Abu Abedalá Maomé ibne Abi Alhaçane Ali (em árabe: أبو عبد الله محمد بن أبي الحسن علي; romaniz.: Abū ʿAbd Allāh Muḥammad ibn Abī al-Ḥasan ʿAlī) ou Abu Abedalá Maomé Atani Axar (em árabe: أبو عبد الله محمد الثاني عشر; romaniz.: Abū ʿAbd Allāh Muḥammad al-Thānī ʿAshar; Granada, c. 1460 — Fez, ca. 1533) foi o 22º e último rei nacérida de Granada. Sucedeu ao seu pai Alboácem Ali (Mulhacén), cognominado "o Velho", o qual depôs, e reinou como Maomé XII de Granada em dois períodos, o primeiro entre 1482 e 1483 (entre 1485 e 1487 o trono nacérida foi ocupado por Maomé XIII) e o segundo entre 1487 e 2 de janeiro de 1492, data em que entrega o seu reino aos Reis Católicos Fernando II de Aragão e Isabel I de Castela.
Também é conhecido como al-Zugabi ou az-Zughbi ("o desafortunado"), el Chico ("o Jovem"), el Moro ("o Mouro") e principalmente como Boabdil (uma corruptela castelhana de Abu Abdilá) ou Boabdil, el Chico.
Nascido em Granada em 1460 ou 1459, morreu no exílio em Marrocos, provavelmente em Fez, onde teria sido sepultado, em 1532 ou 1533.
No século XV a extensão dos territórios sob domínio muçulmano no que é atualmente Espanha foi-se reduzindo cada vez mais, restando Granada como o último bastião que os Reis Católicos desejavam conquistar.Uma intriga amorosa no serralho do rei de Granada facilitou-lhes a tarefa. O emir Alboácem Ali (r. 1464–1482) apaixonou-se por uma bela cristã, Isabelle de Solis, feita prisioneira durante uma incursão nacérida em terras cristãs. Após Isabelle se ter convertido ao islão, toma o nome de Zoraia (ou Soraia ou Turaia), Alboácem Ali casa-se com ela e pondera repudiar a rainha Aixa Fátima, de quem tem um filho, Abu Abedalá Maomé Azuguebi.
Em julho de 1482, os Abencerragens, o poderoso clã árabe que tinha sido dizimado por Alboácem Ali, tinham organizado uma conspiração cujo principal instigador era Iúçufe ibne Cumasa (Abencomixa), um membro da família nacérida. Este odiava o vizir Abu Alcácime Banigas, de reputação sinistra e membro doutra família poderosa, rival dos Abencerragens, os Bannigas. Abu Alcácime era acusado de fazer o jogo dos Castelhanos. Os descontentes, recrutados tanto entre a nobreza granadina como nas classes mais humildes do bairro do Albaicín, agrupam-se em volta de Maomé, o Desafortunado e estavam decididos a destronar Alboácem Ali. Maomé, o Desafortunado e o seu irmão Iúçufe fogem da Alhambra (o palácio real de Granada) com a colaboração de Aixa. A notícia desta fuga e rebelião dos filhos chega às tropas que defendem Loja dum cerco castelhano a 14 de julho, o dia em que as tropas sitiantes retiram. Os príncipes rebeldes vão para Guadix e Boabdil é aclamado como soberano pelos Abencerragens a 15 de julho de 1482. Depois de combates renhidos nas ruas de Granada, na qual foi derrotado, Alboácem Ali foge da capital com o seu irmão Maomé, o Valente, primeiro para Málaga e depois para Almeria, onde se prepara para combater o seu filho usurpador. As principais famílias mouras tomam partido por uma ou outra das partes, e as rivalidades são fomentadas pelos Castelhanos.
A grande derrota cristã em Axarquía
Na primavera de 1483, o marquês de Cádis e grão-mestre da Ordem de Santiago Alonso de Cárdenas, em torno de quem se tinha reagrupado a lite da nobreza cristã castelhana da Andaluzia, decide lançar uma expedição na região litoral situada entre Málaga e Vélez-Málaga chamada Ach-Charqiyya pelos muçulmanos e Axarquía nas crónicas castelhanas, seguindo o conselho dum muçulmano renegado de Osuna. Três mil cavaleiros e mil soldados de infantaria partem de Antequera a 19 de março. Uma vez chegados à costa mediterrânica, tomam a direção de Málaga. Nas terras escarpadas dos Montes de Málaga sofrem um contra-ataque muçulmano durante a noite de quinta-feira para sexta-feira 21 de março. Os cristãos são completamente derrotados e até as crónicas castelhanas admitem que as perdas ascenderam a 800 mortos e prisioneiros, entre os quais muitos nobres castelhanos ilustres.
