Carlos Eduardo Luís Casimiro Silvestre Stuart (em inglês: Charles Edward Louis Casimir Sylvester Stewart; Roma, 31 de dezembro de 1720 – Roma, 31 de janeiro de 1788), conhecido como Bonnie Prince Charlie, filho de Jaime Francisco Eduardo Stuart e de Maria Clementina Sobieska, foi um pretendente Stuart ao trono da Inglaterra, Escócia (unidos desde 1707 no Reino da Grã-Bretanha) e Irlanda. Seus partidários o reconheciam como rei Carlos III. Era neto do rei católico Jaime II de Inglaterra (VIII da Escócia), deposto pela Revolução Gloriosa e exilado na França.
Ele nasceu em Roma e passou a maior parte de sua vida na Itália. Em 1744, ele viajou para a França para participar de uma invasão planejada para restaurar a monarquia Stuart sob seu pai. Quando a frota francesa foi parcialmente destruída por uma tempestade, Carlos Eduardo, após discussões com líderes jacobitas, decidiu viajar para a Escócia. Isso levou ao desembarque de Carlos Eduardo na costa oeste da Escócia e ao Levante jacobita de 1745. Suas forças jacobitas inicialmente alcançaram algumas vitórias no campo de batalha, como a Batalha de Prestonpans em setembro de 1745 e a Batalha de Falkirk Muir em janeiro de 1746. No entanto, Carlos Eduardo foi derrotado na Batalha de Culloden em abril de 1746, efetivamente encerrando a reivindicação Stuart. Apesar das tentativas subsequentes, como a invasão francesa planejada de 1759, Carlos Eduardo não obteve êxito em devolver o trono à sua dinastia. Ele fugiu da Escócia após a rebelião e foi retratado como um símbolo romântico de uma causa perdida.
Uma vez derrotado, Carlos Eduardo passou o restante de sua vida no continente europeu, exceto por uma visita secreta a Londres. Após retornar, residiu brevemente na França até ser expulso em 1748, conforme os termos do Tratado de Aquisgrão. Carlos Eduardo acabou voltando à Itália, onde passou a maior parte de seus últimos anos vivendo entre Florença e Roma. Antes de se casar, em 1772, com a princesa Luísa de Stolberg-Gedern, teve diversas amantes. Em sua velhice, sua saúde deteriorou-se significativamente, sendo frequentemente descrito como alcoólatra. No entanto, suas fugas durante o levante de 1745 e sua evasão da Escócia contribuíram para a construção de sua imagem como um herói romântico melancólico. Sua vida e a possibilidade, ainda que breve, de restauração da dinastia Stuart, originaram uma lenda histórica duradoura que continua a ser transmitida até os dias atuais.
Carlos Eduardo nasceu em 31 de dezembro de 1720, Palácio Muti, em Roma — residência oferecida ao seu pai pelo Papa Clemente XI. Historiadores divergem sobre quem realizou sua cerimônia de batismo. Susan Maclean Kybett afirma que foi o próprio Clemente XI quem presidiu; já Hugh Douglas e Peter Pininski dizem que foi o bispo de Montefiascone. Ele foi nomeado Carlos em homenagem ao seu bisavô, o rei Carlos I de Inglaterra, Eduardo em homenagem a Eduardo, o Confessor, Luís em homenagem ao rei Luís XV de França, Casimiro em homenagem aos reis poloneses e Silvestre em homenagem ao seu nascimento no dia da festa de São Silvestre.
Ele era filho de Jaime Francisco Eduardo Stuart, conhecido como "o Velho Pretendente", sendo neto do rei exilado Jaime II de Inglaterra (VIII da Escócia). Sua mãe, Maria Clementina, era neta do rei João III Sobieski da Polônia, famoso por derrotar os turcos otomanos na Batalha de Viena, em 1683. Seu avô, Jaime II & VII, reinou de 1685 atê 1688, ano em foi deposto pela Revolução Gloriosa e o parlamento convidar o príncipe Guilherme de Orange, um protestante holandês, e sua esposa Maria, a filha mais velha do primeiro casamento de Jaime, para assumir o trono. Muitos protestantes, incluindo parlamentares, temiam que Jaime quisesse restaurar o catolicismo na Inglaterra. Desde o exílio de Jaime e com o Ato de Sucessão de 1701, o movimento jacobita passou a lutar pela restauração da Casa de Stuart nos tronos da Inglaterra, Irlanda e Escócia, reinos unificados formalmente em 1707 pelo Ato de União, formando o Reino da Grã-Bretanha. Carlos Eduardo desempenharia um papel central nessa causa.
