Astrojildo Pereira Duarte Silva (Rio Bonito, 8 de outubro de 1890 — Rio de Janeiro, 20 de novembro de 1965) foi um ex-anarquista, escritor, jornalista, crítico literário e político brasileiro, fundador do Partido Comunista Brasileiro (PCB), em 1922.
Astrojildo nasceu na cidade de Rio Bonito, cidade do no interior do estado do Rio de Janeiro, no ano de 1890.
Pereira, já na adolescência, migrou para Niterói, lugar onde teve um primeiro contato com um colégio aristocrático, de modo a se relacionar com a capital do estado e entrar em contato com a intensa produção de literatura que acontecia ali.
Astrojildo abandonou o colégio aos quinze anos (terceira série do ginásio) ao afirmar que, ali, não lhe ensinavam o que gostaria de fato de aprender, de modo a dedicar-se ao que ele próprio apelidou de "autodidatismo arqui-atabalhoado". Sob a ótica institucional, a escola não lhe conferiu muita importância, mas sim na chance de ter contato com o que havia de mais contemporâneo e proeminente nas esferas políticas e sociais da sociedade na época. Mais precisamente, o colégio lhe aproximou da literatura e apresentou a política. Em 1908, Astrojildo trabalhou como operário gráfico e foi aceito no Ministério da Agricultura.
O deslumbramento e a ameaça da perda fizeram Astrojildo, em 1908, aos dezessete anos, rumar à região do Cosme Velho, onde se encontrava, já no leito de morte, seu ídolo Machado de Assis. Outros autores já se encontravam velando o falecido dentro da casa, e receberam o jovem. Astrojildo, apesar de não se anunciar, deu um jeito de adentrar a casa e ver de perto seu maior ícone no mundo literário. Tal episódio fez Astrojildo, no dia seguinte, escrever o artigo "A Última Visita", refletindo sobre o falecimento do autor. Tal episódio só foi desvendado por Astrojildo anos depois, quando assumiu que aquele garoto se tratava dele próprio. Tal relevância dada por Astrojildo não é a toa se considerada a intensa relação que possuía com a obra machadiana, de maneira a marcar sua produção como artista. Astrojildo nutria um fascínio pela trajetória literária e pessoal da Machado, de modo que passou a analisar sua obra, o que o levou a produzir diversos textos sobre o tema e até a publicar um livro, chamado Machado de Assis: ensaios e apontamentos avulsos (1959), que foi bem avaliado pelo público.
Astrojildo esteve presente na campanha para presidente de Ruy Barbosa, defensor das liberdades liberais, que acabou perdendo a disputa para o general Hermes da Fonseca. A derrota, aliada à agressividade apresentada pelo governo no caso da Revolta da Chibata, tornou Astrojildo um cético em relação à religião e ao Brasil como um todo. Sendo assim, rumou a Paris em 1911, mas tratou de voltar logo em seguida pelas dificuldades enfrentadas. Tais reviravoltas ascendeu de vez o ímpeto anarquista em Pereira, decidido a embarcar na causas operárias em vigor no momento, principalmente no Rio de Janeiro.
Em meados de 1910, Astrojildo devotou-se ao anarquismo, de modo que passou a ter uma atuação na intenção de alterar a sociedade do Brasil como um todo, preceito que passou a defender até a sua morte. O anarcossindicalismo - membro do pensamento anarquista marcado por um maior extremismo político e atuação dentro dos próprios sindicatos - imperava em meio ao movimento operário nas décadas iniciais do século XX, de modo que Astrojildo passou a se encontrar mergulhado no âmbito dos trabalhadores. O intelectual participou ativamente para a consolidação da imprensa operária, tendo escrito artigos, até 1920, que informavam a classe operária a respeito de fatos ocorridos em ativações industriais e que buscavam a organização da classe trabalhadora para a revolução social. Astrojildo, inclusive, elaborava os Congressos de Trabalhadores, manifestações e greves que o credenciavam como uma referência automática no universo proletariado no Brasil.
Durante a década de 1920, em acordo com militantes e intelectuais do movimento operário, Astrojildo Pereira fomentou a formação do Partido Comunista Brasileiro (PCB), tendo sido marcado como o mais proeminente fundador e comandante do partido na época, devido ao fato de ter ocupado a cadeira de secretário-geral da agremiação e conquistado o posto de "Seção Brasileira da Internacional Comunista".
