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Cruzada Albigense

A Cruzada Albigense (denominação derivada de Albi, cidade situada ao sudoeste da França), também conhecida como Cruzada

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A Cruzada Albigense (denominação derivada de Albi, cidade situada ao sudoeste da França), também conhecida como Cruzada Cátara ou Cruzada contra os Cátaros, foi um conflito armado ocorrido em 1209 e 1244, por iniciativa do papa Inocêncio III com o apoio da dinastia capetiana (reis da França na época), com o fim de reduzir pela força o catarismo, um movimento religioso qualificado como heresia pela Igreja Católica e assentado desde o século XII nos territórios feudais do Languedoque; favoreceu a expansão para sul das posses da monarquia capetiana e os seus vassalos. A guerra, que se desenvolveu em várias fases, começou com o confronto entre os exércitos de cruzados súditos do rei Filipe Augusto da França com as forças dos condes de Tolosa e vassalos, provocando a intervenção da Coroa de Aragão, que culminou na batalha de Muret. Numa segunda etapa, na qual inicialmente os tolosanos atingiram certos sucessos, a intervenção de Filipe Augusto decidiu a submissão do Condado, ratificada pelo Tratado de Paris. Numa prolongada fase final, as operações militares e as atividades da recém criada Inquisição focaram-se na supressão dos focos de resistência cátara que, desprovidos dos seus apoios políticos, terminaram por ser reduzidos. A guerra teve episódios de grande violência, provocou a decadência do movimento religioso cátaro, o ocaso da até então florescente cultura languedociana e a formação de um novo espaço geopolítico na Europa ocidental.

Nos primórdios do século XIII, as regiões do Languedoc encontravam-se sob o domínio de vários senhores:

O condado de Tolosa, governado por Raimundo VI de Toulouse, dominava a zona compreendida entre os vales do Garona, Rouergue e Quercy, aos quais se acrescentavam as suas posses na Alta Provença;

O Condado de Comminges, sob o poder de Bernardo IV de Cominges, conde de Comminges e de Bigorra, primo carnal do conde de Tolosa e vassalo do mesmo enquanto que senhor de Samatan e Muret;

O condado de Foix, cujo intitular era Raimundo Rogério I, vassalo do conde de Tolosa;

O Viscondado de Carcassona, Béziers, Albi e Limoux, cujo senhor feudal era Raimundo Rogério Trencavel, sobrinho de Raimundo VI. Possuía o principado que abrangia de Carcassona a Béziers. A família Trencavel rendia homenagem à Coroa de Aragão desde 1179, sendo à vez vassalos do Condado de Tolosa. A dinastia feudal Trencavel mantinha assim mesmo alianças com o Viscondado de Minerve;

A Coroa de Aragão, domínios do rei Pedro II de Aragão, à que rendiam vassalagem os condes de Tolosa.

As cinco dioceses cátaras, Narbona, Albi, Carcassonne, Cahors, Toulouse e até mesmo Agen ocupavam quase exatamente os territórios dos grandes senhores feudais do Languedoque. Os cátaros recebiam o apoio de alguns nobres e conseguiram assentar-se graças à ação exemplar dos Perfeitos —seguidores cátaros de uma vida ascética— e à incapacidade do clero católico. Os Perfeitos e Perfeitas não eram muito numerosos, mas uma grande parte da população tolerava a sua doutrina e até mesmo a favorecia.

O catarismo é frequentemente classificado como uma religião de caráter gnóstico e maniqueísta, especialmente inspirada no movimento dos bogomilos que surgiram no século X nos Bálcãs e com influências litúrgicas do cristianismo primitivo. O catarismo teve o seu auge durante os XII e XIII na Europa Ocidental, onde chegaram a ser conhecidos também como Albigenses, em alusão à cidade de Albi, onde residiam algumas das maiores comunidades cátaras, com outras estabelecidas a norte da Itália, no reino de Aragão e no condado de Barcelona, embora o seu encrave principal se encontrasse na região do Languedoque, a sul da atual França. Foi implantado nomeadamente nos burgos, populações complexas nas quais coexistiam os senhores, cavaleiros, burgueses e gente da povoação; povoações e cidades com oficinas, artesãos e comércio. A liderança dos cátaros era protegida por nobres poderosos, e também por alguns bispos, que se ressentiam da autoridade papal em suas dioceses. Em 1204, o Papa suspendeu a autoridade de alguns desses bispos, nomeando legados papais para agir em seu nome. Em 1178 Henri de Marcy, legado do papa, qualificou as povoações de implantação cátara com a alcunha em latim de sedes Satanae, sedes de Satã.

O catarismo era baseado numa interpretação dualista do Novo Testamento (recusavam o Antigo por ser uma crônica da criação do mundo material pelo falso Deus, também denominado Demiurgo). Assim defendiam a existência de dois princípios supremos: o Bem e o Mal, sendo o primeiro o criador dos espíritos e o segundo o da matéria. Para eles, o mundo era uma plasmação desta dualidade na que vagavam as almas (espíritos puros criados pelo Deus bom) envolvidas nos seus corpos (matéria criada pelo Deus mau). Rejeitavam o conceito do Inferno, sendo o equivalente a este o próprio mundo no qual as almas deviam purificar-se através de sucessivas reencarnações até atingir um grau de autoconhecimento que os levaria a visão da divindade escapando do mundo material para o paraíso imaterial. Para chegar a este estado pregavam uma vida ascética e contemplativa. Os que a seguiam eram denominados "Perfeitos" e considerados uma espécie de herdeiros ou continuadores das práticas dos apóstolos, tendo o poder de absolver dos pecados através da cerimônia do consolamentum, único sacramento na religião cátara.

