Ataques de 8 de janeiro de 2023 foram uma série de atos de vandalismo, invasões e depredações do patrimônio público em Brasília cometidos por uma multidão de bolsonaristas extremistas que invadiu edifícios do governo federal com o objetivo de instigar um golpe militar contra o governo eleito de Luiz Inácio Lula da Silva para restabelecer Jair Bolsonaro como presidente do Brasil.
Por volta das 13 horas, no horário de Brasília, cerca de 4 mil bolsonaristas radicais saíram do Quartel-General do Exército e marcharam em direção à Praça dos Três Poderes, entrando em conflito com a Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF) na Esplanada dos Ministérios. Antes das 15 horas, a multidão rompeu a barreira de segurança estabelecida por forças da ordem e ocupou a rampa e a laje de cobertura do Palácio do Congresso Nacional, enquanto parte do grupo conseguiu invadir e vandalizar o Congresso, o Palácio do Planalto e o Palácio do Supremo Tribunal Federal. Lula e Bolsonaro não estavam em Brasília no momento das invasões. O Supremo Tribunal Federal (STF) considerou que os acontecimentos foram atos de terrorismo.
Cerca de 400 pessoas foram detidas no dia das invasões e outras 1,2 mil foram detidas no acampamento de manifestantes em frente ao QG do Exército no dia seguinte às depredações. Até março de 2023, 2 182 pessoas haviam sido presas por participarem ou terem envolvimento nos ataques. Logo após os eventos, o governador Ibaneis Rocha exonerou o secretário de segurança pública do Distrito Federal e ex-ministro da Justiça do governo Bolsonaro, Anderson Torres, que estava em Orlando, nos Estados Unidos, no dia das invasões. Após os ataques, o presidente Lula assinou um decreto autorizando uma intervenção federal no Distrito Federal, que durou até o dia 31 de janeiro. Posteriormente, o ministro do STF, Alexandre de Moraes, determinou o afastamento de Ibaneis pelo prazo inicial de 90 dias, decisão revogada em 15 de março.
Representantes do governo criticaram o ocorrido e declararam que os responsáveis pelos atos violentos, bem como seus financiadores e instigadores, seriam identificados e punidos. Líderes de diversos partidos brasileiros e governantes de vários países também repudiaram a invasão e consideraram-na um grave atentado contra a democracia. Muitos analistas compararam o evento com a invasão do Capitólio dos Estados Unidos em 2021 por apoiadores de Donald Trump, que se recusava a aceitar a sua derrota nas eleições. Outra comparação faz alusão à Intentona Integralista de 1938 pela semelhança das tentativas de golpe de Estado fracassadas por um grupo de extrema-direita da época. Diversos movimentos sociais convocaram a realização de atos de repúdio à invasão e em defesa da democracia, atos que se realizaram no dia 9 de janeiro em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Recife, Curitiba, Belo Horizonte e outras cidades, reunindo milhares de pessoas.
Alegações falsas de Jair Bolsonaro sobre o sistema eleitoral
Jair Bolsonaro alegava que as urnas eletrônicas utilizadas no Brasil eram propensas a fraudes desde pelo menos 2015, quando era deputado federal, sendo autor de uma emenda constitucional que previa o voto impresso no país. Ao divulgar a emenda, Bolsonaro disse que somente com o voto impresso se poderia "retirar, democraticamente, o PT do país em 2018". Posteriormente, essa emenda foi derrubada pelo Supremo Tribunal Federal e não chegou a ser implementada nas eleições de 2018, segundo o entendimento de que isso poderia gerar um risco de quebra de sigilo e da liberdade de escolha, pela possibilidade de mesários precisarem intervir em caso de falha da impressão.
Como presidente, repetidamente disseminou notícias falsas sobre a confiabilidade das urnas, as eleições de 2018 e fez ataques ao Tribunal Superior Eleitoral e ao STF. Bolsonaro alegou que houve um desvio de votos na eleição de 2018 e que teria sido eleito no primeiro turno. Além de dizer que não teriam eleições limpas sem o voto impresso, ele também afirmou que haveria uma articulação de ministros do Supremo e do TSE para fraudar o resultado das eleições. Durante a eleição presidencial de 2022, na qual Bolsonaro tentou se reeleger, vários políticos, organizações e membros da sociedade civil mostraram-se preocupados com a possibilidade de um autogolpe ou de uma ação semelhante à invasão ao Capitólio dos Estados Unidos, que ocorreu em 2021.
