Almançor (em árabe: المنصور; romaniz.: al-Manṣūr; (Turruxe, c. 939 – Medinaceli, 9 de agosto de 1002),
foi um militar e político do Alandalus (Hispânia muçulmana) que, como hájibe (camareiro-mor)
do débil califa Hixame II, foi o governante de facto durante o apogeu do Califado de Córdova.
Nascido numa alcaria (pequena vila) nos arredores de Turruxe, no seio duma família de origem iamanita com alguns antepassados jurisconsultos, na juventude foi para Córdova para se formar como alfaqui. Depois de um começo humilde, ingressou na administração do califado e rapidamente ganhou a confiança de Subh, a favorita do califa Aláqueme II e mãe do herdeiro do trono. Graças à proteção de Subh e à sua competência, em pouco tempo acumulou vários cargos.
Durante o reinado de Aláqueme II (961–976) ocupou vários cargos administrativos importantes, como o de diretor da casa da moeda (967), administrador da favorita do califa e dos seus filhos, das heranças intestadas e do intendente do exército de Galibe ibne Abderramão (973). A morte de Aláqueme II em 976 marcou o começo da época califal dominada por Almançor, que perdurou depois da sua morte, até 1009, com o governo dos seus filhos, primeiro Abedal Maleque Almuzafar e depois Abderramão Sanchuelo. Como hájibe do califado (desde 978), teve um poder extraordinário no Estado andalusino, quer em toda a Península Ibérica como em parte do Magrebe, relegando o califa Hixame II para um papel praticamente apenas figurativo.
Alguns historiadores atribuem a sua impressionante ascensão ao poder a uma insaciável "sede de domínio", mas Eduardo Manzano Moreno adverte que «deve entender-se no contexto das complexas lutas internas que se desenvolviam no seio da administração omíada». Profundamente religioso, o seu controlo do poder político teve o apoio pragmático das autoridades religiosas muçulmanas, o que não evitou tensões periódicas entre o caudilho e essas autoridades. Na base do seu poder esteve a sua defesa da jiade que, por não ser califa, proclamava em nome deste. A sua imagem de paladino do islão serviu para justificar a sua autoridade governamental. Ao conquistar o domínio político no califado, realizou profundas reformas na política externa e interna.
Levou a cabo numerosas campanhas militares vitoriosas, tanto na Península Ibérica como no Magrebe. Apesar do sucesso das incursões contra os reinos cristãos peninsulares, conhecidas como aceifas, elas só conseguiram deter provisoriamente o avanço cristão em direção a sul, e apenas recuperou territórios que já tinham sido do califado.
Não obstante haver muitas dúvidas sobre o ano exato do nascimento de Almançor, tudo parece indicar que este ocorreu em 939, embora também possa ter ocorrido em 938. A sua família (Abu ʿAmir) era árabe, proprietária de terras e de origem iamanita, da tribo Maʿafir, estabelecida desde a invasão muçulmana da Península Ibérica em Turruxe (ou Turrush), uma alcaria pertencente à Cora de al-Yazirat, situada junto à foz do rio Guadiaro [es] no que é hoje o município andaluz de San Roque. As terras da sua família foram dadas por Tárique ibne Ziade, o comandante da invasão muçulmana, a um antepassado de Almançor de nome Abedal Maleque, como recompensa pela sua atuação na invasão, nomeadamente na conquista de Carteia. A abundância de topónimos derivados do árabe Turrux na Andaluzia, principalmente nas províncias de Málaga e Granada, fez com que várias localidades tenham sido erradamente assinaladas como a terra natal de Almançor.
Alguns membros da família desempenharam funções de cádi (juiz) e juristas. A posição social da família melhorou consideravelmente com a nomeação do avô paterno de Almançor como cádi de Sevilha e o seu casamento com uma filha dum vizir, governador de Badajoz e médico do califa Abderramão III (r. 912–961). O pai de Almançor, Abedalá, é descrito como um homem piedoso, bondoso e ascético que morreu em Trípoli quando regressava da sua peregrinação a Meca. A mãe, Buraia, também pertencia a uma família árabe. Ainda assim, a família não era de classe alta e, pelo contrário, era relativamente modesta e provinciana.