A doutrina cátara se chocava radicalmente com a pregada pela Igreja Romana. Entre outras coisas:

Negava a existência de um único Deus ao afirmar a dualidade das coisas (existência de um Deus mau).

Apresentava um conceito do mundo e da Criação diferentes ao firmarem que este mundo foi criado por uma Força má e por isso o homem, que é criação dessa Força, vivia em pecado e deveria abdicar das coisas desse mundo para retornar a morada de Deus. (para os católicos o mundo e o homem seriam bons ao serem criados por Deus e o pecado viria da corrupção do homem no pecado original).

Propugnava a salvação através do conhecimento direto de Deus (Gnosis), em vez da fé em Deus através de emissários.

Também recusavam os juramentos, por ser ataduras ao mundo material, o que atacava pela sua vez a própria disposição da sociedade feudal europeia, na qual, dado o analfabetismo reinante, quase todas as transações comerciais e comprometimentos de fidelidade eram baseados em juramentos. Por tudo isso, a Igreja Romana com o papa Celestino III tratou de contra-arrestar o auge do catarismo mediante uma política missionária, multiplicando as fundações cistercienses e enviando pregadores de relevância, como Bernardo de Claraval, no século XII. Já em finais desse século, Celestino III foi sucedido por Inocêncio III, que pela sua origem familiar era um grande senhor feudal. Cria na virtude das armas quando eram guiadas por Deus; também era um jurista, formação que recebera em Paris e em Bolonha. Compreendeu que o catarismo surgira por uma carência da Igreja; havia poucos clérigos católicos bem instruídos, poucas abadias e bispos; muitos destes últimos apenas visitavam as suas dioceses para coletar impostos. A 1 de abril de 1198 escreveu aos seus arcebispos instando a retaliar os hereges cátaros. Em 1199 equiparou a heresia ao crime de lesa-majestade; no sucessivo, os hereges obstinados seriam banidos e os seus bens confiscados. Esta disposição foi estendida à Occitânia em julho de 1200. Instituiu legados e outorgou-lhes plenos poderes: direito de excomunhão, de pronunciar interdito, da obediência dos prelados e, caso necessário, de substituí-los por homens mais decididos. A sua principal missão consistia em reformar o clero local e combater a heresia.

No Outono de 1203, Inocêncio III designou como legados dois irmãos cistercienses da Abadia de Fontfroide, Raoul de Fontfroide e Pierre de Castelnau, um jurista da ordem do cister que se conduzia com a intransigência de um juiz seguro da lei que aplicava. Em dezembro dirigiram-se a Toulouse, onde fizeram jurar ao conde que extirparia a heresia. Em fevereiro de 1204 aconteceu uma reunião em Béziers presidida pelo rei Pedro II de Aragão. O rei reconhecera-se vassalo da Santa Sé mas, contra do pedido dos legados, manifestou que não estava disposto a usar a espada contra os seus vassalos ocidentais, senão todo o contrário. Uns meses mais tarde Arnaud Amaury, abade de Cîteaux, incorporou-se à delegação, mas ainda com o reforço de Arnaud Amaury os legados não obtinham sucessos. A sua apresentação não era a mais adequada: percorriam o país em luxuosos carros de cavalos acompanhados por todo um cortejo de servidores, quando precisamente o luxo e a suntuosidade era o que mais reprochava o povo occitano à igreja romana. Em maio de 1206 os abades decidiram regressar às suas respetivas abadias. No caminho de regresso fizeram uma parada em Montpellier e ali coincidiram com dois castelhanos que regressavam de Roma. Eram Diego de Acebes, bispo de Osma, e o seu vice-prior, Domingos de Gusmão, posterior fundador da Ordem Dominicana. Este encontro foi decisivo. Os legados expuseram as suas dificuldades: quando pregavam, era objetado o comportamento detestável dos clérigos, mas se se dedicavam a reformar os clérigos, teriam de renunciar à pregação. Os castelhanos expuseram a solução: pôr de lado a reforma dos clérigos e dedicar-se exclusivamente à pregação mas, para que esta fosse eficaz, era preciso que cumprira uma condição imperativa: a pobreza, ou seja, viajar com humildade, ir a pé, sem dinheiro, em casais, imitando os costumes dos Perfeitos cátaros e que antigamente utilizaram os apóstolos. Pouco a pouco, os métodos de Diego de Acebes e Domingos de Gusmão conseguiam os seus efeitos, convertendo crentes cátaros e até mesmo alguns Perfeitos. Diego regressou para Osma e Domingos de Gusmão escolheu então como companheiro a Guillem Claret, clérigo de Pamiers, com o que se instalou em Fanjeaux, no centro da região, onde converteu um grupo de Perfeitas e mulheres crentes cátaras, que instalou no Mosteiro de Prouilhe, perto de Fanjeaux, tornando-se num centro educacional e hospitalar de garotas, a semelhança das "Casas das Perfeitas".

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