Contudo, esta batalha de Axarquía seria a última vitória dos muçulmanos na história do al-Andalus.
Um mês depois da derrota cristã em Axarquía, Boabdil, ávido de glória, decide fazer uma incursão em território cristão, O seu objetivo é a praça mal defendida de Lucena, cujo governador, Diego Fernández de Córdova, não tem mais de 18 anos de idade. Mas um muçulmano granadino trai os seus, revelando aos habitantes de Lucena este plano de ataque e estes fortificam rapidamente a vila. A 20 de abril de 1483, o exército de 700 cavaleiros e 9 000 soldados de infantaria comandado por Boabdil é rechaçado em frente às muralhas de Lucena. Os Granadinos sofrem numerosas perdas devido à intervenção de surpresa do exército do conde de Cabra, que tinha sido avisado da manobra dos nacéridas. Depois de várias escaramuças, Boabdil é derrotado, mostrando ser um fraco comandante. O exército muçulmano que é destruído.
Durante a batalha, o valente capitão de Loja, `Ali al-Attar, padrasto de Boabdil, e vários membros da aristocracia granadina perdem a vida. O próprio Boabdil é capturado pelos cristãos, que durante algum tempo não o reconhecem. Boabdil é preso na fortaleza de Porcuna. Este episódio marca o início da queda de Granada.
Cativeiro em Castela (1484-1487)
Durante o cativeiro de Boabdil, o seu pai Alboácem Ali retomou o trono de Granada, para o que contou com o apoio de numerosos habitantes da cidade. Morre em 1485, sendo sucedido pelo seu irmão e tio de Boabdil, Maomé XIII.
Boabdil é posto em liberdade por Fernando de Aragão, que o ajuda a retomar o trono em 1487, com a condição de Granada se tornar vassala de Espanha e renunciar à defesa de Málaga, então sob ataque pelos Reis Católicos. As condições aceites por Boabdil para obter a sua libertação são as mais humilhantes jamais acordadas por um soberano do al-Andalus. Promete entregar um tributo de 12 000 dobrões a Xaém, equivalente a 14 000 ducados de ouro, restituir os 3 000 ou 7 000 cristãos castelhanos cativos de Granada, entregar como reféns o seu filho e príncipe herdeiro Amade, então com dois anos, o seu irmão Iúçufe e dez jovens aristocratas granadinos.
Na primavera de 1487, à cabeça de 70 000 homens, Fernando de Aragão decide juntar à sua coroa a segunda cidade do reino granadino, Málaga. Os cristãos cercam a cidade. O comandante da guarnição nacérida, Ahmad at-Tagri, assume o governo da cidade sitiada a partir de 6 de maio, determinado a combater até ao fim. Submetido ao fogo das bombardas castelhanas, os muçulmanos defendem-se o melhor que podem. Em julho os alimentos escasseiam e os habitantes vê-se obrigados a comer cavalos, burros, mulas e cães.
Uma epidemia súbita reduz consideravelmente os efetivos dos sitiantes. Nesse momento crítico, Fernando pede à sua esposa para fazer uma visita às tropas para levantar o moral. Isabel I apresenta-se com uma armadura cintilante e rodeada por 600 lanceiros, ao mesmo tempo que cem navios encarregados de reabastecer as tropas bloqueiam o porto de Málaga.
Boabdil cumpre o acordo secreto com os Reis Católicos não intervindo na defesa de Málaga. No entanto, o seu tio Maomé, o Valente, que se tinha exilado em Almeria depois da queda de Baza, tenta sem sucesso uma manobra de diversão para defender Málaga, enviando alguns destacamentos de voluntários nacéridas de Adra contra os cristãos nas vizinhanças de Vélez-Málaga.
Málaga capitula ao fim de três meses e meio de cerco, a 18 de agosto de 1487. Os 15 000 prisioneiros muçulmanos encontram-se então num verdadeiro estado de inanição.
Relações dos nacéridas com os outros muçulmanos (1485-1489)