Carolina Beatriz Ângelo (Guarda, São Vicente, 16 de abril de 1878 – Lisboa, 3 de outubro de 1911) foi uma médica e feminista portuguesa. Foi a primeira mulher cirurgiã e a primeira mulher a votar em Portugal, por ocasião das eleições da Assembleia Nacional Constituinte, em 1911.
O facto de ser viúva e de sustentar a sua filha Maria Emília Ângelo Barreto (1903–1981), permitiu-lhe invocar em tribunal o direito de ser considerada «chefe de família», tornando-se assim a primeira mulher a votar no país, nas eleições constituintes, a 28 de maio de 1911. Por forma a evitar que tal exemplo pudesse ser repetido, a lei do código eleitoral português foi alterada no ano seguinte, com a especificação de que apenas os chefes de família do sexo masculino poderiam exercer o seu direito de voto.
Carolina Beatriz Ângelo nasceu a 16 de abril de 1878, na casa de sua família, em São Vicente, concelho da Guarda, filha de Viriato António Ângelo (1850–1908), jornalista e proprietário da tipografia que imprimia o periódico Distrito da Guarda, e de sua mulher Emília Clementina de Castro Barreto (1849–), doméstica, sendo ambos naturais da mesma localidade. Era neta paterna de Manuel Ângelo e de sua mulher Maria Tecla de Jesus e pelo lado materna de Pedro Augusto Pereira Barreto, amanuense da Administração do Concelho, e de sua mulher e prima Firmina Augusta de Melo e Castro Barreto. Era também a segunda filha do casal, sendo irmã de Viriato (1876–1877) e Mariana (1879–1880), que faleceram ainda crianças, e de Viriato (1881–1940), que recebeu o nome do pai e do falecido irmão, Corina da Soledade (1884–1933) e Eurico Ângelo. Foi baptizada a 20 de maio de 1878 na Igreja Paroquial de São Vicente da Guarda, contando apenas com um mês de idade, tendo como padrinhos o Dr. Afonso Barreto Pereira de Campos e a sua esposa Carolina Cândida de Campos Barreto.
Durante a sua infância, Beatriz, como era chamada pela família e amigos, cresceu num ambiente familiar liberal. O seu pai e avô materno apoiavam o Partido Progressista e estavam ligados à actividade jornalística da região, permitindo-lhe estudar e ingressar no Liceu da Guarda, em 1891, onde concluiu os estudos primários e secundários.
Fixando-se com a sua família em Lisboa na última década de oitocentos, prosseguiu o seu percurso académico e ingressou na Escola Politécnica e na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, onde concluiu o curso de Medicina em 1902. Apesar de ser a única mulher na sua turma, Beatriz Ângelo foi bem recebida pelos seus colegas, mantendo a sua relação de amizade com os futuros cirurgiões Fernando Matos Chaves, Jorge Marçal da Silva e Senna Pereira até ao fim da sua vida. Pela mesma ocasião, conheceu pela primeira vez o seu primo e colega Januário Barreto, com quem viria a se casar. Teve como professores José António Serrano, José Curry da Câmara Cabral, Manuel Vicente Alfredo da Costa, Francisco Augusto de Oliveira Feijão, Ricardo Jorge e Miguel Bombarda, com quem veio a trabalhar anos mais tarde.
A 3 de dezembro de 1902, contando 24 anos, Beatriz Ângelo casou na Igreja Paroquial de Santa Justa e Santa Rufina, em Lisboa, com Januário Gonçalves Barreto Duarte (1877–1910), natural de Aldeia do Souto, Covilhã, casapiano, médico, activista republicano e um dos fundadores da Liga Portugeza de Foot-Ball. O seu irmão Viriato Ângelo, funcionário público, também casaria pouco depois com a sua prima, irmã de Januário, Maria José Barreto Duarte.
Do seu casamento, nasceu apenas uma filha: Maria Emília Ângelo Barreto (1903–1981). Anos mais tarde, Maria Emília tornou-se professora de filosofia do Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho e casou-se, em 26 de setembro de 1932, com o também professor Humberto de Matos Fagundes, natural de Angra do Heroísmo. Foram pais do advogado e activista anti-fascista Jorge Humberto Fagundes (1936-2010).
