Clarice Lispector (nascida Chaya Pinkhasivna Lispector; Chechelnyk, 10 de dezembro de 1920 – Rio de Janeiro, 9 de dezembro de 1977) foi uma escritora e jornalista de origem ucraniana-judaica (asquenazita). Radicada no Brasil desde a primeira infância, naturalizou-se brasileira em 1943. Autora de romances, contos e ensaios, é considerada uma das escritoras brasileiras mais importantes do século XX. Sua obra está repleta de cenas cotidianas simples e tramas psicológicas, reputando-se como uma de suas principais características a epifania de personagens comuns em momentos do cotidiano. Quanto às suas identidades nacional e regional, declarava-se brasileira e pernambucana.
Nasceu na vila ucraniana de Tchetchelnik, numa família judaica-ucraniana que perdeu suas rendas com a Guerra Civil Russa e se viu obrigada a emigrar em decorrência da perseguição a judeus, que, à época, resultou em diversos extermínios em massa. A futura escritora chegou ao Brasil, ainda pequena, em 1922, com seus pais e suas duas irmãs. Clarice dizia não ter nenhuma ligação com a Ucrânia — "Naquela terra eu literalmente nunca pisei: fui carregada de colo" — e que sua verdadeira pátria era o Brasil. Inicialmente, a família passou um breve período em Maceió, até se mudar para o Recife, onde Clarice cresceu e onde, aos oito anos, perdeu a mãe. Aos quatorze anos de idade, transferiu-se com o pai e as irmãs para o Rio de Janeiro, na Tijuca, na Rua Mariz e Barros, 241, local onde a família se estabilizou e onde o seu pai viria a falecer, em 1940.
Estudou Direito na Universidade Federal do Rio de Janeiro, conhecida como Universidade do Brasil, apesar de, na época, ter demonstrado mais interesse pelo meio literário, no qual ingressou precocemente como tradutora, logo se consagrando como escritora, jornalista, filósofa, contista e ensaísta, tornando-se uma das figuras mais influentes da Literatura brasileira e do Modernismo, sendo considerada uma das principais influências da nova geração de escritores brasileiros. É incluída pela crítica especializada entre os principais autores brasileiros do século XX.
Suas principais obras marcam cada período de sua carreira. Perto do Coração Selvagem foi seu livro de estreia, publicado quando Clarice tinha 24 anos de idade; Laços de Família, A Paixão segundo G.H., A Hora da Estrela e Um Sopro de Vida são seus últimos livros publicados. Morreu em 1977, um dia antes de completar 57 anos, em decorrência de um câncer de ovário. Deixou dois filhos e uma vasta obra literária composta de romances, novelas, contos, crônicas, literatura infantil e entrevistas.
Registrada como Chaya Pinkhasivna Lispector (em ucraniano: Хая Пінкасiвна Ліспектор; romaniz.: Chaya Pinkhasivna Lispector) Clarice Lispector nasceu em 10 de dezembro de 1920 na aldeia de Chechelnyk, região da Podólia, então parte da República Popular da Ucrânia e hoje parte da moderna Ucrânia. Filha dos judeus russos Pinkhas Lispector e Mania Lispector (nascida Krimgold), seu nascimento se deu em meio aos preparativos da família para a fuga do país, em razão do antissemitismo resultante da Guerra Civil Russa no século XX (1918–1920). Pinkhas Lispector era um comerciante, filho do religioso Shmuel Lispector e da burguesa Heived. Pinkhas e Mania se casaram no ano novo de 1889, por determinação dos pais. Do casamento nasceriam três filhas: Leah, em 1911; Tania, em 1915; e Chaya (ou Haia), em 1920.
A possibilidade de emigração foi inicialmente considerada por Mania Lispector e seus familiares, parte dos quais já havia deixado a região para trabalhar em organizações judaicas na América do Sul. Pinkhas, no entanto, só concordou com a saída da família diante do agravamento dos pogroms no fim da década de 1910. Por volta de 1918, empobrecida, a família mudou-se para Haisyn, na Podólia (atual Oblast de Vinítsia), local que também foi palco de episódios violentos contra populações judaicas. Especulou-se que, durante um desses pogroms, por volta de 1919, Mania teria sido estuprada por um grupo de soldados, o que lhe teria transmitido sífilis. Não há, porém, confirmação dessa hipótese por parte de parentes ou amigos próximos da escritora. Sobre a condição de Mania, a biógrafa Nádia Batella Gotlib, ao organizar o livro póstumo de Elisa Lispector (ou como era conhecida na época, Leah), Retratos antigos (2012), registra que há indícios de que ela sofria de hemiplegia, isto é, paralisia parcial de um dos lados do corpo decorrente de traumas relacionados à violência de grupos armados atuantes na região durante os pogroms. Essa limitação teria se manifestado ainda na viagem para o exílio e se agravado progressivamente, levando-a, já em Recife, a depender permanentemente de uma cadeira de rodas. Elisa Lispector menciona também que a mãe apresentava tremores compatíveis com o mal de Parkinson.
