A Batalha de Mogadíscio (em inglês: Battle of Mogadishu), também conhecida como Batalha do Mar Negro (Battle of the Black Sea), incidente Black Hawk Down na cultura popular e como O Dia dos Rangers (em somali: Maalintii Rangers) para os somalis, foi um confronto militar travado em Mogadíscio, Somália, em 3 e 4 de outubro de 1993, entre forças dos Estados Unidos — apoiadas pela UNOSOM II — contra as forças da Aliança Nacional Somali (ANS) e cidadãos irregulares armados do sul de Mogadíscio. A batalha foi parte da Guerra Civil Somali que começou em 1991. As Nações Unidas inicialmente se envolveu para fornecer ajuda alimentar para aliviar a fome no sul do país, mas nos meses anteriores à batalha, mudou a missão para estabelecer a democracia e restaurar um governo central. A batalha, parte da Operação Serpente Gótica, por vezes é chamada de Primeira Batalha de Mogadíscio, para diferenciá-la da segunda batalha na cidade treze anos mais tarde.
A Força-Tarefa Ranger (Task Force Ranger), que consistia de uma força de assalto formada por equipes da Delta Force do Exército Americano e de Rangers, um elemento aéreo do 160º Regimento de Aviação de Operações Especiais (160.º SOAR), cinco operadores Navy SEALs do SEAL Team Six, membros dos Pararescue da Força Aérea Americana e controladores da Equipe de Controle de Combate executaram uma operação que consistia do deslocamento de suas instalações, na periferia da cidade, para capturar personalidades do primeiro escalão do clã Habr Gidr, liderado por Aidid. A força de assalto consistia de dezenove aeronaves, doze veículos terrestres (incluindo diversos Humvees) e 160 homens de infantaria.
Durante a operação, dois helicópteros UH-60 Black Hawk americanos foram derrubados por lança-granadas-foguete, e três foram danificados. Alguns dos soldados conseguiram resgatar os feridos e levá-los de volta à base, porém outros ficaram presos nos locais dos acidentes e acabaram isolados; seguiu-se uma guerra urbana que durou toda a noite. No início da manhã seguinte, uma força-tarefa foi enviada para resgatar os soldados presos na cidade, formada por soldados do Paquistão, da Malásia e da 10.ª Divisão de Montanha dos Estados Unidos. Totalizava 100 veículos, incluindo tanques M48 paquistaneses e veículos blindados Condor da Malásia, com o apoio de helicópteros A/MH-6 Little Bird e UH-60 Black Hawk dos Estados Unidos. A força-tarefa chegou ao local do primeiro acidente e conseguiu resgatar os soldados que ali estavam; o local do segundo acidente foi tomado pelos somalis, e o piloto Mike Durant, único sobrevivente ali, foi preso e libertado posteriormente.
Não se sabe ao certo o número de vítimas somalis, porém as estimativas americanas afirmam que entre 1 000 e 1 500 milicianos e civis somalis teriam perdido suas vidas no combate, e 3 000 a 4 000 teriam sido feridos. O Comitê Internacional da Cruz Vermelha, no entanto, estima que 200 civis teriam sido mortos, e milhares de outros feridos. De acordo com as estimativas apresentadas pelo livro Black Hawk Down: A Story of Modern War, do autor americano Mark Bowden, 700 milicianos teriam morrido e mais de mil teriam sido feridos; a Aliança Nacional Somali, no entanto, num documentário do programa Frontline, na televisão americana, declarou que apenas 133 teriam sido mortos em toda a batalha. Já o jornal americano The Washington Post apresentou a cifra de 312 mortos somalis e 814 feridos. Cerca de 18 soldados americanos morreram e 73 ficaram feridos. Entre as forças das Nações Unidas que participaram do resgate, um soldado malaio morreu e sete outros malaios e dois paquistaneses ficaram feridos.
