Cirilo de Alexandria (c. 375 ou 378 – 444) foi Patriarca de Alexandria quando a cidade estava no auge de sua influência e poder no Império Romano. Um dos Padres gregos, Cirilo escreveu extensivamente e foi protagonista nas controvérsias cristológicas do final do século IV e do século V. Foi uma figura central no Primeiro Concílio de Éfeso, em 431, que levou à deposição do patriarca Nestório de Constantinopla. Ele é listado entre os Pais e os Doutores da Igreja, e, por sua reputação no mundo cristão, é conhecido como "Pilar da Fé" e "Selo de Todos os Pais". Entretanto, os bispos nestorianos no Segundo Concílio de Éfeso o declararam herético, rotulando-o como um "monstro, nascido e criado para a destruição da Igreja".
Cirilo nasceu por volta de 375 ou 378 em uma vila chamada "Didusja" (em copta) e "Teodósio" (em grego), segundo João de Niciu, provavelmente a moderna El-Mahalla El-Kubra ou nas proximidades. Porém autores posteriores, especialmente gregos, apontam Alexandria como sua cidade natal, o que várias fontes modernas corroboram. Sua mãe seria natural de Mênfis e passou algum tempo em conventos em Alexandria antes de se casar.
Em 385 Teófilo assumiu a posição de Patriarca de Alexandria. Ele era tio de Cirilo e cuidou da educação de seu sobrinho em Alexandria. Cirilo recebeu uma educação clássica e teológica, provavelmente estudando gramática entre os doze e quatorze anos de idade (390-392), retórica e humanidades dos quinze aos vinte e, por fim, teologia e estudos bíblicos entre 398 e 402. Provavelmente entrou em contato com os autores que influenciariam sua exegese nesse último período. Entre suas leituras, se destacam Atanásio, Orígenes, Clemente de Alexandria, Basílio de Cesareia, Eusébio de Cesareia, Dídimo, o Cego e até mesmo João Crisóstomo, a quem viria a citar extensivamente apesar do Sínodo do Carvalho, que o depôs. Outra influência relevante foi Isidoro de Pelúsio, importante líder nos círculos monásticos do Egito, dezoito anos mais velho que Cirilo. Embora a relação entre os dois ainda precise ser clarificada, Isidoro escrevia-lhe frequentemente, geralmente em um tom crítico de surpreendente franqueza para um clérigo provincial, embora não houvesse sinal de ressentimento entre os dois. Por isso, cogita-se que Isidoro seria um conselheiro respeitado por Cirilo e talvez tenha sido mentor do futuro patriarca.
Se Cirilo foi a mesma pessoa citada por Isidoro, então ele viveu um tempo como monge. Segundo Gibbon, Cirilo teria passado cinco anos de sua juventude nos mosteiros da Nítria até Teófilo chamá-lo à cidade. Uma carta de Isidoro em que ele reclama do excesso de "interesses mundanos" de Cirilo, contrários ao ideal da busca da solidão, também é utilizada para sustentar essa tese. Entretanto, não é certo que Cirilo tenha passado pela vida monástica. O fato de nunca mencionar este suposto fato ao escrever para monges egípcios, já como arcebispo em Alexandria, é considerado surpreendente (um argumentum e silentio). Severo de Antioquia tinha dúvidas sobre essa tradição enquanto ibne Almocafa a defende, mas cita Serapião, o Sábio, como mentor de Cirilo ao invés de Isidoro, mas é considerado uma fonte pouco confiável. McGuckin cogita que, afinal, Cirilo tenha passado algum tempo em mosteiros como parte de sua educação para a vida eclesiástica, dada a importância dessas instituições para o cristianismo egípcio à época.
Início da carreira eclesiástica e Sínodo do Carvalho
Em 403, com aproximadamente vinte e cinco anos, Cirilo terminou seus estudos e foi ordenado leitor da igreja alexandrina ao lado de seu tio patriarca. A partir daí, ascendeu a cargos eclesiásticos mais altos, mas provavelmente já estava ligado às esferas superiores da Igreja de Alexandria desde o começo da carreira. McGuckin lembra que, à época do Concílio de Éfeso, Nestório havia ocupado o trono em Constantinopla por apenas um ano enquanto Cirilo já teria vinte e cinco anos de contato e experiência com a política da Igreja no nível mais alto, o que pode ter sido decisivo para o resultado do concílio.
