A Bem-Aventurada Clélia Merloni (Forlì, 10 de março de 1861 – Roma, 21 de novembro de 1930) foi uma monja italiana e fundadora do Instituto das Apóstolas do Sagrado Coração de Jesus, congregação dedicada à educação, ao cuidado dos enfermos e a diversas obras de misericórdia, hoje presente em quinze países.
Filha de um próspero industrial, Clélia cresceu em um ambiente confortável, mas desde cedo manifestou uma inclinação profunda para a vida espiritual. Enquanto seu pai desejava para ela uma vida social refinada e de prestígio, sua alma se orientava para a oração, o silêncio interior e a caridade. Dotada de inteligência viva, sensibilidade generosa e grande capacidade de liderança, discerniu no recolhimento o chamado de Deus à consagração.
Em 1894, movida por ardor apostólico e especial devoção ao Sagrado Coração de Jesus, fundou a Congregação das Apóstolas do Sagrado Coração de Jesus, orientando-a para o serviço aos pobres, aos abandonados e às famílias necessitadas, assim como para a formação cristã da juventude. Seu carisma unia ternura espiritual, firmeza moral e profundo espírito de reparação.
A trajetória de Madre Clélia, porém, não esteve isenta de provações. Enfrentou incompreensões, dificuldades administrativas e dolorosas humilhações, chegando mesmo a viver longos períodos afastada da direção da obra que fundara. Em tudo, porém, conservou um coração dócil, sustentado pela humildade, pelo perdão e pela confiança na Providência. A riqueza interior de sua vida espiritual transparece nos testemunhos de bondade e paciência que deixou aos que a conheceram.
Madre Clélia morreu em Roma em 21 de novembro de 1930. Seu corpo foi sepultado no cemitério Campo Verano e, em 1945, durante a exumação, foi encontrado incorrupto. Posteriormente, seus restos mortais foram trasladados para a Igreja de Santa Margarida Maria Alacoque, onde continuam a ser venerados pelos fiéis. Em 2018, foi beatificada pelo Papa Francisco.
Clélia Merloni nasceu em Forlì, Itália, em 10 de março de 1861. Sua mãe, Maria Teresa Brandinelli, morreu quando Clélia tinha três anos de idade. Seu pai, Joaquim Merloni, um rico industrial, se casou com Maria Giovanna Boeri, que, com sua avó, ensinou-lhe muito sobre a fé e ajudou Clélia a desenvolver uma personalidade forte e confiante.
Em 1876, Clélia começou seus estudos no internato das Filhas de Nossa Senhora da Purificação, em Savona, mas saiu após um ano, por ter adoecido. Ela foi educada em casa, em línguas estrangeiras e piano. Seu pai planejava uma vida de luxo e casamento para ela, mas seu único desejo era a vida religiosa. Em 1883, ela entrou na Congregação das Filhas de Nossa Senhora das Neves (Savona), mas voltou novamente para casa depois de apenas quatro anos, devido às debilitações com sua saúde.
Em 1892, Clélia entrou na Congregação das Filhas de Nossa Senhora da Providência em Como, onde se dedicou à vida religiosa com alegria e zelo. Depois de uma recuperação aparentemente milagrosa da tuberculose no final de uma novena ao Sagrado Coração de Jesus e ao Imaculado Coração de Maria, ela compreendeu que o desígnio de Deus sobre sua vida era fundar uma Congregação religiosa de Irmãs consagradas ao Sagrado Coração de Jesus que se dedicaria ao bem dos pobres, dos órfãos e dos abandonados, e que ofereceria suas vidas de boas obras para a conversão dos pecadores.
Em 30 de maio de 1894, na Igreja de São Francisco, em Viareggio, Clélia, foi apresentada junto com duas companheiras como as primeiras Apóstolas do Sagrado Coração de Jesus. Nascia uma nova Congregação.
O Instituto cresceu rapidamente. Clélia abriu uma escola infantil, uma casa para idosos e um orfanato, tudo graças ao generoso apoio financeiro de seu pai. À medida que o número de Irmãs crescia, as obras se multiplicavam, também fora de Viareggio. Com a morte de seu pai, em San Remo, em 27 de junho de 1895, Clélia tornou-se a única beneficiária de seu patrimônio. Sua conversão do leito de morte foi o fruto das orações e sacrifícios de Clélia ao longo de muitos anos.
Infelizmente, a expansão resultante de suas obras foi brutalmente interrompida após três anos, quando o padre que administrou as finanças, depois de ter perdido muito dinheiro com a indevida administração de seus bens, fugiu para a França com os fundos restantes. A falência forçou as Apóstolas a abandonar suas inúmeras obras, também na cidade de Viareggio.
Pela Divina Providência, Madre Clélia teve a oportunidade de conhecer o Bispo de Piacenza, João Batista Scalabrini, que ajudou as Irmãs a saírem dessa delicada situação em que se encontravam. Em 1900, ela enviou as Apóstolas em missão, para ajudar os imigrantes italianos que se instalavam no Brasil, e dois anos depois para Boston (EUA).
Madre Clélia e 18 Apóstolas professaram votos na Catedral de Piacenza em 11 de junho de 1900. Apesar da alegria de sua consagração, bem como do sucesso ministerial que resultou da colaboração com o Bispo Scalabrini, a luta interna crescia entre as Irmãs. Dois grupos distintos se formaram na mesma congregação – aqueles que queriam permanecer com o carisma fundacional e aquelas que se inclinavam para o da congregação do Bispo. Além disso, Madre Clélia tornou-se vítima de calúnia após a falência e processos legais subsequentes. Não querendo acusar publicamente o sacerdote que anteriormente havia administrado mal e roubado o dinheiro da Congregação, ela culpava a si mesma, o que a levou a incompreensão.
Ela já não era consultada sobre questões relativas à governança da Congregação, o título do Instituto foi alterado e foram publicadas novas Constituições, às quais a Congregação para Religiosas impôs conformidade. Em 28 de fevereiro de 1904, pelo decreto do Vaticano, Madre Clélia perdeu o título de Superiora Geral com a aprovação da autoridade para a Madre Marcelina Viganò.
Depois de um ano, a Madre Clélia foi reintegrada, mas três investigações apostólicas seguiram, e Madre Clélia foi mais uma vez retirada do cargo com um decreto da Sagrada Congregação dos Religiosos, em 13 de setembro de 1911.
Numerosos pedidos da Madre Clélia para rever o seu caso ficaram sem resposta à medida que a discórdia na Congregação crescia e as Irmãs leais à Madre Clélia foram desligadas da Congregação. Sozinha e considerando-se um obstáculo para a paz da comunidade, Clélia decidiu deixar o Instituto que havia fundado em vez de vê-lo despedaçado por discórdia.
Em julho de 1916, ela começou um período muito difícil de exílio. Onde passou por diversas cidades, sendo elas: Gênova, Turim, Roccagiovine e Marcellina, dando neste período difíceis passos ao longo do caminho para seu Calvário, seguindo o exemplo de Cristo.
Seu nome tornou-se desconhecido para sucessivas gerações de Apóstolas, sendo proibido a corresponder-se com ela ou enviar qualquer meio de apoio.