Dunstano (em latim: Dunstanus Cantuariensis) foi abade de Glastonbury, bispo de Worcester, bispo de Londres e arcebispo de Cantuária. Foi canonizado e é venerado como santo. Foi o responsável por restaurar a vida monástica na Inglaterra e por reformar a Igreja inglesa. Seu biógrafo do século XI, Osberno de Cantuária, ele próprio um artista e escritor, afirma que Dunstano era habilidoso "em pinturas e em formar letras", o que era comum entre os membros mais seniores do clero de sua época.
Dunstano serviu como um importante ministro de estado para diversos reis ingleses. Foi também o santo mais popular na Inglaterra por quase dois séculos, principalmente por causa das histórias sobre sua grandeza, especialmente as que contam sobre sua famosa astúcia em derrotar o diabo.
Dunstano nasceu em Baltonsborough, Somerset, filho de Heorstan, um nobre de Wessex que era irmão dos bispos de Wells e Winchester. Sua mãe, Cinetrida (Cynethryth), é descrita apenas como sendo uma mulher piedosa. A "Vida de Dunstan", de Osberno, conta que um mensageiro teria milagrosamente contado a ela sobre a criança santificada que ela daria à luz:
O autor anônimo da mais antiga hagiografia de Dustan data o nascimento dele durante o reinado de Etelstano (Athelstane). Já Osberno fixou-o no "primeiro ano do reinado do rei Etelstano" (924 ou 925). Esta data, porém, não se reconcilia com outras datas da vida de Dunstano e cria muitos anacronismos óbvios. Por isso, historiadores assumem que Dunstano nasceu por volta de 910 ou antes.
Ainda garoto, Dunstano estudou com os monges irlandeses que na época ocupavam as ruínas da Abadia de Glastonbury. Relatos dão conta de seu otimismo juvenil e de sua visão de que a abadia deveria ser reconstruída. Nesta época, foi acometido de uma grave enfermidade que quase o matou e que, segundo os relatos, só foi curada por uma aparente intervenção milagrosa. Ainda bem jovem, era reconhecido por sua dedicação aos estudos e por sua maestria nas diversas artes manuais. Com o consentimento de seus pais, foi tonsurado, recebeu as ordens menores e serviu na antiga igreja de Santa Maria. Tornou-se tão conhecido por seu gosto pelos estudos que diz-se que foi convocado pelo seu tio, Etelmo, o arcebispo de Cantuária, para trabalhar com ele. Dunstano foi depois nomeado para a corte do rei Etelstano.
Dunstano logo tornou-se um favorito do rei e era invejado por outros membros da corte. Um complô foi armado para fazê-lo cair em desgraça e Dunstano foi acusado de se envolver com bruxaria e magia negra. O rei ordenou que ele deixasse a corte e, quando estava partindo, seu inimigos o atacaram. Dunstano foi brutalmente agredido, amarrado e atirado numa fossa. Ele conseguiu rastejar para fora dali e seguiu para a casa de um amigo. De lá, viajou para Winchester e passou a trabalhar com seu tio, Alfege, o Calvo (Ælfheah ou Alphege), bispo de Winchester.
O bispo tentou convencê-lo a tornar-se um monge, mas Dunstano tinha dúvidas se tinha vocação para uma vida celibatária. A resposta veio na forma de um ataque de tumores inchados que cobriram todo seu corpo. A aflição foi tão severa que se pensava tratar-se da temida lepra. É mais provável, porém, que tenha sido uma forma de envenenamento sanguíneo resultante de ter sido atirado numa fossa depois de ter apanhado. Seja como for, Dunstano mudou de ideia. Foi ordenado em 943 na presença de Alfege e voltou a viver como eremita em Glastonbury. Nas paredes da antiga igreja de Santa Maria, construiu uma pequena cela de 1,5 x 0,75 metros e foi ali que passou a viver, estudar e trabalhar, tocando sua harpa de vez em quando. Foi nesta época, de acordo com uma lenda do final do século XI, que o diabo teria tentado Dunstano que o teria segurado pelo rosto com uma pinça de ferreiro.
