Augustin François César Prouvençal de Saint-Hilaire (Orleães, 4 de outubro de 1779 – Orleães, 3 de setembro de 1853) foi um botânico, naturalista e viajante francês. O estudioso pertenceu aos primeiros grupos de cientistas, vindos da Europa, para realizarem suas pesquisas e explorações no Brasil Colônia, durante os anos de 1816 e 1822, período no qual a corte portuguesa estava instalada no país, na cidade do Rio de Janeiro.
Como resultado de suas expedições pelo território brasileiro, Auguste de Saint-Hilare reuniu mais de 30 mil amostras, sendo que eram 24 mil de espécimes de plantas e 6 mil espécies de animais. Dessas 6 mil, eram 2 mil aves, 16 000 insetos e 135 mamíferos, além de inúmeros répteis, peixes e moluscos. A maioria das espécies coletadas era descrita pela primeira vez na história em seus livros, por esse motivo seus cadernos de campo ficaram tão conhecidos.
Ainda hoje, passados mais de 200 anos desde Saint-Hilaire chegou ao Brasil, sua presença ainda é comemorada e seus estudos ainda são revisitados. No ano de 2016, foi realizado o I Seminário Franco-brasileiro Botânica e História, promovido pelo Jardim Botânico do Rio de Janeiro, cujo marco era o aniversário de sua chegada. No mesmo ano, o 24º Simpósio de Plantas Medicinais do Brasil, que acontecia em Belo Horizonte, tinha-o como centro das discussões. E a Biblioteca Nacional inaugurava ao público uma exposição a trajetória percorrida pelo francês em território brasileiro, por meio de textos e imagens.
Filho de um oficial da artilharia, pertencente à nobreza do interior França, Auguste de Saint-Hilare nasceu em 1779 na cidade de Orleães, região conhecida por ter sido palco do embate entre Joana D'Arc e os exércitos ingleses durante a Guerra dos Cem Anos. Desde pequeno o francês manifestava vocação nata para o estudo das ciências naturais, mas por conta dos imperativos do país, entendido como a Revolução Francesa, Saint-Hilaire foi enviado para a Alemanha, onde trabalhou no porto de Hamburgo e conheceu o também botânico Karl Sigismund Kunth.
Após a experiência malsucedida, Auguste começa sua carreira como naturalista. Entre suas influências, destaca-se o nome do botânico sueco Carolus Linnaeus, autor do livro Systema Naturae, de 1735, que teoriza sobre uma classificação hierárquica das espécies, e também o nome do filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau, cujas vida e obra foram tema de uma monografia de Saint-Hilare. É também inspirado pelas lendárias viagens oceânicas, datadas entre 1768 e 1779, do capitão inglês James Cook, que inclusive visitou a cidade do Rio de Janeiro.
Avançando na carreira de botânico e naturalista, Auguste Saint-Hilare torna-se professor do Museu de História Natural de Paris e, por meio de seus contatos na época, soube da missão que o conde de Luxemburgo, Charles Emmanuel Sigismond de Montmorency-Luxembourg, na época embaixador da França junto a Portugal, promoveria para o Brasil, em 1816, financiada pela corte do rei Luís XVIII. A expedição, também de caráter político, tinha como objetivo solucionar problemas fronteiriços entre a Guiana Francesa com o governo português de Dom João VI.
Brasil: viagens exploratórias entre 1816 e 1822
Auguste, com 37 anos, viajou pelo Brasil, durante os anos de 1816 a 1822, financiado pela França, tendo escrito importantes livros sobre os costumes e paisagens brasileiros do século XIX. O francês desembarcou no país na cidade do Rio de Janeiro em primeiro de junho daquele mesmo ano. Junto com ele e o conde de Luxemburgo, vinha um grande grupo de cientistas, entre eles, destaca-se o Conde de Clarac, Charles Othon Frederick John Baptist of Clarac, desenhista e arqueólogo também francês. Paralelamente a sua chegada, desembarcava no país um outro grupo de franceses, no caso a Missão Artística Francesa, encabeçada pelos irmãos Taunay, Auguste-Marie Taunay Nicolas-Antoine Taunay e Aimé-Adrien Taunay, o pintor Jean-Baptiste Debret e o encarregado da missão Joachim Lebreton.
