Amalrico (1136 – 11 de Julho de 1174) foi rei de Jerusalém de 1162 até à sua morte, e conde de Jafa e Ascalão antes de sua ascensão ao trono. Era o segundo filho de Melisende de Jerusalém com Fulque V de Anjou, e o irmão mais novo do seu antecessor, o rei Balduíno III.
Depois da morte de Fulque, o trono de Jerusalém passou para o governo conjunto de Melisende com Balduíno III. Em 1152, Balduíno já tinha atingido a maioridade há sete anos, e começou a afirmar-se na política do reino. Apesar de anteriormente não ter expresso o seu interesse na administração, agora exigia mais autoridade. A sua relação com a mãe foi deteriorando desde 1150, com o jovem rei a acusar o condestável do reino, Manasses de Hierges, homem de confiança de Melisende, de interferir na sua sucessão legal.
O conflito agudizou-se quando Balduíno organizou uma procissão nas ruas da cidade, usando uma coroa de louros como que em auto-coroação, sem a presença de Melisende. Mãe e filho acabaram por concordar em deixar a decisão para a Alta Corte de Jerusalém, um tipo de conselho real que compreendia a nobreza e o clero do reino. Os nobres decretaram que o jovem rei governaria no norte do reino: na Galileia e nas cidades de São João de Acre e Tiro; a rainha nas regiões mais ricas da Judeia e Samaria, para além da cidade de Jerusalém.
Amalrico, a quem tinha sido concedido em apanágio o Condado de Jafa quando atingiu a maioridade aos 15 anos, em 1151, permaneceu leal à mãe. Quando o seu irmão invadiu o sul do reino, Amalrico e Melisende refugiaram-se na Torre de David. Com a mediação da Igreja, a rainha rendeu-se e o trono passou exclusivamente para as mãos de Balduíno. Em 1153, o rei conquistou a fortaleza egípcia de Ascalão, que foi adicionada aos domínios de Amalrico, formando o Condado de Jafa e Ascalão.
Em 1157, Amalrico casou-se com Inês de Courtenay, filha de Joscelino II de Edessa, que vivia em Jerusalém desde a queda de Edessa em 1150. O patriarca Fulquério opunha-se a este casamento por motivos de consanguinidade, uma vez que ambos os noivos possuíam um trisavô em comum, Guido I de Montlhéry, e aparentemente só se casaram depois da morte do patriarca.
Balduíno III morreu em 1162 e o reino passou para Amalrico, apesar de alguma oposição à sua esposa Inês entre os nobres: estes tinham aceitado o casamento em 1157, quando Balduíno ainda poderia gerar um herdeiro, mas agora a Alta Corte recusava-se a apoiar o reinado de Amalrico se este não anulasse o seu casamento.
Esta hostilidade contra Inês foi provavelmente exagerada pelo cronista Guilherme de Tiro, a quem alguns anos mais tarde esta impediu que fosse nomeado para o cargo de patriarca latino de Jerusalém. Os escritores que continuaram a obra de Guilherme perpetuaram a fama imoral de Inês «não deveria haver tal rainha numa cidade tão santa como Jerusalém». No entanto, a consanguinidade era motivo suficiente para a oposição à sua coroa.
Amalrico concordou com a anulação e subiu ao trono sem uma esposa, apesar de Inês ter mantido o título de condessa de Jafa e Ascalão e receber uma pensão pelo rendimento desse feudo. Depois casar-se-ia com Hugo de Ibelin, de quem tinha ficado noiva antes de se casar com Amalrico. No entanto, a Igreja declarou legítimos Balduíno e Sibila, os filhos deste matrimónio anulado, preservando o seu lugar na linha de sucessão. Através dos seus filhos, Inês continuaria a exercer uma forte influência em Jerusalém por quase 20 anos.