Manifestações após as eleições de 2022
Logo após a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, uma série de protestos contra o resultado da eleição começou. Constituindo-se inicialmente por bloqueios em rodovias, foram registrados 321 bloqueios em estradas federais de 25 estados e no Distrito Federal em 31 de outubro. Alguns militares da reserva apoiaram uma greve dos caminhoneiros antes do segundo turno. Segundo uma reportagem da Agência Pública, Aos Fatos e Núcleo Jornalismo, convocações para manifestações foram feitas desde 14 de outubro de 2022.
Os protestos nas rodovias perderam força em 3 de novembro, mas passaram a ser feitos em frente de quartéis das Forças Armadas de vários estados do país. Em Brasília, apoiadores de Bolsonaro montaram um acampamento em frente ao Quartel-General do Exército para instigar o exército a realizar um golpe de estado; o acampamento possuía infraestrutura, como um palco, barracas e tendas alugadas, banheiros químicos, geradores elétricos, alimentos e água.
Ataques à sede da Polícia Federal ocorreram após a diplomação de Lula e Geraldo Alckmin, em 12 de dezembro, realizados por bolsonaristas após a prisão do cacique José Acácio Tserere Xavante, detido sob a acusação de ser um dos mandantes da invasão na área de embarque do Aeroporto Internacional de Brasília, realizada dez dias antes. Veículos foram incendiados e destruídos no entorno da área nobre da capital federal, assim como também houve confrontos entre a Polícia Militar e os vândalos.
Em 24 de dezembro, a Polícia Militar do Distrito Federal desativou um explosivo colocado em um caminhão de querosene, nas proximidades do Aeroporto Internacional de Brasília. A Polícia Civil do Distrito Federal apurou que se tratava de uma emulsão explosiva, espécie de bomba utilizada em garimpo. O explosivo foi colocado pelo gerente de postos de combustíveis George Washington de Oliveira Sousa. Sousa admitiu em interrogatório que seu ato teve motivação ideológica, visto que não aceitou o resultado das eleições realizadas em outubro, e sob sua posse foi encontrado um arsenal com material explosivo.
Mensagens sobre o planejamento da invasão já circulavam na primeira semana de 2023, com áudios da articulação em grupos de Telegram e WhatsApp obtidos pela imprensa. O material expunha a intenção da organização dos atos em provocar ações violentas por parte da multidão, driblando a atuação policial. Algumas mensagens vazadas convocavam colecionadores de armas e desestimulavam a participação de crianças e idosos. O termo "festa da Selma" foi utilizado para referir aos planos para os ataques em redes sociais como o Twitter. O termo faz alusão a "selva", expressão utilizada pelos militares como saudação. Houve também planos para atacar refinarias de petróleo com o objetivo de parar a distribuição de combustível no país, além de torres de energia.
O transporte dos participantes foi realizado, em sua maioria, por meio de ônibus fretados, principalmente nas regiões Sul e Sudeste. Alguns desses levaram os bolsonaristas à Brasília de graça ou por um valor abaixo do mercado. Segundo um relatório da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), 83 pessoas e 13 empresas estiveram envolvidas na contratação de 103 ônibus.
Em 2 de janeiro de 2023, o ex-ministro de Bolsonaro, Anderson Torres, foi nomeado como Secretário de Segurança Pública no Distrito Federal por Ibaneis Rocha. Torres deixou o Brasil na noite de 6 de janeiro para ir à Orlando, chegando na manhã do dia seguinte, onde Jair Bolsonaro estava desde 30 de dezembro.
Vários dos bolsonaristas acampados na frente do Quartel-General do Exército e um dos participantes da invasão, Romário Garcia Rodrigues, vulgo Gay Nordestino Bolsonariano, foram ao Gabinete de Segurança Institucional (GSI) em 2022, comandado pelo então ministro Augusto Heleno. Também, vários membros do GSI participaram dos acampamentos.