Durante os seis anos que viveu em meio a expedições, Saint-Hilaire percorreu inúmeros estados brasileiros. Entre eles, estão Espírito Santo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná, Goiás, São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Isso inclui viagens às nascentes do rio São Francisco e do Jequitinhonha. O tempo de estadia e frequência eram variados, sendo que, por exemplo, estabeleceu-se por 15 meses em Goiás e viajou até Minas Gerais por três vezes. Sobre as condições do deslocamento, eram feitas majoritariamente por burros ou cavalos e os caminhos precisavam ser abertos por meio do facão, ação praticada pelos auxiliares, prioritariamente, escravos, em meio à mata virgem.[carece de fontes?]
Comenta a Brasiliana da Biblioteca Nacional, sobre as faculdades de Saint-Hilare que ele não era um amador, mas, sim, um homem conhecedor da vasta literatura científica até então produzida e dos relatos de viagens de época, além de noções primordiais para um naturalista e para a proteção de suas descobertas, como saberes sobre dissecação de plantas, confecções de herbários, agricultura, transporte de vegetais.
Sobre seu envolvimento com o Brasil, destaca-se a união subjetiva, em suas pesquisas, do utilitarismo e da filantropia, muito presentes na literatura de viagens daquele século. Se por um lado, os objetivos daqueles que o teriam enviado eram a glória nacional, no caso da França, por outro lado, a busca individual também se dava pela melhora do bem-estar da humanidade por meio daquela infinidade de espécimes ainda desconhecidas e dos possíveis benefícios das plantas medicinais. A questão é que, à época, os caminhos da França eram considerados universais, ou seja, trabalhar para aquele país era trabalhar por toda humanidade.
Assim que chegou ao Rio de Janeiro, ele estabeleceu contato com Maller, o cônsul francês, e o funcionário da França, por sua vez, ajudava-o a enviar as descobertas de produtos naturais para Martinica, que é um departamento ultramarino insular francês no Caribe. Para além disso, junto ao frei Leandro do Sacramento, eles enviam outros espécimes também a Martinica e, agora, a Caiena. Foram 21 caixas com plantas vivas da periferia do Rio de Janeiro que foram endereçadas às colônias francesas. Sobre estas atividades, afirma a Brasiliana:
"Desse modo o sentimento de filantropia que permeava as atividades dos viajantes-naturalistas parte de uma distinção inicial básica: países civilizados com ciência, e países não totalmente civilizados com práticas empíricas tradicionais''.
De maneira mais clara, as fronteiras nacionais deveriam ser abolidas e, assim, a ciência se tornaria universal e seu desenvolvimento seria útil a toda a humanidade. Por isso, onde passava, Saint-Hilaire recolhia informações sobre o uso de plantas na medicina e na alimentação. Bem diferente de seu compatriota François-Auguste Biard, descreveu com sensibilidade suas impressões sobre a variedade do mundo vegetal no Brasil em "Viagem pelas províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais" (1830):
"Para conhecer toda a beleza das florestas tropicais é necessário penetrar nesses retiros tão antigos como o mundo. Nada aqui lembra a cansativa monotonia de nossas florestas de carvalhos e pinheiros; cada árvore tem, por assim dizer, um porte que lhe é próprio; cada uma tem sua folhagem e oferece frequentemente uma tonalidade de verde diferente das árvores vizinhas. Vegetais imensos, que pertencem a famílias distantes, misturam seus galhos e confundem sua folhagem."
Por seu trabalho, o naturalista recebia 3 000 francos anuais, valor que foi, posteriormente, elevado para 6 mil francos pagos pela França. Um possível facilitador de suas expedições era o fato dele ser um bom conhecedor do português ao nível de versar sobre origem de determinadas palavras e sobre as variantes regionais da língua, tratando-se da pronúncia. O que Saint-Hilaire coletou no país seria mais tarde usado em suas publicações e estudos sobre botânica, após junho de 1822, mês em que retorna à Europa, para toda a sua vida.
Principais localidades visitadas por Saint-Hilaire no Brasil e Uruguai (1816-1822).