Cher (nascida Cheryl Sarkisian; El Centro, 20 de maio de 1946) é uma cantora, atriz e personalidade de televisão americana, apelidada de "Deusa do Pop". Conhecida por sua voz grave de contralto, estilo ousado e reinvenções constantes, sua carreira multifacetada abrange sete décadas, consolidando-a como ícone cultural. Cher ascendeu à fama em 1965 com a dupla Sonny & Cher, ao lado de seu então marido, e também com sucessos solos como "All I Really Want to Do" e "Bang Bang (My Baby Shot Me Down)". Nos anos 1970, Cher divorciou-se de Sonny Bono e liderou a Billboard Hot 100 com os sucessos "Gypsys, Tramps & Thieves", "Half-Breed" e "Dark Lady", tornando-se a cantora solo com mais músicas no topo das paradas nos EUA até então.
Após uma pausa para focar na carreira de atriz, Cher retornou à música com álbuns de rock nos anos 1980 e 1990, como Heart of Stone (1989) e Love Hurts (1991), e hits como "If I Could Turn Back Time" e "The Shoop Shoop Song (It's in His Kiss)". Em 1998, lançou o álbum de eurodance Believe (1998), revolucionando o uso do Auto-Tune, uma ferramenta de correção vocal até então mantida como segredo comercial, ao empregá-la de forma audível e proposital, criando uma sonoridade robótica e inovadora, popularmente conhecida como "efeito Cher". A faixa-título se tornou a música número um de 1999 na Billboard Hot 100 e o single mais vendido por uma cantora na história do Reino Unido. Cher continuou a explorar o dance-pop com álbuns como Living Proof (2001) e Dancing Queen (2018). Com o single "DJ Play a Christmas Song", do álbum natalino Christmas (2023), ela se tornou a única artista solo a liderar as paradas da Billboard em sete décadas consecutivas, dos anos 1960 aos anos 2020.
Na televisão, Cher estrelou programas de grande audiência na década de 1970, incluindo The Sonny & Cher Comedy Hour e o solo Cher, alcançando mais de 30 milhões de telespectadores semanais. Estreou como atriz de teatro na Broadway em 1982 e, em seguida, migrou para o cinema, onde protagonizou sucessos como Marcas do Destino (1985), As Bruxas de Eastwick (1987), Minha Mãe É uma Sereia (1990), Chá com Mussolini (1999), Burlesque (2010) e Mamma Mia! Lá Vamos Nós De Novo (2018). Cher foi indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante por Silkwood: O Retrato de uma Coragem (1983) e é vencedora do Oscar de melhor atriz por Feitiço da Lua (1987). Sua estreia como diretora ocorreu em O Preço de uma Escolha (1996). O musical The Cher Show, baseado em sua vida, estreou na Broadway em 2018.
Com mais de 100 milhões de discos vendidos, Cher é uma das artistas mais bem-sucedidas da história. Suas conquistas incluem um lugar no Hall da Fama do Rock and Roll, um Oscar, um Emmy, um Grammy, três Globos de Ouro, um Cannes, um Prêmio Kennedy e um prêmio especial do Conselho de Designers de Moda dos Estados Unidos. Sua Living Proof: The Farewell Tour (2002–2005) encerrou como a turnê de maior bilheteria por uma artista feminina, arrecadando 250 milhões de dólares. Cher também é reconhecida por sua influência na moda, opiniões políticas, presença nas redes sociais, esforços filantrópicos e ativismo em causas sociais, incluindo a defesa dos direitos LGBTQIA+ e a prevenção ao HIV/AIDS.
Origem, infância e adolescência
Cher (AFI: [ˈʃɛər];) nasceu com o nome de Cheryl Sarkisian em El Centro, na Califórnia, em 20 de maio de 1946. Seu pai, John "Johnny" Paul Sarkisian, era filho de imigrantes armênios refugiados nos Estados Unidos e naturalizados estadunidenses. Seu pai trabalhava como caminhoneiro, seus avós paternos eram sobreviventes do Genocídio Armênio e sua mãe, Jackie Jean Crouch, era uma aspirante a atriz e modelo que atendia pelo nome artístico de Georgia Holt. De origens multiculturais, através de sua mãe, Cher possui ascendência irlandesa, inglesa, alemã, francesa e holandesa. Assim como sua mãe, Cher declara ter em parte remota ascendência ameríndia dos povos nativos dos Estados Unidos, especificamente do povo cherokee, sua mãe Georgia Holt, afirmava ter ascendência indígena cherokee. A relação de seus pais era tempestuosa, como ela revelou anos mais tarde: "Eu [...] tinha dez meses de idade quando ela [sua mãe] se separou do meu pai pela primeira vez e foi a Reno (Nevada) pedir o divórcio". Depois dessa ocasião, eles se casaram e se divorciaram mais duas vezes. O terceiro de oito casamentos de sua mãe foi com o ator John Southall, pai de sua meio-irmã, Georganne. Apesar da união ter durado apenas cinco anos, ela o considera seu pai verdadeiro e se lembra dele como "um homem de boa índole que ficava agressivo quando bebia demais". Eles se divorciaram quando ela tinha nove anos de idade, depois sua mãe se casou com Gilbert Hartmann LaPiere, um gerente de bancos que adotou legalmente à Cher e sua irmã Georganne e incluiu o sobrenome "LaPiere" em seus nomes, tornando-as legalmente suas filhas.
