Domitila de Castro Canto e Melo (São Paulo, 27 de dezembro de 1797 — São Paulo, 3 de novembro de 1867), primeira e única viscondessa com grandeza e marquesa de Santos, foi uma nobre brasileira, célebre pela sua influente relação amorosa, sendo, por um tempo, a amante do imperador D. Pedro I.
Sua posição como favorita do imperador marcou profundamente o Primeiro Reinado, influenciando a corte, a política e a vida da família imperial, especialmente a relação de D. Pedro com a imperatriz Maria Leopoldina de Áustria. Após o fim do romance, Domitila retornou a São Paulo, onde se casou com o brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar, um dos políticos mais influentes da província, tornando-se uma poderosa matriarca, respeitada por suas atividades filantrópicas e sua forte personalidade. Sua figura histórica, complexa e controversa, foi objeto de intensa disputa memorialística, sendo retratada ao longo do tempo como uma vilã ambiciosa, uma heroína romântica e, mais recentemente, como uma mulher que desafiou as convenções sociais e exerceu notável agência sobre sua própria vida.
Domitila nasceu em São Paulo, filha de João de Castro Canto e Melo, primeiro visconde de Castro, e de Escolástica Bonifácia de Toledo Ribas. Era neta do coronel Carlos José Ribas e descendia de importantes famílias da elite paulista, como os Toledo Piza, sendo tetraneta do patriarca Simão de Toledo Piza. Foi batizada em 7 de março de 1798 na antiga Igreja da Sé, em São Paulo, tendo como padrinho o alferes José Duarte e Câmara. Tinha oito irmãos: João, José, Maria, Pedro, Maria Benedita, Ana Cândida, Fortunata, Francisco; e uma meia-irmã chamada Matilde Eufrosina.
Primeiro casamento e violência doméstica
Em 13 de janeiro de 1813, aos quinze anos, Domitila casou-se com o alferes Felício Pinto Coelho de Mendonça (1790–1833), oficial do Corpo dos Dragões de Vila Rica (atual Ouro Preto). A historiografia, baseada em seu processo de divórcio, descreve Felício como um homem violento e jogador compulsivo, que submetia a esposa a agressões físicas constantes. Após o casamento, o casal mudou-se para Vila Rica, onde nasceram seus três primeiros filhos.
Devido aos contínuos maus-tratos, Domitila retornou à casa dos pais em São Paulo em 1816. Embora o casal tenha tentado uma reconciliação em 1818, a violência de Felício se intensificou. O episódio mais grave ocorreu na manhã de 6 de março de 1819, quando Felício, movido por ciúmes e questões financeiras, atacou Domitila com duas facadas, uma na coxa e outra no abdômen, perto da fonte de Santa Luzia, em São Paulo. Felício foi preso, e Domitila, após se recuperar, iniciou uma longa batalha judicial pela separação. O divórcio só foi oficialmente concedido em 21 de maio de 1824, quando ela já era a amante do imperador. A documentação do processo revela que a acusação de adultério, usada por detratores para justificar a violência, era infundada. Na verdade, as testemunhas e provas indicaram que Felício tentara assassiná-la para se apossar das terras que herdaram em Minas Gerais.
O início do romance e a ascensão na Corte
Domitila conheceu D. Pedro em 29 de agosto de 1822, em São Paulo, poucos dias antes da Proclamação da Independência. O relacionamento se consolidou rapidamente e, em 1823, o já Imperador do Brasil instalou Domitila em uma casa no Rio de Janeiro. A relação, que durou cerca de sete anos, foi a mais longa e notória de D. Pedro, embora ele mantivesse outros casos paralelos, inclusive com a irmã de Domitila, Maria Benedita.
Em 1826, Domitila recebeu de presente do imperador a famosa "Casa Amarela", uma luxuosa mansão em estilo neoclássico próxima à residência oficial da família imperial, a Quinta da Boa Vista. Sua ascensão foi meteórica. D. Pedro concedeu-lhe títulos, honrarias e uma posição de destaque na corte:
Dama Camarista da Imperatriz (04 de abril de 1825): Uma posição de honra no círculo íntimo da Imperatriz Leopoldina, o que foi visto como uma afronta direta a ela.
Viscondessa de Santos (12 de outubro de 1825): Recebeu o título com as honras de grandeza do Império.
Marquesa de Santos (12 de outubro de 1826): Seu título foi elevado no ano seguinte.
Ordem Real de Santa Isabel (04 de abril de 1827): Foi agraciada com a prestigiosa ordem honorífica portuguesa.
A escolha do título "de Santos" foi uma provocação direta aos irmãos Andrada, inimigos políticos do imperador e naturais de Santos. Em exílio na França, José Bonifácio escreveu, indignado: "Quem sonharia que a michela (prostituta) Domitila seria viscondessa da pátria dos Andradas! Que insulto desmiolado!".
A família de Domitila também foi elevada à nobreza, recebendo títulos e posições na corte, o que consolidou o poder de seu clã.
Rivalidade com a Imperatriz Leopoldina
A presença ostensiva de Domitila na corte causou profundo sofrimento e humilhação à Imperatriz Maria Leopoldina. A nomeação da amante como dama de companhia foi o ápice do escândalo, forçando a imperatriz a conviver oficialmente com a rival. A morte de Leopoldina, em dezembro de 1826, gerou uma crise política e acusações de que a angústia causada pelo caso amoroso e uma suposta agressão física de D. Pedro teriam precipitado sua morte. Embora a versão da agressão tenha se popularizado, relatos médicos da época apontam para uma infecção puerperal como causa mortis. Em uma carta enviada à sua irmã, a futura Imperatriz do Brasil, Maria Luísa, Leopoldina desabafou sobre Domitila: O monstro sedutor é a causa de todas as desgraças.
A morte da popular imperatriz abalou a imagem de D. Pedro I e intensificou a hostilidade pública contra a Marquesa.