Na antiga religião romana, Bona Dea (latim: [ˈbɔna ˈdɛ.a]; 'Boa Deusa') foi uma deusa associada à castidade e fertilidade entre as mulheres romanas casadas, à cura e à proteção do estado e do povo de Roma. De acordo com fontes literárias romanas, ela foi trazida da Magna Grécia em algum momento durante o início ou meados da República e recebeu seu próprio culto de estado no Monte Aventino.
Seus rituais permitiam às mulheres o uso de vinho forte e sacrifícios de sangue, coisas que lhes eram proibidas pela tradição romana. Os homens eram impedidos de participar de alguns de seus mistérios e somente os iniciados recebiam o direito de usar seu verdadeiro nome. Dado que os autores masculinos tinham conhecimento limitado sobre seus rituais e atributos, abundam especulações antigas sobre sua identidade, entre elas a de que ela era um aspecto de Terra, Ops, Cibele, ou Ceres, ou uma forma latina da deusa grega "Dâmia" (talvez Deméter). Na maioria das vezes, ela era identificada como esposa, irmã, ou filha do deus Fauno, sendo assim um equivalente ou aspecto da deusa da fertilidade Fauna, que podia profetizar o destino das mulheres.
A deusa tinha dois festivais anuais principais. Um era realizado em seu templo no Aventino, para benefício do povo romano; o outro era organizado pela esposa de um magistrado romano de alta patente para um grupo seleto de matronas da elite e damas de companhia. Este último festival ganhou notoriedade escandalosa em 62 a.C., quando o político Públio Clódio Pulcro foi julgado por sua intromissão sacrílega nos rituais, supostamente com a intenção de seduzir Pompeia, esposa de Júlio César. Clódio foi considerado inocente, mas César divorciou-se de Pompeia porque "a esposa de César deve estar acima de qualquer suspeita". Por seu apoio à acusação, Cícero conquistou o ódio eterno de Clódio. Os rituais festivos de fertilidade permaneceram um tema de curiosidade e especulação masculina, tanto religiosa quanto lasciva.
Os cultos de Bona Dea na cidade de Roma eram liderados pelas Virgens Vestais e pelos Sacerdos Bonae Deae, e seus cultos provinciais por sacerdotisas virgens ou matronas. Estátuas que sobreviveram a mostram como uma matrona romana serena com uma cornucópia e uma serpente. Dedicações pessoais a ela são atestadas em todas as classes sociais, especialmente entre plebeus, libertos e mulheres, e escravos. Aproximadamente um terço dessas dedicações são feitas por homens, alguns dos quais podem ser identificados como acólitos e sacerdotes de seu culto.
Bona Dea ("A Boa Deusa") é um nome, um título honorífico e um pseudônimo respeitoso; o verdadeiro nome ou nome de culto da deusa é desconhecido. Seus outros nomes ou pseudônimos menos comuns incluem Feminea Dea ("A Deusa das Mulheres"), Laudanda ... Dea ("A Deusa que deve ser Louvada"), e Sancta ("A Santa"). Ela é uma deusa de "tipo indefinível", com várias origens e uma gama de características e funções diferentes.
Com base no pouco que sabiam sobre seus rituais e atributos, os historiadores romanos especularam sobre seu verdadeiro nome e identidade. Festo a descreve como idêntica a uma "deusa feminina" chamada Dâmia, o que Georges Dumézil considera uma antiga interpretação errônea da "Deméter" grega. No final do período imperial, o autor neoplatônico Macróbio a identifica como uma deusa universal da terra, um epíteto de Maia, Terra, ou Cibele, adorada sob os nomes de Ops, Fauna, e Fátua. O autor cristão Lactâncio, citando o polímata republicano Varrão como sua fonte, descreve-a como esposa e irmã de Fauno, chamada "Fenta Fauna" ou "Fenta Fatua" (Fenta "a profetisa" ou Fenta "a tola").
Cícero não faz referência a nenhum mito relacionado a Bona Dea. Posteriormente, estudiosos romanos a associaram à deusa Fauna, figura central no mito fundador da aristocracia do Lácio, que foi então reinterpretado como uma fábula moral romana. Conhecem-se diversas variantes; Fauna é filha, esposa ou irmã de Fauno (também chamado Faunus Fatuus, que significa Fauno "o tolo", ou vidente). Fauno era filho de Pico e foi o primeiro rei dos latinos, dotado do dom da profecia. Na religião romana, ele era um deus pastoril e protetor dos rebanhos, com um santuário e oráculo no Aventino, às vezes identificado com Ínuo e, mais tarde, com o deus grego Pã.
