Neste Dia

Concílio de Calcedónia

O Concílio de Calcedónia (português europeu) ou Calcedônia (português brasileiro) foi um concílio ecuménico que se reali

Anúncio

O Concílio de Calcedónia (português europeu) ou Calcedônia (português brasileiro) foi um concílio ecuménico que se realizou de 8 de outubro a 1 de novembro de 451 em Calcedónia, uma cidade da Bitínia, na Ásia Menor, frente a Constantinopla. Foi o quarto dos primeiros sete concílios ecumênicos da história do cristianismo, sendo convocado pelo Imperador Marciano com finalidade de anular concílio regional de 449, conhecido como o II Concílio de Éfeso. Seu objetivo principal era afirmar a doutrina católica ortodoxa contra a heresia ensinada por Eutiques relativa ao monofisismo. O concílio também declarou a dualidade humana e divina de Jesus, a segunda pessoa da Santíssima Trindade, além de abordar sobre questões de disciplina e sobre a jurisdição eclesiástica.

O concílio de Calcedônia é numerado como sendo o quarto concílio ecumênico pela Igreja Católica, a Igreja Católica Ortodoxa e a maioria dos protestantes. No entanto, por não concordarem com a conduta e os procedimentos do Concílio Ecumênico, surgiu assim desse cisma as Igrejas ortodoxas orientais, conhecidas como: Igreja Ortodoxa Copta ou Egípcia, a Igreja Ortodoxa Síria, a Igreja Apostólica Armênia e a Igreja Ortodoxa da Etiópia.

Os seguidores do Concílio acreditam que sua mais importante conquista foi a definição do Credo calcedoniano, afirmando que Jesus é "perfeito tanto na divindade quanto na humanidade; esse mesmo é na verdade Deus e realmente homem". Os julgamentos e definições do concílio divino marcaram um ponto de virada significativo nos debates cristológicos.

Cerca de dois anos após a morte de Cirilo de Alexandria em 444, um idoso monge de Constantinopla chamado Eutiques começou a ensinar uma sutil variação da cristologia tradicional em uma tentativa de parar o que ele compreendeu como um novo surto de nestorianismo. Ele afirmou ser um seguidor fiel do ensinamento de Cirilo, que foi declarado ortodoxo em 433, durante a fórmula da unidade onde na oportunidade os antioquenos aceitaram a doutrina de Maria como mãe de Deus (Teótoco) e os alexandrinos aceitaram as duas naturezas em Cristo.

Cirilo havia ensinado que "existe apenas uma physis, pois é a Encarnação de Deus, a Palavra". Cirilo aparentemente entendera a palavra grega physis para significar aproximadamente o que a palavra latina persona (pessoa) significa, enquanto a maioria dos teólogos gregos teria interpretado essa palavra como significando natura (natureza). A energia e a imprudência com que Eutiques afirmava suas opiniões levaram-no a ser mal compreendido. Assim, muitos entendem que Eutiques estavam defendendo o docetismo, uma espécie de inversão do arianismo - onde Ário havia negado a divindade consubstancial de Jesus, Eutiques parecia estar negando que Jesus era totalmente humano. O Papa Leão I escreveu que o erro de Eutiques parecia ser mais uma falta de habilidade do que uma malícia.

Eutiques acusava várias pessoas de 'nestorianismo encoberto'. Em novembro de 448, Flaviano, bispo de Constantinopla, realizou um sínodo local sobre um ponto de disciplina relacionado com a província de Sardes. No final da sessão deste sínodo, um dos inculpados, Eusébio, bispo de Dorileia, trouxe uma contra-acusação de heresia contra o arquimandrita. Eusébio exigiu que Eutiques fosse removido do cargo. No entanto, Flaviano preferiu que o bispo e o arquimandrita resolvessem suas diferenças, mas como sua sugestão foi ignorada, Eutiques foi convocado para esclarecer sua posição a respeito da natureza de Cristo. Eventualmente Eutiques, relutantemente, apareceu, mas sua posição era considerada pouco sofisticada teologicamente, e o sínodo, encontrando suas respostas indiferentes, condenou-o e exilou-o. Após o ocorrido o patriarca de Constantinopla, Flaviano enviou um relato completo dos acontecimentos ao Papa Leão I. Embora tenha sido acidentalmente atrasado, Leão escreveu uma explicação resumida de toda a doutrina envolvida e enviou-a a Flaviano como uma decisão formal e autorizada da questão.

Eutiques recorreu da decisão, rotulando o patriarca Flaviano de nestoriano, recebendo o apoio do patriarca de Alexandria, Dioscoro I. O teólogo e historiador ortodoxo John Anthony McGuckin vê uma "rivalidade inata" entre as sés de Alexandria e Constantinopla. Dioscoro I, imitando seus antecessores ao assumir uma primazia sobre Constantinopla, realizou seu próprio sínodo que anulou a sentença de Flaviano e absolveu Eutiques.

