Carlos II (Sinaia, 15 de outubro de 1893 – Cascais, Estoril, 4 de abril de 1953), foi o Rei da Romênia de 1930 até sua abdicação forçada em setembro de 1940. O filho mais velho do rei Fernando I da Romênia e de sua esposa, a princesa Maria de Saxe-Coburgo-Gota, tornou-se príncipe herdeiro após a morte de seu tio-avô, o rei Carlos I em 1914. Ele foi o primeiro dos reis Hohenzollern da Romênia a nascer no país; ambos os seus antecessores nasceram na Alemanha e só vieram para a Romênia quando adultos. Foi o primeiro membro da família real que falava romeno como sua língua primeira, e também o primeiro membro da família a ser batizado e criado na fé ortodoxa.
Carlos nasceu no Castelo de Peleş, durante o reinado de Carlos I. Ingressou no exército real romeno em 1908 com o posto de Alferes, alcançando o rank de General em 1923 e posteriormente de Marechal em 1930. Em novembro de 1914, pouco depois de completar 21 anos, passou a ocupar uma vaga no senado romeno — privilégio constitucional dos herdeiros presuntivos da coroa quando atingiam a maioridade. Conhecido mais pelas desventuras românticas do que por sua capacidade de liderança, Carlos casou-se em 31 de agosto de 1918 na Catedral de Odessa, na Ucrânia, com Joana Maria Valentina Lambrino, conhecida pelo apelido de Zizi, filha de um general romeno. Esta união contrariava as leis romenas para casamentos reais, que proibiam o casamento de reis e príncipes herdeiros com mulheres de origem romena. O casal teve apenas um filho, Mircea Gregor Carol Lambrino, e o casamento foi anulado por decisão do tribunal de Ilfov em 1919.
Casou-se novamente em 10 de março de 1921, em Atenas, com Helena de Grécia e Dinamarca, filha de Constantino I da Grécia e de Sofia da Prússia. O casamento logo entrou em colapso devido ao envolvimento extraconjugal de Carlos com a católica Elena "Magda" Lupescu, filha de pai judeu e mãe católica romana, que já havia sido casada com um oficial do exército.
Como consequência do escândalo, Carlos renunciou aos seus direitos ao trono em 28 de dezembro de 1925, em favor do príncipe Miguel (Mihai), seu filho com Helena, que tornou-se rei em julho de 1927. O Partido Nacional Camponês (PNŢ), de oposição ao governo, não aprovou a renúncia, alegando que o primeiro-ministro liberal Ion I. C. Brătianu — adversário político de Carlos — havia forçado o rei a excluir o filho da sucessão. O casamento com a princesa Helena chegou ao fim em 1928, quando ela pediu o divórcio. Carlos teria ainda um casal de filhos com outra amante, Maria Martini, uma estudante de ensino médio.
Carlos viveu comodamente no exílio entre Londres, Paris e as cidades turísticas da moda. Durante esses anos, consolidou-se sua fama de dissoluto e mulherengo, personagem habitual da Imprensa Marrom. Houve quem se aproximasse dele visualizando a possibilidade de tê-lo como fundador de um novo sistema político na Romênia, alheio à democracia, mas os liberais que governavam o país se opuseram a tal ideia.
Apesar da fama de conquistador e playboy, Carlos mostrou, com o passar dos anos, ser um político astuto, alijando os partidos tradicionais do poder, mesmo sem demonstrar valor algum como estadista. Com notável inclinação para o exercício do poder e parcas ideias políticas, Carlos não possuía conhecimento nem opinião própria sobre economia, o que fez com que buscasse apoio entre os industriais — que ganharam posições de destaque ao longo de seu reinado.
Em 6 de junho de 1930, Carlos desembarcou de surpresa em Bucareste. Para sua coroação, contou com o apoio de amplos setores da sociedade, que desejava um monarca maduro, capaz de acalmar o cenário político interno.
Prontamente, Carlos II demonstrou que sua ambição ia na contramão dos anseios populares, rodeando-se de industriais, banqueiros e políticos de direita, que ficaram conhecidos como Camarilă (A Camarilha), O rei converteu-se rapidamente no centro da vida política do país e iniciou sua estratégia de minar os partidos tradicionais, estimulando as dissidências internas e arregimentando os descontentes.