No mesmo ano, Cirilo acompanhou Teófilo ao Sínodo do Carvalho, realizado em Calcedônia, e que resultou na deposição de São João Crisóstomo do Patriarcado de Constantinopla. Teófilo teve um papel central na deposição, um posicionamento que causou atrito com Roma, que exigia a reabilitação de João, e abalou as relações entre as duas sés até os primeiros anos do patriarcado de Cirilo.
Durante o patriarcado do tio, Cirilo apoiou a deposição de João Crisóstomo e, no início de seu patriarcado, rejeitou a restauração do nome de Crisóstomo nas comemorações em Constantinopla e Antioquia. Entretanto, desde por volta de 417, o patriarca alexandrino começou uma longa e diplomática reabilitação de João, abandonando aos poucos a posição de Teófilo e adotando a sua própria, reduzindo o desconforto da Cúria Romana. Crisóstomo foi posteriormente muito citado nos sermões de Cirilo, que o considerava um exemplo de ortodoxia. Não se sabe, porém, se esta reabilitação levou à restauração do nome de João aos dípticos da igreja alexandrina. Tampouco conhecemos com certeza com que intensidade Cirilo respeitava João: enquanto João de Niciu afirma que o patriarca o considerava um "professor" e restaurou sua honra com "grande alegria", Nestório afirma que Cirilo venerava as relíquias de João Crisóstomo relutantemente. McGuckin cogita que a resposta está entre esses extremos.
Início do Patriarcado de Alexandria
Teófilo faleceu em 15 de outubro de 412. O patriarcado foi disputado, então, entre Cirilo e o arcediago Timóteo, que era, segundo McGuckin, o favorito de Constantinopla. Da disputa, evoluiu um tumulto, resultado do conflito entre os defensores de cada um dos candidatos. Embora Timóteo tivesse o apoio de Abundâncio, o comandante das tropas romanas no Egito, Cirilo venceu: foi feito patriarca em 18 de outubro, três dias depois da morte de Teófilo, com o apoio do povo.
À época, o patriarcado de Alexandria já era poderoso, uma ascensão que remontava à época de Atanásio e devia muito ao controle que tinha sobre as hordas de monges armados chamados parabolanos. O patriarca conseguia impor-se ante a corte imperial e seu poder rivalizava até com o do prefeito da cidade. Assim, o novo patriarca passou a exercer mais funções que seu antecessor, assumindo a administração de questões seculares e outras que estavam sob a autoridade do prefeito civil. Segundo Gibbon, liderados por Cirilo, os parabolanos controlavam os programas de caridade e os prefeitos egípcios temiam sua influência. À época, Alexandria, habitada por judeus, pagãos e cristãos, era conhecida pela instabilidade e, segundo Sócrates de Constantinopla, nenhuma outra cidade era mais propensa a tumultos, sempre violentos.
Cirilo fechou as comunidades dos novacianos e tomou seus objetos sacros. Os novacianos eram a seita dos seguidores do antipapa Novaciano que separaram-se da Igreja basicamente porque acreditavam que os cristãos que apostataram durante a perseguição de Décio (os lapsi) não podiam ser perdoados e nem readmitidos. Entretanto, suas práticas condiziam com a dos cristãos em quase todos os demais aspectos, e Gibbon os descreve como "os mais inocentes e inofensivos dos sectários". Segundo Sócrates, o bispo novaciano Teopempto teve também suas posses confiscadas.
Conflito com Orestes e a comunidade judaica
A comunidade judaica de Alexandria era grande - Gibbon cita 40 000 pessoas na época de Cirilo - e tradicional. Presentes na cidade desde sua fundação sete séculos antes, eram bem sucedidos e protegidos pela lei secular.
Sócrates Escolástico conta que, durante uma deliberação sobre alguma festividade dos judeus, eles acusaram um monge Hierax, um exaltado seguidor de Cirilo, de incitar tumulto entre os presentes. Orestes, o prefeito, que invejava o poder dos bispos, aproveitou para prendê-lo, torturá-lo e assassiná-lo em público. Cirilo se encontrou com os principais líderes judeus e os ameaçou. Eles, por sua vez, organizaram um ataque aos cristãos: saíram em uma noite pelas ruas anunciando um suposto incêndio em uma igreja. À medida que os cristãos saíam para salvar o edifício, os judeus os assassinavam. Contudo, Gibbon cogita que a morte dos cristãos possa ter sido acidental, mas, seja como for, sabe-se que cristãos foram mortos por judeus.