Camboja ou Cambodja (em quemer: កម្ពុជា; romaniz.: Kampuchea, pronunciado: [kɑmˈpuˈciə]), oficialmente Reino do Camboja (em quemer: ព្រះរាជាណាចក្រកម្ពុជា, translit.: Preăh Réachéanachâk Kâmpŭchéa), é um Estado soberano localizado na porção sul da península da Indochina, no Sudeste Asiático. Sua área territorial é de 181 035 km², fazendo deste o 88.º maior do mundo em área. Faz fronteira com a Tailândia a noroeste, com o Laos a nordeste, com o Vietnã a leste e com o Golfo da Tailândia na porção sudoeste.
Com uma população estimada em pouco mais de 15 milhões de habitantes, o Camboja é o 68.º país mais populoso do mundo e tem o budismo como religião oficial, praticado por cerca de 95% da população cambojana. Os grupos étnicos minoritários incluem vietnamitas, chineses, chams e outras trinta tribos. A capital e maior cidade é Phnom Penh, o centro político, econômico e cultural do país. O reino é uma monarquia constitucional, tendo Norodom Sihamoni como representante. O monarca é escolhido pelo Conselho do Trono Real e recebe o status de chefe de Estado. O chefe de governo é Hun Sen, que governa o Camboja há mais de 25 anos.
O antigo nome do reino era "Kambuja" (em sânscrito: कंबुज). No ano de 802, Jaiavarmã II declarou-se rei marcando o início do Império Quemer, que floresceu por mais de 600 anos, permitindo que sucessivos reis dominassem grande parte do sudeste da Ásia. O reino permitiu a construção de templos monumentais, como Angkor Wat, e facilitou a propagação do hinduísmo e do budismo por grande parte desta região. Após a queda de Angkor para o Reino de Ayutthaya, no século XV, o Camboja foi governado como um vassalo entre seus vizinhos, Tailândia e Vietname, até que foi colonizado pelos franceses em meados do século XIX. A independência do país só ocorreu em 1953.
A Guerra do Vietnã estendeu-se ao Camboja, dando origem ao Quemer Vermelho, que tomou Phnom Penh em 1975. O Camboja ressurgiu vários anos mais tarde dentro de uma esfera de influência socialista, como a República Popular de Kampuchea, que durou até o início dos anos 1990. Depois de anos de isolamento, a nação devastada pela guerra se reuniu sob a monarquia em 1993, e tem visto um rápido progresso nas áreas de recursos humanos e econômicos, além da reconstrução de décadas de guerra civil. O Camboja tem apresentado um dos melhores desenvolvimentos econômicos na Ásia, com crescimento médio de 6% nos últimos dez anos. A agricultura, construção civil, vestuário e turismo atraíram investimentos estrangeiros e estimularam o comércio internacional. As reservas de petróleo e gás natural, encontradas nas águas territoriais do país em 2005, permanecem praticamente inexploradas, em parte devido a disputas territoriais com a Tailândia. Apesar das melhorias econômicas, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do país ocupa a 144.ª posição, avaliado em 0,594 indicando que o Camboja possui médio desenvolvimento humano em 2019. O seu IDH ajustado à Desigualdade era de 0,475.
O nome oficial do país em português é Reino do Camboja, traduzido do quemer Preăh Réachéanachâk Kampuchea, muitas vezes abreviado apenas para Kampuchea (em quemer: កម្ពុជា). Kampuchea deriva da palavra sânscrita Kambuja. Popularmente, os cambojanos na maioria das vezes referem-se a seu país como "A Terra dos Quemeres" (escrito em quemer da seguinte forma: ស្រុកខ្មែរ) ou usando a expressão mais formal "O país do Camboja" (em quemer: ប្រទេសកម្ពុជា). Em Língua inglesa, a forma "Cambodia" é derivada de "Cambodge" ou "Kamboj", a transcrição sânscrita de "Kampuchea".
Pouco se sabe sobre a pré-história no território do Camboja. As esparsas evidências para a ocupação humana durante o Pleistoceno são algumas ferramentas feitas a partir de quartzo e quartzito, encontrados ao longo dos terraços do rio Mecão nas províncias de Stung Treng, Kratié e Kampot, mas não há datas para essa ocupação até ao momento.
