Charles Robert Richet (Paris, 26 de agosto de 1850 — Paris, 4 de dezembro de 1935) foi um médico fisiologista francês, vencedor do Prêmio Nobel de Fisiologia de 1913, famoso por seu trabalho em anafilaxia, mas também por seus estudos dos efeitos do tratamento com anticorpos, e pelas primeiras tentativas de tratar o câncer com soroterapia.
Versátil, Richet contribuiu com os campos da neurologia e psicologia, além de ser um poeta, dramaturgo, pacifista e pioneiro da aviação.
Interessou-se também por fenômenos paranormais,sendo considerado o pai da metapsíquica, pseudociência precursora da parapsicologia.
Richet nasceu em Paris, França, em 26 de agosto de 1850, em uma família abastada e socialmente proeminente. Seu pai, Louis Dominique Alfred Richet, era chefe do Departamento de Cirurgia da Faculdade de Medicina de Paris, além de chefe de cirurgia do Hospital Hôtel Dieu. Sua mãe se chamava Eugenie Renouard Richet.
Visitando regularmente seus avós maternos, foi influenciado pela personalidade de seu avô, Charles Renouard, jornalista liberal e especialista em direito marítimo, que lhe incutiu a busca incessante por conhecimento, e fez com que florescesse o interesse por temas como latim, vela, artes e literatura, dentre muitos outros.
Primeiros anos, formação e casamento
Em 1861, ingressou no prestigiado Liceu Bonaparte. Dedicou-se muito pouco aos estudos, preferindo a escrita de poesias e peças teatrais. Com seu amigo Paul Fournier, escreveu um livro de versos, intitulado "Le livre d'or de la comtesse Diane", contendo brincadeiras e "bons mots", que acabou sendo publicado sob o título "Maximes de la vie". Foi durante este período de sua vida que Richet começou a se interessar por parapsicologia.
Em 1867, formou-se no Liceu e obteve o bacharelado. Querendo agradar ao pai, matriculou-se na Faculdade de Medicina de Paris. Com o início da Guerra Franco-Prussiana, em 1870, Richet interrompeu seus estudos e serviu, como guarda, no Hôtel des Invalides, experiência que aprofundou seu apreço pela paz, e aumentou seu desgosto pela violência. Voltando aos estudos após o conflito, acabou optando pela fisiologia, e não pela cirurgia como seu pai, para se tornar doutor em medicina, em 1877. Seu interesse pela fisiologia experimental foi seguido por um doutorado em ciências, em 1877, e por diplomas adicionais, em ciências anatômicas, físicas e naturais.
Ainda em 1877, casou-se com Amélie Aubry, com quem teve cinco filhos, Georges, Jacques, Charles, Albert e Alfred, além de duas filhas, Louise e Adele.
Em 1881, Richet chefiou um laboratório de fisiologia, antes de assumir uma cadeira como professor de fisiologia na Universidade de Paris-Sorbonne, cargo que ocupou entre os anos de 1887 e 1927.
Richet foi editor do Revue Scientifique por vinte e quatro anos, entre 1878 e 1902, além de co-editor do Journal de Physiologie et de Pathologie Générale, entre 1917 e 1935, ano de seu falecimento. Durante sua carreira, publicou mais de 700 artigos em revistas científicas, escreveu romances — como "Possession", de 1887 e "Soeur Marthe", de 1890 —, peças de teatro — como "Socrate", de 1910 —, e poemas — como "La Gloire de Pasteur", de 1913 —, sob o pseudônimo Charles Epheyre. O ápice de sua carreira como dramaturgo, no entanto, foi com "Circé", peça em verso que estreou em 3 de abril de 1905 no Teatro de Monte Carlo, com a famosa atriz Sarah Bernhardt atuando no papel principal.
Richet faleceu em sua casa parisiense, em 4 de dezembro de 1935, aparentemente devido a complicações de insuficiência cardíaca. Ele tinha 85 anos. De todos os elogios que recebeu em vida, nenhum o expressou melhor do que aquele dado pelo neurofisiologista, e também ganhador do Nobel, Sir Charles Sherrington: "Homenagear Richet é homenagear o espírito da fisiologia em sua apresentação mais elegante, eloquente e inspiradora".
Desde o início de sua carreira, Richet se concentrou em pesquisas ligadas à medicina, particularmente no campo da fisiologia. Trabalhou nos laboratórios de vários cientistas renomados de sua época, entre os quais Jules Marey, Marcelin Bethelot, Alfred Vulpian, Paul Bert e Charles Robin. O médico e fisiologista francês Claude Bernard foi uma importante influência em suas pesquisas, especialmente em suas experiências relacionadas à natureza do suco gástrico, que o levaram a afirmar, pela primeira vez, que o ácido clorídrico era a base de tal fluido.
Richet investigou também o uso de injeção seroterápica para tuberculose, compostos anestésicos, métodos de tratamento de epilepsia, a natureza das contrações musculares, os efeitos tóxicos de sais inorgânicos, o controle nervoso dos batimentos cardíacos e os efeitos diuréticos do açúcar.
Em 1883, Richet começou a estudar o mecanismo de termorregulação, descobrindo a perda de calor em cães através de sua respiração ofegante. Em 1887, Richet descobriu o papel do cérebro na regulação da temperatura corporal, e realizou diversos experimentos metabólicos em colaboração com Maurice Hanriot, estudando, entre outros, o efeito da fome no corpo humano.
Percebendo a necessidade de um anestésico mais eficiente do que o clorofórmio, empregado na época, Richet inventou, junto com seus assistentes, um novo composto a partir da antiga base clorofórmica e da sacarose, ao qual chamaram cloralose. Seu efeito era o de um sono hipnótico, porém mantendo todos os reflexos animais intactos. No decorrer da Primeira Guerra Mundial, Richet demonstrou a utilidade da cloralose como anestésico geral, recomendando-o como alternativa ao éter durante a realização de partos.
Considerado o mais importante trabalho de Charles Richet no campo da fisiologia, a pesquisa e os estudos que levaram à descoberta da anafilaxia começaram no ano de 1901. Acompanhado por Paul Portier, professor de fisiologia comparativa da Universidade de Paris, em 1901 Richet se uniu a uma expedição científica, liderada pelo Príncipe Alberto I, de Mônaco, que nutria um grande interesse por oceanografia. O objetivo inicial da expedição era estudar os efeitos tóxicos do fluido dos nematocistos da caravela-portuguesa e dos tentáculos da anêmona-do-mar e tentar a imunização dos animais contra as toxinas.
No entanto, ao invés de obter a profilaxia, Richet e Portier acabaram por induzir uma reação de hipersensibilidade fatal ao cão de Richet, Netuno, durante a viagem. De volta ao laboratório em Paris, repetiram o experimento, observando que uma única injeção da toxina não produziu sintomas nos cães mas que, uma segunda injeção, administrada em um intervalo entre 14 e 22 dias, provocou sintomas clássicos de choque e morte, em menos de 30 minutos. Eles descreveram este resultado como a administração de uma substância que é insuficiente para matar um animal normal, mas que produz sintomas fulminantes e morte* em um animal previamente inoculado com a mesma substância.