Em janeiro de 1991, o ditador da Somália, Siad Barre, foi deposto. Sua saída deixou um vácuo de poder que levou o país a um caos governamental. Os clãs, partidos e milícias que lutaram juntos para derrubar o ditador começaram a voltar-se uns contra os outros pelos espólios do poder, dando início a uma guerra civil. Só entre setembro e dezembro de 1991 pelo menos 20 mil pessoas foram mortas ou feridas nos combates. A capital Mogadíscio foi palco de intensas lutas entre diversos grupos. Lutas severas eclodiram na cidade, então se espalharam por todo o país, resultando em mais de 20.000 baixas até o final de 1991. A guerra civil destruiu a agricultura da Somália, o que levou fome e inanição em grande parte do sul do país. A comunidade internacional começou a enviar suprimentos de alimentos, mas muitos deles foram sequestrados e levados aos líderes de clãs locais, que rotineiramente os trocavam com outros países por armas. Entre 1991 e 1992, cerca de 200.000 a 300.000 pessoas morreram de fome e outras 1,5 milhão de pessoas sofreram com isso. Esta situação foi exacerbada pelo sequestro de comboios e suprimentos de ajuda.
O líder da SNA, Mohamed Farrah Aidid, queria o poder absoluto e assumiu o controle de boa parte da zona central de Mogadíscio e de grandes porções da zona rural. Suas milícias atacavam postos de ajuda humanitária, confiscando mantimentos destinados a população. Suprimentos como comida e remédios eram vetados para áreas controladas por grupos rivais ao dele.
A ONU respondeu a crise política e humanitária na Somália e enviou a operação UNOSOM I. Os Estados Unidos lançaram suas próprias operações, como a Provide Relief ("Providenciar Conforto") e a Unified Task Force (também chamada "Operação Restaurar Esperança"), liderada pelo corpo de fuzileiros navais. As operações conseguiram aliviar a fome em grande parte do país. Ainda assim, o número de mortos (em dezembro de 1992) chegou a quase 500 mil pessoas, com outros 1,5 milhões sendo expulsas de suas casas.
Em março de 1993, foi lançada então a UNOSOM II, com o objetivo de reinstaurar a ordem na Somália. Mas assim como a missão anterior das Nações Unidas, o progresso foi lento ou quase imperceptível. Neste mesmo mês, uma iniciativa de paz alcançou um entendimento entre os principais grupos da guerra civil, mas a facção de Mohamed Farrah Aidid se recusou a aceitar os resultados das conversações. Em junho, os americanos começaram a lançar operações militares pontuais para tentar capturar Aidid.
Em 5 de junho de 1993, a milícia de Aidid e cidadãos somalis na Rádio Mogadíscio atacaram a força paquistanesa da ONU que inspecionava um esconderijo de armas localizado na estação, com medo de que as forças das Nações Unidas tivessem sido enviadas para fechar a infraestrutura de transmissão do SNA. O rádio era o meio mais popular de notícias na Somália e, consequentemente, o controle das ondas de rádio era considerado vital tanto para o SNA quanto para a UNOSOM. A Rádio Mogadíscio era uma estação muito popular entre os residentes de Mogadíscio, e rumores de que as Nações Unidas planejavam apreendê-lo ou destruí-lo foram abundantes por dias antes de 5 de junho. Em 31 de maio de 1993, os rivais políticos de Aidid se encontraram com o principal funcionário da UNOSOM e tentaram convencê-lo a assumir a Rádio Mogadíscio, uma reunião da qual Aidid estava bem informado.
De acordo com o Inquérito das Nações Unidas de 1994 nos eventos que antecederam a Batalha de Mogadíscio:
"As opiniões divergem, mesmo entre os funcionários da UNOSOM, sobre se as inspeções de armas de 5 de junho de 1993 foram genuínas ou meramente um encobrimento para reconhecimento e subsequente apreensão da Rádio Mogadíscio."
O que aconteceu depois marcou um momento seminal na operação UNOSOM II. As forças paquistanesas sofreram 24 mortos e 57 feridos, além de um italiano ferido e três soldados americanos feridos. Em resposta, em 6 de junho de 1993, o indignado Conselho de Segurança da ONU aprovou a Resolução 837, um apelo à prisão e julgamento das pessoas responsáveis pela morte e ferimento dos soldados da paz. Embora a Resolução 837 não mencionasse ou apontasse especificamente Aidid, ela responsabilizou a Aliança Nacional Somali. Sendo presidente da organização, a caçada a Aidid caracterizou a maior parte da intervenção da ONU desde então até a Batalha de Mogadíscio. Um mandado de $25.000 foi emitido pelo almirante Jonathan Howe para informações que levassem à prisão de Aidid. As forças da UNOSOM começaram a atacar alvos por toda Mogadíscio na esperança de encontrá-lo.