Segundo relatos, Carlos Eduardo teve fraqueza nas pernas durante a infância, possivelmente devido ao raquitismo. Contudo, ele recebeu treinamento físico e aulas de dança, o que melhorou seu condicionamento com o tempo. Ele passou a maior parte da infância entre Roma e Bolonha, cercado por um pequeno séquito e por uma família amorosa, porém com muitos conflitos. Seu irmão mais novo, Henrique Benedito Stuart, nasceu cinco anos depois, em março de 1725. Os pais de Carlos Eduardo frequentemente brigavam. Após o nascimento de Henrique, Maria Clementina deixou o palácio e se retirou para um convento, onde permaneceu até 1727. Apesar de haver alguns protestantes na casa, e do Papa inicialmente ter mostrado preocupação com sua formação religiosa, Carlos Eduardo foi educado como católico. Como herdeiro legítimo dos tronos da Inglaterra, Escócia e Irlanda, Jaime e sua família viviam com um forte senso de orgulho e crença no direito divino dos reis. Durante a maior parte de sua juventude, Carlos Eduardo conviveu principalmente com homens mais velhos, muitos dos quais atuaram como seus tutores. O responsável principal por sua educação foi James Murray, conde (jacobita) de Dunbar. Seus outros tutores incluíam o cavaleiro Ramsay, Sir Thomas Sheridan e o padre católico Vincenzo Girella. Carlos Eduardo logo aprendeu inglês, francês e italiano, embora relatos indiquem que ele nunca dominou completamente nenhum idioma e que era parcialmente analfabeto. Na infância, ele gostava de caçar, cavalgar, jogar golfe, ouvir música e dançar.
Viagens pela Europa: 1734-1745
Em 1734, seu primo, o duque de Liria, que havia se juntado ao lado do príncipe Carlos da Espanha na disputa pelo trono de Nápoles, passou por Roma. Ele propôs levar Carlos Eduardo para a expedição, e o garoto de treze anos foi nomeado general de artilharia por Carlos. Em 30 de julho, ele deixou Roma escoltado, partindo com o primo em direção à França e à Espanha para o cerco de Gaeta; esse foi seu primeiro contato com a guerra. Em Gaeta, ele observou as etapas finais do cerco, e diz-se que chegou a ser alvo de fogo inimigo nas trincheiras. Ele retornou a Roma no final de 1734. Pouco depois do seu aniversário de quatorze anos, em janeiro de 1735, sua mãe, Maria Clementina, morreu de escorbuto. Ela já vinha com a saúde debilitada há meses, mas diz-se que Carlos Eduardo ficou profundamente abalado com sua morte.
Ao crescer, Carlos Eduardo foi apresentado à sociedade italiana por seu pai e pelo Papa. Em 1737, Jaime enviou seu filho em uma viagem pelas principais cidades da Itália para completar sua educação como príncipe e homem experiente. Carlos Eduardo visitou Gênova, Florença, Parma, Bolonha e Veneza. Essa viagem o deixou frustrado, pois ele esperava ser recebido como um príncipe real. No entanto, a maioria das cortes europeias apenas o reconhecia como "Duque de Albany", um título histórico adotado pela realeza escocesa do século XIV. Apesar de ser católico, muitos países europeus queriam evitar confrontos com a Grã-Bretanha; Veneza foi a única exceção.
Aos vinte anos, Carlos Eduardo já era uma figura proeminente na alta sociedade romana, desenvolvendo um gosto por bebidas alcoólicas e roupas elegantes; gastos que frequentemente excediam sua pensão. Como seu irmão Henrique se dedicava à oração e aos estudos religiosos, os dois tornaram-se cada vez mais distantes. Seu pai continuava a depender de apoio estrangeiro para recuperar os tronos da Inglaterra e da Irlanda, mas Carlos Eduardo passou a apoiar mais a ideia de uma revolta sem invasão nem ajuda externa. Em 1743, como não podia ir pessoalmente à Grã-Bretanha, Jaime nomeou Carlos Eduardo como regente, dando-lhe poder para agir em seu nome.
Em janeiro de 1744, Jaime acreditou, erroneamente, que havia recuperado o apoio de fato do governo francês reorganizado. Baseado nessa falsa crença, Carlos Eduardo partiu secretamente de Roma rumo à França, inicialmente com o pretexto de uma viagem de caça. No entanto, o governo francês e o rei Luís XV nunca haviam convidado oficialmente Carlos Eduardo. Em fevereiro, porém, o governo francês concordou com um plano para invadir a Inglaterra, na esperança de forçar os britânicos a retirarem suas tropas da Guerra da Sucessão Austríaca. Carlos Eduardo então foi a Dunquerque com a intenção de acompanhar as tropas francesas na travessia da Inglaterra. No entanto, a invasão nunca aconteceu, pois a frota francesa foi dispersada por uma tempestade durante o equinócio da primavera, perdendo 11 navios. Quando a frota conseguiu se reagrupar, a marinha britânica já havia descoberto a manobra e estava em alerta no Canal da Mancha.