetes. Durante esta fase, demonstrou um interesse ativo e apaixonado pela cultura judaica, que assistia a um renascimento notável depois da queda do regime czarista, que tinha sido abertamente antissemita. O novo governo provisório revogou o decreto que proibia a impressão do alfabeto hebraico e vedava o acesso à cidadania aos judeus. El Lissitsky devotou-se à arte judaica, colaborando na exposição de artistas judaicos locais, deslocando-se a Mahilyow para estudar a arquitetura e ornamentação tradicional de sinagogas antigas, e ilustrando inúmeros livros infantis em iídiche. Estes livros foram a primeira incursão no design gráfico, campo onde implementaria grandes inovações ao longo da sua carreira.
As suas primeiras ilustrações foram publicadas no livro de 1917 Sihas hulin: Eyne fun di geshikhten (Uma conversa quotidiana), onde imprimiu uma estética arte nova ao alfabeto hebraico. No livro seguinte, uma adaptação visual da canção tradicional do pessach judaico, Had gadya (Uma Cabra), El Lissitzky exibiu um esquema gráfico a que recorreu frequentemente ao longo da sua obra. Integrou as letras nas imagens através de um sistema que fazia corresponder as cores das personagens na história com a palavra que os referia. No grafismo da página final, El Lissitzky representou a temerosa "mão de deus" matando o anjo da morte, que empregava a coroa do czar. Esta representação ligava a redenção dos judeus à vitória dos Bolcheviques na Revolução Russa. Uma interpretação alternativa sustenta que o artista estaria consciente da internacionalização bolchevique, o que levaria à destruição da cultura tradicional judaica. Representações visuais da mão de Deus seriam recorrentes em inúmeras obras ao longo da sua carreira, muito notavelmente no seu autorretrato O Construtor, uma fotomontagem de 1924, com o motivo em destaque.
Em maio de 1919, após um convite de Marc Chagall, El Lissitzky regressou a Vitebsk com o objetivo de lecionar artes gráficas, tipografia e arquitetura na recém-formada Escola de Artes do Povo, criada por Chagall depois da sua nomeação em 1918 como Comissário dos Assuntos Artísticos em Vitebsk. Lissitsky envolveu-se na conceção e impressão de cartazes de propaganda. Mais tarde, preferiu manter silêncio acerca deste período, muito provavelmente porque um dos temas abordados nos cartazes era o exilado Trotsky. A quantidade destes cartazes é considerável para serem vistos como um género à parte no conjunto de obras do artista.
Chagall também convidou outros artistas russos, notadamente o pintor e teórico Kazimir Malevich, e o antigo professor de El Lissitzky Yehuda Pen. Contudo, seria apenas em 1919 que Lissitzky, então numa visita a Moscovo, persuadiria Malevich a mudar-se para Vitebsk. A sua chegada coincidiu com a abertura da primeira exposição de arte, dirigida por Chagall. Malevich trouxe consigo uma panóplia de ideias novas, muitas das quais seriam fonte de inspiração para Lissitsky, mas que seriam confrontadas com profissionais, um público local, e o próprio Chagall mais favoráveis a uma arte figurativa. Depois de várias fases sob as estéticas impressionista, primitivista e cubista, Malevich começou a desenvolver e advogar agressivamente as suas ideias sobre o suprematismo. Em crescimento desde 1915, o suprematismo rejeitava a imitação das formas naturais e focava-se na criação de formas geométricas puras. Substituiu o programa de ensino vigente pelo seu próprio programa e difundiu as suas conceções teóricas e técnicas pela instituição. Chagall advogava ideais mais clássicos e Lissitzky, ainda leal a Chagall, dividia-se entre dois caminhos artísticos. No fim, acabaria por favorecer o suprematismo de Malevich, afastando-se da arte tradicional judaica. Chagall abandonaria a escola pouco depois.