Bartolomeu de las Casas (Sevilha, 1484 – Madrid, 17 de julho de 1566) foi um frade dominicano espanhol que atuou como cronista, teólogo, político e jurista no processo de colonização da América.
Foi bispo de Chiapas (México), e também reconhecido como grande defensor dos índios. Teve grande atuação no processo de missionação, mesmo que um papel mais teórico. Sua luta focou, principalmente, no combate às encomiendas e aos repartimientos de indígenas na América hispânica.
Sua história é alvo de diversas disputas, sendo Las Casas uma das principais — senão a principal — figuras do século XVI no quesito de colonização. Alguns autores atribuem a ele a origem da chamada Leyenda Negra, outros afirmam que ele foi um grande cristão que apenas queria defender os indígenas. Foi, definitivamente, uma das figuras mais polêmicas do período.
O asteroide 13052 foi nomeado em sua homenagem por Eric Walter Elst, em 1990.
Conhecido em português como Frei Bartolomeu de las Casas (em espanhol: Fray Bartolomé de las Casas), era filho de um modesto comerciante de Tarifa, na Andaluzia. Participou da segunda viagem de Cristóvão Colombo. Havia feito estudos de latim e de humanidades em Salamanca. Partiu para a ilha de Hispaniola ou La Española na expedição de Nicolás de Ovando, em 1502 ou 1503, chegando em 15 de abril. Como a maioria, Bartolomeu estava motivado pelo espírito aventureiro e explorador de riquezas, logo se adaptando ao estilo de vida dos colonizadores. No início, aceitou o ponto de vista convencional quanto à exploração da mão de obra indígena e também participou dos ataques contra as tribos e a escravização dos nativos em plantações.
Viajou depois a Roma, onde terminou os estudos e se ordenou sacerdote em 1507. Isabel de Castela, a rainha a quem o papa dera licença para se intitular "A Católica", considerava a evangelização dos índios uma importante justificativa para a expansão colonial e, como tal, insistia para que sacerdotes estivessem entre os primeiros a se fixarem na América.
Em 1510, Bartolomeu de Las Casas retornou à ilha Espanhola, agora como missionário. Conseguiu um repartimiento ou encomienda de índios, dedicando-se assim ao trabalho pastoral. Os dominicanos contrários à encomienda, dados os abusos cometidos contra os índios, não mudaram sua opinião, mas frei Bartolomé defendia a instituição. Transferiu-se para Cuba com Pánfilo de Narváez e, ali, foi capelão militar. Recebeu outra vez um repartimiento onde se ocupava em mandar seus índios às minas, tirar ouro, e fazer sementeiras, aproveitando-se deles como podia.
Defensor dos indígenas e dos africanos
Em 21 de dezembro de 1511, escutou o célebre Sermão do Advento por frei António de Montesinos, no qual este defendia a dignidade dos indígenas. O profundo impacto daquela pregação levou Bartolomeu de las Casas a uma nova atitude, e ele passou a pregar contra o sistema de encomienda, denunciando-o como injusto. Considerava, então, que os únicos donos do Novo Mundo eram os índios, e que os espanhóis só deviam lá ir para o trabalho de conversão. Renunciou a todas as suas encomiendas e iniciou uma campanha de defesa dos índios, mostrando tudo o que havia de injusto do sistema. A campanha foi dirigida ao próprio rei de Aragão, Fernando II, e depois ao Cardeal Cisneros, que viria a nomeá-lo "protetor dos índios", em 1516.
Com a morte do cardeal, recomeçou seu trabalho e tentou convencer o rei de Espanha Carlos I (imperador Carlos V), neto dos Reis Católicos. Como denunciava publicamente os abusos dos funcionários, obteve a inimizade de muitos, especialmente membros do Conselho das Índias, presidido pelo bispo Juan Rodríguez de Fonseca. Advogava por uma colonização pacífica das terras americanas, por meio de lavradores e missionários.
Com tal objetivo, partiu de novo para a América, onde, em 1520, Carlos I lhe deu o território hoje venezuelano de Cumaná para pôr em prática suas teorias. Teve pouco êxito e durante uma de suas ausências, os índios aproveitaram para matar grande número de colonos. O desastre fez com que entrasse para a ordem dominicana. Manteve porém suas inflamadas teorias contra a escravidão dos índios e alegava que todas as guerras contra estes eram injustas. Por isso, se enfrentou a diversos teólogos, especialmente frei Francisco de Vitória. Pediu, a seus superiores, para ir advogar suas teorias diante do Conselho das Índias, mas o fracasso em Cumaná o desacreditava.
Em 1535, partiu para o Peru, mas o navio em que viajava naufragou no litoral da Nicarágua. Lá, ele enfrentou o governador Rodrigo de Contreras y de la Hoz denunciando o envio de escravos índios ao Peru.
Em 1536, se transferiu à Guatemala, para continuar a pregação e pôr, em marcha, um projeto de conquista pacífica que batizou de "Vera Paz". Entre 1537-1538, conseguiu cristianizar a zona de modo pacífico, substituindo a encomienda por um tributo pago pelos índios. Regressou em 1540 à Espanha, convencido de que era na corte que deveria vencer a batalha em favor dos índios. Em 1542, o Conselho das Índias o ouviu, e suas opiniões causaram profunda impressão em Carlos V.
Atribui-se à sua influência o fato de que, em 20 de novembro de 1542, tenham sido publicadas as "Leis Novas", em que se restringiam as encomendas e a escravidão dos índios, embora não tenham sido do agrado pleno de Las Casas. Escreveu, então, sua obra mais importante: Brevísima relación de la destrucción de las Indias. Como acusa os descobridores da América de crimes, abusos e violências, a obra foi chamada de escandalosa e exagerada, e não conseguiu evitar a continuação das conquistas, como desejava. Seria publicada ilegalmente em 1552, e conseguiu grande sucesso no século XVII, convertendo-se numa das fontes de nascimento da "lenda negra" do Império Espanhol.
Em defesa dos índios do novo continente, viajou numerosas vezes à Espanha, apelando aos oficiais do governo e aos que quisessem ouvir. Desde que ingressou na vida religiosa dominicana, dedicou-se à causa dos indígenas, defendendo-lhes a vida, a liberdade e a dignidade e lutando para que tivessem direitos políticos como povos livres e capazes de realizar uma nova sociedade, mais próxima do Evangelho. Sua prioridade foi sempre a evangelização. Com tal propósito, viajou pela América Central em trabalho pioneiro, registrando, em seus diários, o que se passava. Foi perseguido pelos colonizadores espanhóis de São Domingos, Peru, Nicarágua, Guatemala e do México.
Várias vezes acusaram Las Casas de que ele foi o principal estimulador da escravidão dos africanos na América. O próprio autor, ainda em 1527, fala contra a escravização dos africanos em sua Historia de las Indias.
Em 1543, recusou o bispado de Cuzco mas aceitou o de Chiapas, no México, para pôr em prática suas teorias. Foi consagrado em Sevilha em 1544, aos 70 anos de idade. Mas ficou apenas três anos em Chiapas, porque os colonos o consideravam responsável pela publicação das "Leis Novas".
Escreveu, ainda, "Confessionário", em que mandava que antes de iniciar a confissão, o penitente devia libertar seus escravos. Tais medidas provocaram distúrbios, e em 1546 teve que partir para a cidade do México, sem mudar sua política. Sua doutrina seria repelida por uma junta de prelados.