Através da influência do oficial da corte Crisáfio, afilhado de Eutiques, em 449, as reivindicações concorrentes entre os Patriarcas de Constantinopla e Alexandria levaram o Imperador Teodósio II a convocar um concílio que foi realizado em Éfeso em 449, com Dióscoro presidindo.

O papa Leão I enviou quatro legados para representá-lo e expressou seu pesar pelo fato de aviso prévio, o qual impediu a presença de qualquer outro bispo do Ocidente. Ele forneceu a seus legados, um dos quais morreu no caminho, uma carta endereçada a Flaviano explicando a posição do patriarcado de Roma referente a controvérsia. A carta de Leão, agora conhecida como 'Tomo de Leão', confessou que Cristo tinha duas naturezas na unidade de uma pessoa.

Em 8 de agosto de 449, o II Concílio de Éfeso iniciou sua primeira sessão. Os Atos da primeira sessão deste sínodo foram lidos no Concílio de Calcedônia, 451, e assim puderam ser preservados. O restante dos Atos (a primeira sessão sendo desejada) é conhecido por uma tradução em siríaco feita por um monge monofisista, escrita no ano 535 e publicada a partir de um manuscrito no Museu Britânico. No entanto, existem interpretações um pouco diferentes sobre o que realmente aconteceu. A questão diante do concílio por ordem do imperador era se Flaviano, em um sínodo realizado por ele em Constantinopla em novembro de 448, havia justamente deposto e excomungado o arquimandrita Eutiques por se recusar a admitir duas naturezas em Cristo.

Dióscoro iniciou o concílio banindo todos os membros do sínodo de novembro de 448, que haviam deposto Eutiques, de se sentarem como juízes. Ele então apresentou Eutiques que professavam publicamente que enquanto Cristo tinha duas naturezas antes da encarnação, as duas naturezas se fundiram para formar uma única natureza após a encarnação. Dos 130 bispos reunidos, 111 votaram pela reabilitação de Eutiques.

Ao longo destes procedimentos, Hilário (um dos legados papais) repetidamente pediu a leitura do Tomo de Leão, mas foi ignorado. No entanto, a Igreja Ortodoxa Oriental tem relatos muito diferentes do Segundo Concílio de Éfeso. O patriarca de Alexandria, Dióscoro solicitou adiar a leitura do Tomo de Leão, já que não era considerado necessário para começar, e pôde ser lido mais tarde. Isto foi visto como uma repreensão aos representantes da Igreja de Roma que não leram o Tomo desde o início.

Dióscoro, então, moveu-se para depor Flaviano de Constantinopla e Eusébio de Dorileia, alegando que eles ensinavam que 'O Verbo' havia se tornado carne e não apenas assumido carne da Virgem, e que Cristo tinha duas naturezas. Quando Flaviano e Hilário objetaram, Dióscoro convocou uma multidão pró-monofisista a entrar na igreja, atacando Flaviano enquanto ele se agarrava ao altar. Devido as escoriações sofridas, Flaviano morreu três dias depois. Dióscoro então prendeu Eusébio de Dorileia e exigiu que os bispos reunidos aprovassem suas ações. Temendo a turba, todos eles fizeram. Os legados papais recusaram-se a participar da segunda sessão em que vários outros bispos ortodoxos foram depostos, incluindo Ibas de Edessa, Irineu de Tiro, Dono II de Antioquia e Teodoreto. Dióscoro então tinha em mãos 'As Doze Anátemas' de Cirilo de Alexandria que outrora tinha sido declaradas ortodoxas com a intenção de condenar qualquer confissão diferente de uma natureza em Cristo.

De acordo com uma carta à Imperatriz Pulquéria coletada entre as cartas de Leão I, Hilário pediu desculpas por não entregar a ela a carta do papa depois do sínodo, mas devido a Dioscuro, que tentou impedi-lo de ir a Roma ou a Constantinopla, alegando grande dificuldade em fugir para levar ao pontífice a notícia do resultado do concílio. Hilário, que mais tarde se tornou papa e dedicou um oratório na Basílica de Latrão em agradecimento por sua vida, pois conseguiu escapar de Constantinopla e trouxe as notícias do concílio para o papa Leão I que imediatamente o rotulou de "sínodo de ladrões" - Latrocínio - e recusou-se a aceitar seus pronunciamentos. As decisões deste concílio ameaçaram um cisma entre o Oriente e o Ocidente.

Anúncio

Em breve no aplicativo World in Stories

Áudio, download offline, sem anúncios e muito mais.

Conhecer Premium
Concílio de Calcedónia | World in Stories