Dessa forma, colocou em prática uma acentuada atuação na imprensa operária, de modo a canalizar sua energia em informação e instrução teórica das bancadas partidárias e no recrutamento de novos filiados. Sendo assim, assumiu uma robusta ocupação como diretor da sigla que se estendeu até a década seguinte (1930), momento em que a própria legenda partidária passou a perseguir seus intelectuais, o que culminou no afastamento e consequente expulsão de Astrojildo do PCB.
A influência da Revolução Russa e a inclinação ao comunismo
O ano de 1917 mostrou-se profético da trajetória que Astrojildo traçaria pelo resto de sua vida. A Revolução Russa de 1917 pode ser analisada como o maior estopim para uma ideologia em seu percurso, tendo em vista que, por meio dela, ele se abriu para novos horizontes de pensamento, encontrando uma bandeira que defenderia até a morte, além de aplicar uma nova prática política, de modo a questionar sua trajetória até ali. A partir daí, Astrojildo optou por romper com seus aliados e com as ideias que defendia tão veementemente até então. Astrojildo descrevia a Revolução Russa como:
[...] fundamentalmente econômica na sua origem e nos seus fins, acentuadamente libertária nos seus meios e processos e na direção – [...] que veio ensinar aos revolucionários, aos povos de todas as nações, a única fórmula moderna de eficácia destrutiva [...] capaz de realmente operar uma transformação social profunda.
Ainda em fase de conhecimento da nova ideologia, Astrojildo tratou de, primeiro, se informar sobre o assunto afim de divulgar as ideias entre os trabalhadores - nessa fase, se mostrava mais ao lado do bolcheviques. Dois anos após a Revolução Russa, porém, se deu uma ruptura no que tange o apoio do movimento anarquista à Rússia soviética, como consequência de uma mais profunda clareza da realidade no país em termos de política e da genuína natureza da revolução. Com a chegada de notícias mais apuradas sobre os leninistas, uma presão se fez para que os intelectuais tomassem partido, com alguns tendo se posicionado livremente contrários e fazendo fortes críticas ao movimento comunista (como Oliveira Vianna) e outros se mostrando simpáticos e abertos ao movimento, caso de Astrojildo Pereira.
Ao longo de sua carreira político-cultural, a adesão ao marxismo se fez uma das características mais marcantes da atuação de Astrojildo. A transição havia sido do anarquismo - ideologia segundo a qual militou durante a década de 1910 - para o comunismo, o qual defendeu e reivindicou pela resto de sua trajetória, mas que teve ênfase especial na década de 1920. Nesse momento, o anarquismo mostrou-se um movimento importante para questionar a cultura em vigor no Brasil, revelando-se preponderante na composição de PCB - partido formado, majoritariamente, por militantes comunistas que haviam migrado do anarquismo. Desse modo, o anarquismo se fez o caminho pelo qual Astrojildo - e diversos outros militantes partidários - percorreu visando chegar ao marxismo para, aí, propor uma cultura política no país que fosse nova e diferente.
Foi a partir de 1921 que Astrojildo estabeleceu-se por meio do marxismo, com o objetivo de vencer o momento de turbulência no qual o movimento operário se encontrava. Desse modo, deu-se início a um fenômeno de debate, ainda que relativamente raso, a respeito da questão da Rússia, uma vez que o movimento operário necessitava encontrar maneiras de composição que fossem novas afim de fazer oposição ao capital e triunfar diante da sinuca de ideologias que se apresentava no momento. Em 7 de novembro de 1921, Astrojildo oficializou o Grupo Comunista do Rio de Janeiro, inicialmente arquitetado por pouco mais de dez pessoas, tornando-se o cerne capaz de atrair e impulsionar diversos grupos comunistas ainda em fase de formação no Brasil. É válido registrar que, ainda que Astrojildo tenha tido uma visão moderna para a sua época, ao passo que conseguia se conscientizar acerca da importância da Revolução Russa e defendê-la de modo a rescindir com o anarquismo, outros também seguiam essa direção. Ativistas diversos se posicionaram favoráveis à Revolução e contribuíram em suas regiões para que um partido com alcance nacional, que de fato os representassem, pudesse ser fundado.