Obcecado por futebol, escalou pessoalmente a Seleção Romena para a Copa do Mundo de 1930, entregando ao técnico do time uma lista com o nomes de todos os jogadores, titulares e reservas, que deveriam viajar ao Uruguai, país-sede da competição.
Governos de transição e regresso dos liberais
Entre a renúncia de Iuliu Maniu, em outubro de 1930, e o regresso dos liberais ao poder, em novembro de 1933, a situação do país tornou-se mais confusa que o habitual. A crise econômica assolava o país e o sistema político "semi-democrático" começava a se desintegrar, fortalecendo os movimentos extremistas. A tentativa de Carlos de reorganizar a vida política da nação, foi infrutífera. Ele pensava que os partidos tradicionais haviam perdido sua razão e desejava substituí-los por elementos mais "modernos", introduzindo, a princípio, um governo de personalidades apartidárias. Em 18 de abril de 1931, ele colocou suas ideias em prática, encarregando o famoso historiador Nicolae Iorga de formar um novo governo. Imediatamente, Carlos anunciou sua intenção de presidir o Conselho de Ministros semanalmente.
Logo surgiram os primeiros desentendimentos entre o rei e seu governo, devido à crise que obrigou a redução dos salários, medida a que Carlos se opôs, forçando a renúncia de Iorga em junho de 1932. Até o final de 1933, sucederam-se diversos gabinetes compostos pelos nacional-camponeses, que não conseguiram melhorar a situação política e econômica, gerando uma crise no partido. Após cinco anos longe do governo, os liberais do Partido Nacional Liberal (PNL) regressaram, inicialmente com o efêmero Ion G. Duca - assassinado pela Guarda de Ferro em dezembro de 1933 - e, mais tarde, com Gheorghe Tătărescu, que conseguiu manter-se à frente do governo por quatro anos.
Nos três anos que se passaram entre seu retorno à Romênia e sua ascensão ao trono, Carlos II não conseguiu estabelecer o governo de personalidades apartidárias que tanto desejava, mas aumentou consideravelmente sua influência na política nacional e iniciou a desintegração dos "partidos tradicionais", especialmente do PNŢ, mergulhado em profunda crise após anos no governo.
O rei monopolizava cada vez o poder político e permanecia desconfiando dos partidos. Para fazer frente à crescente popularidade da formação fascista da Guarda de Ferro, criou sua própria organização juvenil, a Straja Ţării ("Guarda da Pátria"), em 1934, enquanto o governo adotou algumas das posturas típicas da extrema direita, aproveitando-se da popularidade desta corrente em todo o país, ainda mergulhado em graves problemas sociais (miséria camponesa) e econômicos (Grande Depressão).
Inicia-se nessa época um esforço para a industrialização do país, para reverter o atraso do Estado e reduzir a população do campo, que vivia na pobreza. Favoreceu-se, especialmente, indústria pesada, à custa do desenvolvimento rural — independentemente de sua relação com a agricultura —, ocupação da grande maioria da população. Esta tendência fez com que a política nacional caminhasse para um regime corporativista.
A industrialização também gerou uma corrupção generalizada e o controle pela Camarilha Real de grande parte da nova indústria do país — sem condições de competir com indústrias estrangeiras, mas protegidas pelo Estado. A família real, com Carlos à frente, estava profundamente envolvida nas sociedades industriais.
A política externa sofreu uma mudança em 1936: a despeito da tradicional proximidade com a França, principal apoiadora da Romênia durante a Primeira Guerra Mundial, o fracasso desta em frear o crescimento do poderio alemão, aliada à crescente incapacidade da Sociedade das Nações, fizeram com que Carlos substituísse seu ministro de relações exteriores, o pró-ocidente Nicolae Titulescu, e se encarregou pessoalmente de dirigir a política externa da nação, aumentando ainda mais seu poder político e consolidando suas tendências autoritárias.
Nas eleições de dezembro de 1937, a "Legião" alia-se a outros partidos para impedir que os liberais alcancem maioria absoluta no parlamento e atingem seu objetivo. O rei, atraído pelo ideário de Codreanu, decide, no entanto, encarregar seus rivais do Partido Nacional Cristão, de Alexandru C. Cuza e Octavian Goga (9,7% dos votos), de compor um novo governo. Sua amante judia e as duras críticas a seus colaboradores o afastam de Goga.