Como qualquer estado cruzado, o Reino Latino de Jerusalém estava constantemente em estado de guerra com os territórios vizinhos. Desde o erro estratégico de Balduíno III em atacar em 1147 a cidade-estado de Damasco, o seu único aliado muçulmano, durante a Segunda Cruzada, a fronteira norte ficou exposta aos ataques de Noradine. O poder deste líder muçulmano foi gradualmente aumentando, com Mossul, Alepo e depois Damasco sob o seu poder.
Jerusalém também perdeu a sua influência para o Império Bizantino no norte da Síria, quando o Principado de Antioquia caiu sob a suserania de Manuel I Comneno. Apesar disso, os bizantinos sofriam também uma escalada nos seus próprios conflitos, particularmente com os normandos da Sicília.
O Egito, enfraquecido por uma sucessão de jovens califas fatímidas e pela guerra civil, foi o território inimigo mais atacado durante o reinado de Amalrico. A conquista desta nação era um desejo dos cruzados desde a época de Balduíno I, o primeiro rei de Jerusalém, e até o fundador do reino latino, Godofredo de Bulhão, tinha prometido ceder a cidade de Jerusalém ao patriarca Dagoberto de Pisa se este conseguisse tomar Cairo.
A tomada de Ascalão por Balduíno III em 1153 era uma primeira etapa vital para esta conquista. A partir daí, os cavaleiros da Ordem do Hospital começaram a preparar mapas de possíveis rotas de invasão. Amalrico liderou a sua primeira expedição ao Egito em 1163, reclamando que o fatímidas não tinham pago o tributo anual instituído durante o reinado do seu irmão.
Recentemente o vizir Xauar do Egito tinha sido deposto e substituído por um novo vizir, chamado Dirgham. No início da invasão, os cruzados derrotaram o exército de Dirgham em Pelúsio, forçando-o a retirar para Bilbeis. Então os egípcios abriram as barragens do rio Nilo, travando os invasores com a inundação.
Xauar, que tinha sido forçado a fugir, procurou o apoio de Noradine. Em 1164, este enviou um seu general, Xircu, para o Egito. Em resposta, Dirgham procurou a ajuda do rei cruzado, mas Xircu e Xauar chegaram antes de Amalrico poder intervir, e Dirgam foi morto. No entanto, temendo que Xircu tomasse o poder para si próprio, Xauar acabou também por se aliar a Jerusalém. Amalrico voltou ao Egito e cercou Xircu em Bilbeis, forçando-o a retirar para Damasco.
O rei latino não conseguiu capitalizar o seu sucesso porque entretanto Noradine atacava na Síria, tendo aprisionado Boemundo III de Antioquia e Raimundo III de Trípoli na batalha de Harim. Amalrico apressou-se a voltar ao seu reino, a assumir a regência dos dois estados cruzados que tinham perdido os seus líderes e a assegurar o resgate de Boemundo em 1165 (Raimundo permaneceu na prisão até 1173).
No ano seguinte Amalrico enviou uma embaixada ao Império Bizantino para obter uma aliança e uma esposa. Ao mesmo tempo Noradine fazia incursões no reino, conquistando Banias, e em 1167 voltou a enviar Xircu ao Egito. Xauar e o próprio califa fatímida Aladide voltaram a aliar-se aos cruzados, que mais uma vez perseguiram o general muçulmano, acampando nas proximidades de Cairo. Xircu montou o seu acampamento na outra margem do rio Nilo.
Depois de uma batalha indecisiva, Amalrico retirou para Cairo e Xircu tomou Alexandria. Cercado por exércitos e uma frota cruzada, Xircu negociou uma paz e passou o controlo dessa cidade a Amalrico. Mas depois de forçar a cidade a pagar um pesado tributo, o monarca teve de voltar a Jerusalém, deixando o seu aliado Xauar no poder.
De volta ao seu reino, Amalrico casou-se em 1167 com Maria Comnena, sobrinha-neta do imperador bizantino Manuel I Comneno. As negociações tinham demorado dois anos, principalmente porque o monarca cruzado insistira em Manuel devolver Antioquia a Jerusalém. Mas assim que abandonou esta exigência, o casamento pôde realizar-se na cidade de Tiro a 29 de agosto.