Carlos Ribeiro Justiniano Chagas (Oliveira, 9 de julho de 1878 – Rio de Janeiro, 8 de novembro de 1934) foi um cientista, médico sanitarista, professor, infectologista e bacteriologista brasileiro. Atuante na saúde pública do Brasil, iniciou sua carreira no combate à malária. Destacou-se ao descobrir o protozoário Trypanosoma cruzi (cujo nome foi uma homenagem ao seu mestre e amigo Oswaldo Cruz) e a tripanossomíase americana, conhecida como doença de Chagas. Ele foi o primeiro e até os dias atuais permanece como o único cientista na história da medicina a descrever completamente uma doença infecciosa: o patógeno, o vetor (Triatominae), os hospedeiros, as manifestações clínicas e a epidemiologia.
Foi diversas vezes laureado com prêmios e títulos de instituições do mundo inteiro. Também trabalhou no combate à leptospirose e às doenças venéreas.
Carlos Ribeiro Justiniano Chagas nasceu em Oliveira, Minas Gerais, no dia 9 de julho de 1878, filho de José Justiniano Chagas e Mariana Candida Ribeiro de Castro Chagas. O lugar de seu nascimento foi a Fazenda Bom Retiro, a 20 km da cidade, onde seus antepassados, de ascendência portuguesa, se estabeleceram.
Seu pai, cafeicultor, morreu quando Chagas tinha quatro anos de idade, ficando a cargo de sua mãe a administração do cultivo do café e da criação dele e de seus outros quatro irmãos: Maria Rita, José (que morreu com três anos de idade), Marieta e Serafim. Eles foram morar em outra propriedade da família, a Fazenda Bela Vista, próxima a Juiz de Fora, também no estado de Minas Gerais.
Em Oliveira teve convivência direta com três tios maternos: Cícero, Olegário e Carlos. Os dois primeiros eram advogados formados em São Paulo e incentivaram o sobrinho a se dedicar aos estudos. Porém, o último era formado em Medicina e proprietário de uma casa de saúde em Oliveira. As ações desse tio o influenciaram a seguir a carreira médica.
Aos oito anos de idade e já alfabetizado foi matriculado no Colégio São Luís, dirigido por jesuítas, em Itu, interior de São Paulo. Entretanto, fugiu do internato em 1888 para ir ao encontro da mãe, em Juiz de Fora, ao saber que os escravos recém-libertados estariam depredando fazendas. A punição para essa fuga foi a expulsão de Chagas do colégio pelos jesuítas. De lá ele foi transferido para o Ginásio São Francisco, em São João del-Rei, Minas Gerais.
Após encerrar os estudos secundários, Chagas ingressou no curso preparatório para a Escola de Minas de Ouro Preto por vontade de sua mãe, que gostaria de vê-lo formado em Engenharia. Em companhia de colegas do curso, aderiu a vida boêmia. Adoentado, em 1896, depois de reprovado nos exames, voltou para Oliveira.
Durante o tempo de recuperação em sua cidade natal, seu tio Carlos fortaleceu a vontade de Chagas em ser médico e o ajudou a vencer a barreira de sua mãe, que acabou aceitando a opção do filho. Seguiu, então, para São Paulo com o intuito de obter os diplomas básicos exigidos para a matrícula no curso médico. Conseguindo tais documentos, em fevereiro de 1897 seguiu para o Rio de Janeiro a fim de cursar medicina.
Aos 18 anos, em abril de 1897, ingressou na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (atual Universidade Federal do Rio de Janeiro). Tal faculdade estava passando por um processo de renovação, além de viver um clima de "revolução pasteuriana" em seu conteúdo programático.
Ao longo do curso dois professores exerceram grande influência em sua carreira. Miguel Couto, que apresentou a Chagas as noções e as práticas da clínica moderna e com quem passaria a ter uma estreita amizade, e Francisco Fajardo, que o colocou em contato com temas ligados àsdoenças tropicais, especialmente a malária, e que seria de grande importância para sua futura carreira. Esses dois professores apresentaram os dois caminhos que se abriram para Chagas no decorrer de seu curso médico: a clínica e a pesquisa científica.
Para elaborar sua tese de doutoramento (pré-requisito para o exercício da medicina) dirigiu-se ao Instituto Soroterápico Federal, na Fazenda de Manguinhos, levando uma carta de apresentação de Miguel Couto para Oswaldo Cruz, diretor do instituto. Assim, Chagas teve o primeiro contato com o cientista, que seria seu grande mestre e amigo.