Os vários casamentos e subsequentes divórcios de sua mãe fizeram com que Cher e sua meio-irmã estivessem constantemente de mudança, geralmente com pouco dinheiro. Em determinado momento, sua mãe foi forçada a colocá-la em um orfanato. Embora ela a visitasse todos os dias, foi uma época dolorosa para mãe e filha, como relembrou Georganne: "Minha mãe se recorda disso como a experiência mais traumática da vida dela". Os familiares de Cher tomaram conhecimento de sua criatividade em tenra idade, quando ela "produziu" para sua classe o musical Oklahoma!. Segundo o biógrafo Connie Berman, "ela reuniu um grupo de garotas e dirigiu e criou as coreografias. Como não podia contar com garotos, ela atuou nos papéis masculinos e cantou suas músicas. Mesmo nessa idade, ela já tinha uma voz grave". Apesar dos tempos difíceis e da vida instável, ela tinha um sonho de infância: ser famosa, como ela comentaria anos mais tarde: "Eu não conseguia pensar em qualquer coisa que eu pudesse fazer... Eu não achava que seria uma cantora ou uma dançarina. Eu apenas achava que, bem, eu seria famosa. Esse era o meu objetivo".
Em 1961, sua mãe se casou com o banqueiro Gilbert LaPiere, que a adotou e a matriculou na escola privada de Montclair Prep, na próspera comunidade de Encino, em Los Angeles. Assim como ele, os pais da Montclair Prep tinham trabalhos muito bem remunerados e eram bem-sucedidos financeiramente. Um ambiente social tão diferente representou um desafio para Cher, e ela se destacou dos outros tanto por sua aparência exótica quanto por sua personalidade extrovertida, como relembrou uma ex-colega de classe: "Eu nunca vou me esquecer de quando a vi pela primeira vez. Ela era muito especial. [...] Ela nos disse que seria uma estrela de cinema e nós sabíamos que ela seria". Ela costumava entreter os estudantes na hora do lanche apresentando canções e chocou alguns deles ao vestir roupas que mostravam seu umbigo. Apesar de não ter sido considerada uma aluna exemplar, ela chamava atenção por sua inteligência e criatividade, obtendo boas notas em francês e inglês. Mais tarde, em idade adulta, ela descobriria que é portadora de dislexia, uma condição que limita a habilidade de leitura e escrita. Durante a adolescência, ela teve um breve relacionamento com o ator Warren Beatty.
Década de 1960: Ascensão e queda
Cher deixou a escola e a casa da mãe aos 16 anos para morar em Los Angeles com uma amiga. Lá, ela teve aulas de atuação e passou por vários empregos para se sustentar. Ela chegou a dançar em pequenos clubes na Sunset Strip, em Hollywood, se apresentando para artistas, empresários e agentes. Segundo o biógrafo Connie Berman, "A jovem não hesitava em se aproximar de qualquer um que ela achava que pudesse ajudá-la a [...] fazer um novo contato ou obter testes". No final de 1962, ela conheceu Sonny Bono, um assistente do produtor Phil Spector 11 anos mais velho. Após sua amiga se mudar do apartamento que dividiam, ela passou a trabalhar como governanta na casa dele. A relação dos dois cresceu rapidamente, e eles se tornaram amigos inseparáveis, comprometeram-se e casaram-se, informalmente, em outubro de 1964. Sonny a apresentou a Spector, e ele a usou como vocalista de apoio em algumas de suas produções clássicas, incluindo "You've Lost That Loving Feeling", dos Righteous Brothers, e "Be My Baby", das Ronettes, além de ter produzido seu primeiro single, "Ringo, I Love You", lançado sob o nome de Bonnie Jo Mason. Apesar do fracasso do último, ela estava obstinada a alcançar o estrelato e formou, em 1964, uma dupla com o marido, inicialmente chamada Caesar & Cleo, que lançou os singles malsucedidos "The Letter", "Do You Wanna Dance" e "Love Is Strange".