Assim como sua contraparte feminina, Fauna possuía dons, domínios, e poderes semelhantes aos aplicados exclusivamente às mulheres. Na versão do mito de Plutarco, a mortal Fauna se embriaga secretamente com vinho, o que lhe é proibido. Quando Fauno descobre, ele a açoita com varas de murta; na versão de Lactâncio, Fauno a açoita até a morte, arrepende-se do ato e a deifica. Sérvio deriva os nomes Fauno e Fauna, coletivamente conhecidos como os Fátuos, de fari (profetizar): eles "também são chamados de Fátuos porque proferem profecias divinas em estado de estupor". Macróbio escreve que Bona Dea é "a mesma que Fauna, Ops ou Fátua... Diz-se também que ela era filha de Fauno e que resistiu às investidas amorosas de seu pai, que se apaixonara por ela, a ponto de ele a espancar com ramos de murta porque ela não cedeu aos seus desejos, embora ele a tivesse embriagado com vinho. Acredita-se, porém, que o pai se transformou em serpente e, sob esse disfarce, teve relações sexuais com a filha." Este mito apresenta uma semelhança notável com o rapto de Perséfone por seu pai Zeus na forma de uma serpente ctónica na mitologia órfica. Macróbio relaciona a imagem da serpente nos rituais da deusa com esta transformação mítica, e com as serpentes vivas, e inofensivas, que vagueavam pelos recintos do templo da deusa.
Varrão explica a exclusão dos homens do culto de Bona Dea como consequência de sua grande modéstia; nenhum homem além de seu marido jamais a vira ou ouvira seu nome. Para Sérvio, isso a torna o paradigma da castidade feminina. Muito provavelmente, uma vez que a mitologia de Fauna pareceu oferecer uma explicação para o misterioso culto de Bona Dea, o mito se desenvolveu circunstancialmente para se adequar ao pouco que se sabia sobre a prática. Por sua vez, a prática do culto pode ter mudado para apoiar a mensagem ideológica virtuosa exigida pelos mitos, particularmente durante as reformas religiosas augustanas que identificaram Bona Dea com a imperatriz Lívia. H. S. Versnel observa os elementos comuns ao festival Bona Dea, aos mitos de Fauna, e à Tesmofória da Deméter grega, como "vinho, murta, serpentes e modéstia feminina maculada".
As características conhecidas dos cultos de Bona Dea lembram as de várias deusas da terra e da fertilidade do mundo greco-romano, especialmente o festival das Tesmofória em homenagem a Deméter. Incluíam rituais noturnos conduzidos predominantemente ou exclusivamente por iniciadas e sacerdotisas, música, dança e vinho, e o sacrifício de uma porca. Durante a era da República Romana, dois cultos dedicados a Bona Dea foram realizados em diferentes épocas e locais na cidade de Roma.
Uma delas foi realizada em 1 de maio no templo aventino de Bona Dea. Sua data a conecta a Maia; sua localização a conecta à classe plebeia de Roma, cujos tribunos e a aristocracia emergente resistiram às reivindicações patrícias de domínio religioso e político legítimo. O ano de fundação do festival e do templo é incerto – Ovídio o atribui a Cláudia Quinta (c. final do século III a.C.). Os rituais são inferidos como uma espécie de mistério, ocultos do olhar público e, segundo a maioria das fontes literárias romanas posteriores, totalmente proibidos aos homens. Na era republicana, as festas do Aventino de Bona Dea eram provavelmente eventos distintamente plebeus, abertos a todas as classes de mulheres e, de forma limitada, aos homens. O controle de seu culto no Aventino parece ter sido contestado em vários momentos durante a República Média; uma dedicação ou rededicação do templo em 123 a.C. pela Virgem Vestal Licínia, com a doação de um altar, um relicário e um leito, foi imediatamente anulada como ilegal pelo senado romano; a própria Licínia foi posteriormente acusada de incastidade, e executada. No final da era repúblicana tardia, o festival de maio de Bona Dea e o templo do Aventino podem ter caído em desuso, ou em descrédito oficial.