A proibição da emigração de judeus fez com que os Lispector buscassem meios ilegais em uma primeira tentativa falha, fazendo com que se mudassem para uma aldeia mais próxima das fronteiras, Chechelnyk. No inverno de 1921, eles conseguiram deixar a Ucrânia após alcançarem o rio Dniestre, pelo qual foram levados à cidade de Soroca, então pertencente à Romênia e hoje à República da Moldávia. Lá viveram em um albergue e Mania foi internada em um hospital de caridade. Planejaram a fuga da Europa, com o intento de emigrar para o Brasil ou para os Estados Unidos, opção que acabou sendo inviável devido à aprovação do Emergency Quota Act, que dificultava a imigração de pessoas provenientes do Leste Europeu.
Em 27 de janeiro de 1922, o consulado russo em Bucareste, na Romênia, concedeu à família passaportes válidos para a emigrarem ao Brasil, em uma viagem que passou por Budapeste, Praga, na República Checa, e Hamburgo, na Alemanha. Nesta última cidade, embarcaram no navio brasileiro Cuyabá, que os levou em condições precárias à Maceió, onde a irmã de Mania, Zicela, e seu marido, Joseph (ou José) Rabin os esperavam. No Brasil, os nomes russos foram substituídos por nomes onomásticos da língua portuguesa, com exceção de Tania — Pinkhas passou a ser Pedro; Mania transformou-se em Marieta; Leah virou Elisa; Chaya virou Clarice.
Em Maceió, Alagoas, a família continuou vivendo em condições precárias e enfrentou dificuldades econômicas e também por causa do choque cultural. Para sustentar a família, Pedro tornou-se um pequeno mascate, comprando roupas velhas e usadas em áreas carentes para revendê-las aos comerciantes da cidade, e também dando algumas aulas particulares de língua hebraica para filhos de alguns vizinhos, além de vender cortes de linho. A situação melhorou somente quando Pedro, ao lado de José, passou a fabricar sabão, como fazia na Ucrânia.
Em 1924, aos quatro anos de idade, Clarice ingressou no jardim de infância. Em 1925, após três anos morando em Maceió, mudou-se para Recife com sua mãe e irmãs pouco depois de seu pai, possivelmente em consequência dos conflitos familiares e do desejo de Pedro de melhorar as condições da família mudando-se para um centro econômico com uma população judaica mais expressiva, fixando-se no bairro Boa Vista.[carece de fontes?] O pai trabalhava como mercador ambulante, vendendo roupas a prestação pelos bairros mais afastados da cidade.
Em 1928, aos sete anos, aprendeu a ler e a escrever. Em 1930, pouco depois, escreveu, inspirada por uma peça que havia visto, sua primeira peça teatral, Pobre menina rica, com três atos, e cujas páginas foram perdidas. Em 1931, enviou contos para a página infantil do Diário de Pernambuco, mas o jornal não publicou seus textos porque “os outros diziam assim: ‘Era uma vez, e isso e aquilo...’. E os meus eram sensações. ... Eram contos sem fadas, sem piratas. Então ninguém queria publicar”.
Por volta dessa época, mudaram-se para a rua Imperatriz Tereza Cristina. Em 1930, na terceira série, Clarice ingressou no Colégio Hebreu-Iídiche-Brasileiro, onde aprendeu hebraico e iídiche. O estado de Marieta agravou-se e Clarice escreveu contos e peças para tentar diverti-la.
Em 1932, aos doze anos, Clarice foi aprovada, ao lado da irmã Tania e da prima Bertha, no Ginásio Pernambucano. Em 1933, decidiu tornar-se escritora quando “[tomou] posse da vontade de escrever ... [viu-se] de repente num vácuo. E nesse vácuo não havia quem pudesse [ajudá-la]”. Em sua última entrevista em vida, disse a respeito de sua formação literária: “Misturei tudo. Eu lia romance para mocinhas, livro cor-de-rosa, misturado com Dostoiévski. Eu escolhia os livros pelos títulos e não pelos autores. Misturei tudo. Fui ler, aos treze anos, Hermann Hesse, O Lobo da Estepe, e foi um choque. Aí comecei a escrever um conto que não acabava nunca mais. Terminei rasgando e jogando fora”. A família mudou-se para uma casa própria na avenida Conde da Boa Vista.