Na sua carreira médica destaca-se o facto de em 1903 ter apresentado a sua dissertação inaugural “Prolapsos Genitaes (Apontamentos)”, iniciando a sua prática como a primeira cirurgiã portuguesa, feito notável que contrariava a tendência fortemente sexista dos blocos operatórios da época. Tornar-se-ia então na primeira mulher portuguesa a operar no Hospital de São José, sob a direcção de Sabino Maria Teixeira Coelho. Pouco depois começou a trabalhar ainda no Hospital Psiquiátrico de Rilhafoles, sob a orientação de Miguel Bombarda, e dedicou-se à especialidade de Ginecologia, com consultório particular na baixa lisboeta, nomeadamente na Rua Nova do Almada.
O ambiente anti-monárquico dos últimos anos do século XIX e primeiros do século XX caldeou a ideologia republicana, maçónica e feminista entre a burguesia liberal lisboeta, e sem excepções, Carolina Beatriz Ângelo. A sua militância em organizações defensoras dos direitos das mulheres iniciou-se em 1906 no comité português da agremiação francesa La Paix et le Désarmement par les Femmes, uma associação que tinha por objectivo a resolução de conflitos bélicos pela forma do diálogo, seguindo-se em 1907, no Grupo Português de Estudos Feministas, conduzido por Ana de Castro Osório, e na Maçonaria, na Loja Humanidade, sob o nome simbólico de Lígia.
Em 1909, fez parte do grupo de mulheres que fundou a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas (LRMP), defensora dos ideais republicanos, do sufrágio feminino, do direito ao divórcio, da instrução das crianças e de direitos e deveres igualitários para homens e mulheres. Apenas um ano depois, o seu marido Januário Barreto viria a falecer, vítima de tuberculose, sem antes ver o fim da Monarquia, como tanto desejava, deixando-a com a filha Maria Emília Barreto Ângelo, ainda pequena, para criar.
A 5 de outubro de 1910, dá-se a Implantação da República, tendo Carolina Beatriz Ângelo e Adelaide Cabete sido as responsáveis pela confecção secreta das bandeiras vermelhas e verdes, simbolizando a bem sucedida revolução. Logo após, esteve envolvida na fundação da Associação de Propaganda Feminista (APF). Esta associação, que chegou a dirigir, teve origem na cisão da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas por questões relacionadas com o sufrágio feminino. No âmbito da Associação de Propaganda Feminista projectou a criação de uma escola de enfermeiras, o que é referido como mais uma manifestação da sua preocupação com a emancipação das mulheres.
Eleições da Assembleia Constituinte de 1911
Por toda a Europa, e não só, havia anos que as sufragistas reivindicavam ruidosamente o direito ao voto para as mulheres e a Nova Zelândia tinha-se tornado o primeiro país a concedê-lo em 1893. Na Europa, a Finlândia era o único país europeu que reconhecia o sufrágio feminino, em 1911. A primeira lei eleitoral da República Portuguesa reconhecia o direito de votar aos «cidadãos portugueses com mais de 21 anos, que soubessem ler e escrever e fossem chefes de família». Carolina Ângelo viu nesta redacção da lei a oportunidade de a «subverter» a seu favor, dado que, gramaticalmente, o plural masculino das palavras inclui o masculino e o feminino. Viúva e com uma filha menor a cargo, com mais de 21 anos e instruída, dirigiu ao presidente da comissão recenseadora do 2º Bairro de Lisboa um requerimento no sentido do seu nome «ser incluído no novo recenseamento eleitoral a que tem de proceder-se». A pretensão foi indeferida pela comissão recenseadora, o que a levou a apresentar recurso em tribunal, argumentando que a lei não excluía expressamente as mulheres.
A 28 de abril de 1911, o juiz João Baptista de Castro, pai de Ana de Castro Osório e de Alberto Osório de Castro, proferiu a sentença que ficaria para a História: «Excluir a mulher (…) só por ser mulher (…) é simplesmente absurdo e iníquo e em oposição com as próprias ideias da democracia e justiça proclamadas pelo Partido Republicano. (…) Onde a lei não distingue, não pode o julgador distinguir (…) e mando que a reclamante seja incluída no recenseamento eleitoral».
Assim, a 28 de maio do mesmo ano, nas eleições para a Assembleia Nacional Constituinte, Carolina Beatriz Ângelo tornou-se a primeira mulher portuguesa a exercer o direito de voto, mas não sem um pequeno incidente, que a mesma relatou ao jornal A Capital: «No final da primeira chamada, o presidente da assembleia de voto, Sr. Constâncio de Oliveira, consultou a mesa sobre se deveria ou não aceitar o meu voto, consulta na verdade extravagante, porquanto, estando recenseada em virtude duma sentença judicial, a mesma não tinha competência para se intrometer no assunto». O caso foi amplamente noticiado em Portugal e felicitado em diversos países do mundo por associações feministas.