Raquel Pacheco, conhecida pelo pseudônimo de Bruna Surfistinha (Sorocaba, 28 de outubro de 1984), é uma escritora, DJ, roteirista e empresária brasileira. Tornou-se figura de destaque na mídia nacional ao publicar, em um blog pessoal, relatos detalhados de seus atendimentos, atingindo mais de 50 000 leitores diários e suscitando amplo debate sobre trabalho sexual e uso de plataformas digitais para narrativas autobiográficas.
Raquel Pacheco trabalhou como prostituta e atriz de filmes pornográficos. Em 2005 publicou diariamente em um blog detalhes de sua vida na prostituição. Produziu roteiros cinematográficos e de histórias em quadrinhos eróticas, como atriz, atuou em um longa metragem.
Publicou sua autobiografia, O Doce Veneno do Escorpião — O Diário de uma Garota de Programa, em que deu seu depoimento ao jornalista Jorge Tarquini, que escreveu esse livro, e o segundo, O que Aprendi com Bruna Surfistinha, que atingiu o posto de best-seller no Brasil.
Raquel Pacheco nasceu em 28 de outubro de 1984, em Sorocaba, São Paulo. Ela foi fruto de uma violação sexual contra sua mãe biológica, que tentou realizar um aborto sem sucesso. Após um parto prematuro, a mãe biológica optou por abandonar a recém-nascida no hospital. Pacheco foi deixada em um orfanato e posteriormente adotada por uma família residente em São Paulo. Pacheco foi criada em um ambiente de classe média alta, com acesso à educação em colégios particulares. Sua mãe adotiva tinha pele clara, traços delicados e baixa estatura, enquanto seu pai adotivo era um advogado de 1,92 m com constituição robusta. A família incluía duas irmãs e um irmão de criação.
Aos cinco anos, Pacheco descobriu sua condição de adotada. Posteriormente relatou que essa revelação teve um impacto em sua percepção de identidade. Em 1991, aos sete anos, a família mudou-se para uma chácara em Araçoiaba da Serra, próximo a Sorocaba, após um acidente sofrido pelo pai adotivo que resultou em sequelas neurológicas. O incidente forçou-o a abandonar sua carreira no Direito. Em entrevistas posteriores, Pacheco revelou ter sofrido abuso sexual pelo pai adotivo aos sete anos.
Raquel conta que foi uma criança "extremamente mimada", afirmando que possuía todas as bonecas que desejava e que não ouvia a palavra "não", situação que mudou apenas na pré-adolescência. Durante sua epoca escolar, a atenção dos pais se manifestava principalmente quando ela obtinha notas baixas, enquanto bons desempenhos acadêmicos não recebiam elogios, sendo considerados uma obrigação.
No livro O Doce Veneno do Escorpião — O Diário de uma Garota de Programa, Raquel relata que durante a infância que apesar de brigas constantes com seu pai, jamais havia sofrido agressões físicas. O episódio que culminou na primeira punição física por parte de seu pai tem origem em um comportamento que ela descreve como vergonhoso, o furto,motivado pela adrenalina e pelo risco, e não pela necessidade. Com acesso fácil ao dinheiro que o pai, adoentado e com mobilidade reduzida, guardava em casa, passou a subtrair pequenas quantias para gastar em compras aleatórias. Utilizava o motorista da família, responsável por levá-la diariamente à escola em Sorocaba, para parar na padaria Real, onde alegava ter recebido ordens da mãe para adquirir algum produto.
Em 1995, aos 11 anos, a família retornou a São Paulo, instalando-se em um apartamento no bairro Paraíso. Pacheco ingressou no Colégio Bandeirantes, onde apresentou dificuldades para acompanhar o ritmo escolar.Durante a adolescência, Raquel relata que viveu sob intensa superproteção dos pais adotivos, relata ter iniciado comportamentos que seus pais consideravam rebeldes, incluindo um episódio em que foi agredida pelo pai após admitir ter furtado joias da mãe, como frequentar festas sem permissão onde tive uma experiência homossexual com uma amiga durante. Aos 14 anos, começou a experimentar substâncias como maconha e cigarros, além de bebidas alcoólicas. As dificuldades escolares e os conflitos familiares se intensificaram nesse período.