Orientado por Oswaldo Cruz, começou a trabalhar no Instituto Soroterápico Federal (que em 1908 passou a se chamar Instituto Oswaldo Cruz) e elegeu como tema da tese de doutoramento o ciclo evolutivo da malária na corrente sanguínea. Em março de 1903 estava concluída a sua tese, intitulada Estudos hematológicos no impaludismo, que foi defendida em maio do mesmo ano. Em 23 de abril de 1904 recebeu seu diploma. Oswaldo Cruz, que dirigia simultaneamente o Instituto Soroterápico Federal e a Diretoria Geral de Saúde Pública, nomeou Chagas como médico do instituto, cargo que ele recusou por preferir, em 1904, ir trabalhar como clínico em hospital de Jurujuba, em Niterói. Foi nomeado como médico da Diretoria Geral de Saúde Pública em 15 de março de 1904. Nesse mesmo ano instalou seu laboratório particular no Rio de Janeiro e casou-se com Íris Lobo, filha do senador Fernando Lobo Leite Pereira, que conheceu por intermédio de Miguel Couto. Dessa união nasceram seus dois filhos, Evandro (em 1905) e Carlos Filho (em 1910). Ambos seguiriam a carreira médica e científica do pai.
Por causa de sua tese de doutoramento sobre malária, em 1905 foi recrutado por Cruz para a missão de controlar a doença em Itatinga, interior de São Paulo, que atacava a maioria dos trabalhadores da Companhia Docas de Santos, que construía uma represa na região, causando a paralisação das obras. Realizou a primeira ação bem-sucedida contra a malária no Brasil, colocando em prática procedimentos que mais tarde se tornariam corriqueiros em outras campanhas.
Segundo ele, para se impedir a propagação da doença em regiões em que não havia ações sistemáticas de saneamento, era necessário concentrar as medidas preventivas nos locais onde viviam os homens e os mosquitos infectados com o parasita da malária. Seguindo tal orientação, em cinco meses Chagas conseguiu debelar o surto da doença.
De volta ao Rio de Janeiro, Chagas continuou servindo a Diretoria Geral de Saúde Pública. Em 19 de março de 1906 transferiu-se para o Instituto Oswaldo Cruz. No ano seguinte foi solicitado pela Diretoria Geral para organizar o saneamento na Baixada Fluminense, onde estavam acontecendo obras para a captação e bombeamento de água para o Rio de Janeiro. Com Arthur Neiva seguiu para Xerém e os resultados positivos que conseguiu nessa obra confirmaram a sua teoria da infecção domiciliar da malária.
Em junho de 1907 Chagas foi enviado pelo instituto à cidade de Lassance, Minas Gerais, perto do Rio São Francisco, para combater uma epidemia de malária entre os trabalhadores de uma nova linha da Estrada de Ferro Central do Brasil. Instalou-se durante dois anos em um vagão de trem, onde montou um pequeno laboratório e um consultório para atendimento dos doentes. Diversos métodos de inseticidas foram utilizados na época, como enxofre ou piretro, que décadas mais tarde popularizou-se com o advento do DDT.
Nesse tempo, capturou, classificou e estudou os hábitos dos anofelinos, mosquitos transmissores da doença, e examinou o sangue de animais em busca de parasitas. Chagas identificou no sangue de um sagui uma nova espécie de protozoário, ao qual deu o nome de Trypanosoma minasense. Um engenheiro da ferrovia alertou-o para a infestação de um inseto hematófago nas residências rurais, da espécie Triatoma infestans, conhecido como barbeiro, assim chamado porque suga o sangue das pessoas durante a noite, atacando o rosto delas. Chagas levou alguns deles ao seu laboratório e percebeu que nos seus intestinos havia tripanossomas que poderiam ser da espécie Trypanosoma minasense, já numa fase evoluída.
Por Lassance não ter condições para uma pesquisa mais aprofundada, enviou alguns exemplares de barbeiros para Cruz, pedindo que os pusesse em contato com macacos de laboratório. Um mês depois, foi comunicado da presença de tripanossomas no sangue dos animais. Voltou ao Rio de Janeiro para confirmar a pesquisa e descobriu que não se tratava do Trypanosoma minasense, mas de uma nova espécie. Chagas chamou esse novo parasita de Trypanosoma cruzi em homenagem a Oswaldo Cruz. A nota anunciando a descoberta do parasita foi publicada em 1909 na revista alemã Archiv für Schiffs- und Tropen-Hygiene.