Outras evidências arqueológicas mostram comunidades de caçadores-coletores habitando a região do atual Camboja durante o Holoceno. O sítio arqueológico considerado como mais antigo no país é a caverna de Laang Spean, em Battambang, e pertence ao período hoabinhiano. Escavações nas camadas mais profundas indicam uma ocupação desde 6 000 a.C. Nas camadas mais superficiais do mesmo sítio, existem evidências de transição para o Neolítico, contendo dados das primeiras cerâmicas cambojanas.
Dados arqueológicos para o período entre o Holoceno e a Idade do Ferro são muito escassos. Outros sítios pré-históricos famosos na região são o Samrong Sen (não muito longe da antiga capital Oudong), onde as escavações na região se iniciaram em 1877 e Phum Snay, na província do norte de Banteay Meanchey. Artefatos pré-históricos também foram encontrados em Ratanakiri durante uma mineração.
A evidência pré-histórica que chama mais atenção, provavelmente são os canais circulares (possivelmente canais de drenagem ou de irrigação) descobertos em Memot e nas adjacências do Vietname nos anos 1950. Sua função ainda não está clara, mas as datas mostram que sua construção pode ter sido em 2 000 a.C.
Um grande acontecimento na pré-história cambojana é a lenta introdução do cultivo de arroz na região norte do país, que se iniciou em torno de 23 000 a.C.. Os povos que disseminaram essa cultura do arroz provavelmente falavam um mom-quemer. O ferro começou a ser trabalhado em torno de 2 500 a.C. Grande parte das evidências arqueológicas que revelam a pré-história e história antiga no Camboja vem do planalto de Khorat, que atualmente é parte do território da Tailândia. No atual território do país, foram encontrados alguns assentamentos da Idade do Ferro em torno dos templos angkorianos, como Baksei Chamkrong, e alguns canais circulares — como Lovea — localizados a nordeste de Angkor. Sepultamentos, muito ricos, atestam a existência de fartura de alimentos e comércio (mesmo a longa distância: em 2 400 a.C. já existia comércio com a Índia), a existência de estruturas sociais e trabalho organizado na sociedade da época.
O Reino de Funan dominava grande parte do atual território cambojano, concentrando-se em torno do delta do rio Mecão. As poucas informações acerca do antigo reino são provenientes de textos históricos chineses, que basearam-se nos relatos de dois diplomatas do Reino de Wu Nanking que, juntos, peregrinaram por Funan em meados do século III. Entretanto, o nome "Funan" não é mencionado nos textos de origem cambojana, acreditando-se que estes tenham dado um outro nome ao antigo reino.
Alguns estudiosos atuais têm especulado sobre a origem e o significado da palavra "Funan". Costuma-se dizer que o nome representa uma transcrição de algum idioma local para o chinês. O historiador francês Georges Coedes apresentou a teoria de que, ao usar a palavra Funan, antigos estudiosos chineses transcreveram uma palavra relacionada a "Vnam" (em quemer, significando "montanha"). No entanto, o epigrafista Claude Jacques ressaltou que essa explicação foi baseada em uma tradução da palavra sânscrita "parvatabùpála", nas inscrições antigas, equivalente a uma identificação do rei Bavavarmã I, visto como o conquistador de Funan. Também observa-se que o carácter chinês 南 é frequentemente usado em termos geográficos, podendo significar "do Sul", o que leva a acreditar, também, que os chineses usaram a palavra no sentido de nomear outros locais ou regiões do sudeste da Ásia. Assim sendo, Funan pode ser uma palavra originalmente chinesa que significa algo como "pacificada do Sul".
Assim como a origem do nome do reino, a natureza etnolinguística do povo é objeto de muita discussão entre os especialistas. As principais hipóteses são de que os funaneses eram em sua maioria mom-quemer, ou que eles eram em sua maioria austronésios, ou que eles constituíam uma sociedade multiétnica. De acordo com Michael Vickery, a evidência disponível não é conclusiva sobre esta questão. Embora a identificação da língua de Funan não seja possível, as evidências sugerem fortemente que a população era quemer. Os resultados arqueológicos demonstraram "uma verdadeira descontinuidade entre os pré-níveis angkorianos", indicando uma dominação linguística na área sob o controle de Funan.