Raquel relatou que, até então, era uma jovem extremamente medrosa e protegida, privada de experiências típicas da juventude, como sair com amigas ou namorar. O rigor dos pais em restringir sua liberdade foi decisivo para que ela tomasse a decisão de fugir de casa ainda na adolescência. Aos 17 anos, Pacheco deixou a residência familiar. Inicialmente viveu nas ruas de São Paulo antes de ingressar na prostituição, rejeitando a ideia de trabalhar em empregos formais que oferecessem salários baixos. Estabeleceu-se em um privé na Alameda Franca, nos Jardins, onde adotou o pseudônimo Bruna, que posteriormente se tornaria conhecido como Bruna Surfistinha.
A decisão que a levou a deixar o lar incluiu não querer depender de ninguém e ganhar seu próprio dinheiro. Ela não quis esperar se formar na universidade para começar a trabalhar, como seus pais desejavam. Depois de sair de casa, ela viveu nas ruas. Não querendo continuar assim e sem conseguir encontrar trabalho, ela viu o anúncio de um bordel nos classificados de jornal e passou a atuar como prostituta nele. Com o tempo, para suportar a dor e a humilhação de viver essa vida, ela tornou-se usuária de cocaína. Seu irmão descobriu sua nova vida e contou à família. Como resultado, a família deixou de falar com ela, o que ainda a entristece muito.
Como ela afirma em seu blog e em seu livro, no início ela trabalhou em um bordel de má qualidade, atendeu a clientes de perfil popular, chegando a realizar até quatro atendimentos diários. Após alguns anos nessa rotina atendendo homens, mulheres e casais, Raquel conseguiu economizar recursos suficientes para um tratamento psicoterápico e assim largar as drogas, conseguindo finalmente sair do estabelecimento. Alugando seu próprio apartamento, ela começou a atender clientes em bairros de alto padrão de São Paulo. Depois de três anos nessa atividade, ela declarou ter atendido 5.000 clientes ao longo desse períodomeçou aos 17 anos e encerrou em 2005, quando sua fama já era estratosférica.
Em entrevistas, afirmou que, no início de sua vida como prostituta, acreditava que exerceria a atividade por toda a vida, explicando que sua entrada na prostituição foi motivada pelo desejo de unir o prazer pessoal à busca por estabilidade financeira, já que apreciava o ato sexual e pretendia obter ganhos monetários a partir disso. Raquel exerceu a prostituição por três anos e descreveu a profissão com a frase “É uma difícil vida fácil”.
Em uma entrevista concedida ao jornal Folha de S.Paulo em fevereiro de 2011, no contexto da estreia do filme Bruna Surfistinha, Raquel Pacheco expressou seu arrependimento por seu passado como trabalhadora sexual, afirmando que "não valeu a pena". Durante a conversa, Pacheco relatou as dificuldades e consequências negativas dessa etapa de sua vida, incluindo uma overdose e a experiência de atender a múltiplos clientes diariamente, o que afetou profundamente sua saúde física e emocional. Pacheco possui histórico de depressão psicótica desde a infância e, na vida adulta, foi diagnosticada com TDAH e transtorno de personalidade borderline. Apresentou episódios de dependência de psicotrópicos e, atualmente, adota terapias alternativas, como meditação, constelação familiar e práticas xamânicas, para manejo da ansiedade e insônia, relatos terapêuticos mencionam ideação suicida e períodos de isolamento social. Apesar de seu blog, onde narrava suas vivências, ter alcançado grande popularidade e derivado na publicação de um livro e na produção de um filme, ela manifestou que sua verdadeira aspiração era encontrar amor e aceitação, sentimentos que sentia ausentes em sua relação com seus pais adotivos.
Durante o período em que atuou como trabalhadora sexual, Raquel Pacheco relatou que continuava a atender clientes mesmo quando estava doente, com febre ou menstruada, uma vez que não existia a possibilidade de recusa imposta pela gestão da casa conhecida como Catetina. As mulheres eram obrigadas a trabalhar sob quaisquer condições físicas, e, durante o período menstrual, utilizavam algodão para conter o fluxo sanguíneo, de modo que os clientes não percebessem a situação. As cafetinas frequentemente pediam para que as profissionais economizassem o uso de roupa de cama. Em diversas ocasiões, foi obrigada a utilizar o mesmo lençol com vários clientes, mesmo quando já estava sujo de suor e lubrificante. Para contornar a falta de material limpo, os lençóis eram apenas secos ao sol no varal e reutilizados, prática que também se estendia às toalhas.