Dunstano trabalhou como ourives de prata e no scriptorium na Abadia de Glastonbury. Acredita-se que foi ele o artista que desenhou a conhecida imagem de Cristo com um pequeno monge ajoelhado aos seus pés (vide imagem) no "Glastonbury Classbook", "um dos primeiros de uma série de desenhos que tornar-se-iam uma característica especial da arte anglo-saxônica de seu período". Dunstano ganhou fama também como músico, iluminador de manuscritos e metalúrgico. Dunstano tornou-se conselheiro de Etelfledo (Æthelflaed), sobrinha de Etelstano, e quando ela morreu, deixou-lhe uma considerável fortuna, que ele utilizou depois para encorajar um reavivamento monástico na Inglaterra. Na mesma época, Heorstano, seu pai, morreu e deixou também para Dunstano sua fortuna, que tornou-se uma pessoa de considerável influência. Com a morte de Etelstano em 940, o novo rei, Edmundo, convocou-o para sua corte em Cheddar e nomeou-o ministro de estado.
Novamente, o favorecimento real provocou inveja entre os cortesões e novamente os inimigos de Dunstano tiveram sucesso em seus complôs. O rei estava pronto para expulsar Dunstano. Na ocasião, estavam em Cheddar enviados de um tal "Reino Oriental" — provavelmente a Ânglia Oriental — e Dunstano implorou para que eles o levassem junto quando voltassem para casa. Eles concordaram, mas a fuga jamais se realizou. Conta a história:
Dunstano, o novo abade de Glastonbury, começou a trabalhar imediatamente na reforma, com o objetivo primeiro de recriar a vida monástica e reconstruir a abadia. Ele começou estabelecendo a Regra de São Bento na abadia, o que tornou-se a base de sua restauração de acordo com o autor de "Fundação dos Mosteiros por Edgar" (escrita na década de 960 ou 970) e, também com primeiro biógrafo anônimo de Dunstano (conhecido como "B."), que havia sido membro da comunidade na abadia. Os relatos dos dois também estão em acordo com a natureza de seus primeiros atos como abade, com a importância de suas primeiras construções e com a inclinação beneditina de seus mais proeminentes discípulos. Seja como for, nem todos os membros da comunidade de Dunstano em Glastonbury eram monges beneditinos. Na verdade, o primeiro biógrafo de Dunstano, era um clérigo que depois se juntou a uma comunidade de cônegos em Liège depois de deixar a abadia.
A primeira preocupação de Dunstano foi reconstruir a Igreja de São Pedro e o claustro para re-estabelecer o isolamento monástico. Os afazeres seculares da nova casa ficaram a cargo de seu irmão, Vulfrico, "para que nem ele e nem nenhum dos monges professos precisassem sair do isolamento". A escola para a juventude local foi fundada e logo tornou-se a mais famosa de sua época em toda a Inglaterra.
Em menos de dois anos da nomeação de Dunstano, em 946, Edmundo foi assassinado e foi sucedido por Edredo. A política de unificação e reconciliação com a metade dana do reino, do novo governo foi apoiada pela rainha mãe, Edgiva de Kent (Eadgifu), pelo arcebispo de Cantuária, Oda e pelos nobres da Ânglia Oriental, liderados pelo poderoso ealdormano Etelstano, o Meio-Rei e tinha por objetivo fortalecer a autoridade do rei. Em assuntos eclesiásticos, ela favoreceu a disseminação da observância católica, a reconstrução das igrejas, as reformas morais do clero e dos legiso e acelerou o fim da religião dos danos na Inglaterra. Contra as reformas estavam os nobres de Wessex, incluindo a maior parte dos parentes de Dunstano, interessados em manter os costumes vigentes. Por nove anos, a influência de Dunstano foi dominante e, neste período, ele recusou por duas vezes o cargo de bispo (de Winchester em 951 e de Crediton em 953), afirmando que seu lugar era ao lado do rei enquanto ele estivesse vivo e precisasse dele.
Em 955, o rei Edredo morreu e a situação imediatamente mudou. Eduíno (Eadwig), o filho mais velho de Edmundo, ascendeu ao trono, mas era um jovem teimoso e inteiramente devotado aos nobres reacionários. De acordo com uma lenda, a disputa com Dunstano começou no dia da coroação de Eduíno, quando ele faltou a um encontro com os nobres. Quando Dunstano finalmente se encontrou com o jovem monarca, este estava cavalgando com uma nobre chamada Elgifu (Ælfgifu) e a mãe dela e se recusou a voltar com o bispo. Furioso, Dunstano arrastou Eduíno de volta e forçou-o a renunciar a garota chamando-a de "meretriz". Depois, percebendo que havia provocado a fúria do rei, Dunstano fugiu para a aparente segurança de seu claustro, mas Eduíno, incitado por Elgifu, com quem ele se casou, seguiu-o e saqueou o mosteiro.