Quando ainda era muito jovem, ibne Abi Amir foi viver para Córdova, onde estudou direito e letras sob a tutela dum tio materno. Esta formação devia facilitar-lhe o ingresso na administração estatal, pois as oportunidades de carreira nas forças armadas eram limitadas para os árabes. Como muitos outros jovens de famílias acomodadas, recebeu formação na interpretação do Alcorão, em tradição profética e em aplicação da lei islâmica, completando a sua educação como alfaqui, com o objetivo de se tornar juiz. Da época de estudante conservou o gosto por literatura. Tendo sido aluno de mestres de renome na tradição legal islâmica e nas letras, mostrou talento para essas áreas.
A morte do seu pai e a má situação familiar levaram-no a abandonar os estudos e a tornar-se escrivão profissional. Depois de ocupar um modesto posto de memorialista no palácio e na Mesquita de Córdova, perto dos gabinetes da administração, para ganhar o seu sustento, o jovem destacou-se rapidamente pelas suas qualidades e ambição, tendo iniciado a sua fulgurante carreira política como escrivão da sala de audiências do cádi chefe da capital, Maomé ibne al-Salim. Este era um importante conselheiro do califa Aláqueme II, apesar dos seus cargos serem exclusivamente religiosos e não políticos. Em breve chamou a atenção do vizir Jafar Almuxafi, chefe da administração civil, que o introduziu na corte califal, provavelmente por recomendação de ibne al-Salim. Na altura já se destacava pelos seus conhecimentos e competência profissional, que continuaria a demonstrar nos cargos que rapidamente começou a acumular na administração. Então com menos de 30 anos de idade, Almançor foi um dos jovens funcionários que fizeram parte da mudança geracional da corte no início do reinado de Aláqueme II.
Em finais de fevereiro de 967 foi nomeado intendente do príncipe Abderramão, herdeiro e filho do califa Aláqueme II e da sua favorita, a escrava basca Subh (Aurora nas crónicas cristãs),
com quem estabeleceu uma relação privilegiada que foi muito benéfica para a sua carreira. Não obstante o seu papel ser provavelmente secundário, a responsabilidade como gestor dos bens do herdeiro do trono califal e da mãe deste proporcionou-lhe uma grande proximidade com a família reinante e rapidamente começou a acumular cargos importantes. Sete meses depois da sua primeira nomeação, graças à intercessão de Subh, foi nomeado diretor da casa da moeda e em dezembro de 968 foi nomeado tesoureiro das heranças intestadas.
No ano seguinte foi promovido a cádi de Sevilha e de Niebla, um dos cargos mais importantes do Estado. Em 970, após a morte do príncipe Abderramão, passou a ser administrador do jovem herdeiro Hixame. Por essa época contraiu matrimónio com a irmã do comandante da guarda califal e protegido do novo herdeiro do trono. Começou então a enriquecer, mandou construir uma casa em al-Rusafa, perto do antigo palácio de Abderramão I,
e a oferecer presentes sumptuosos ao harém califal. Após ser destituído do cargo de responsável da casa da moeda, em março de 972 foi acusado de peculato. Foi ajudado financeiramente para cobrir o suposto desfalque, após o que obteve o comando da as-surta al-wusta ("polícia média")
e manteve os outros cargos, incluindo o de administrador do herdeiro e das heranças intestadas.
Em 973 foi encarregado dos aspetos logísticos, administrativos e diplomáticos da campanha califal contra os idríssidas no Magrebe, com o posto oficial de grande cádi das possessões omíadas no Magrebe. A importância da frota nessa campanha e a sua dependência de Sevilha, onde Almançor era cádi e por isso responsável das suas instalações, além da confiança do próprio califa e do seu hájibe, contribuíram para a obtenção dessa responsabilidade. O cargo dava-lhe autoridade sobre civis e militares e, na prática, a supervisão da campanha. Uma das suas missões fundamentais era obter a submissão dos notáveis da região mediante a oferta de presentes formais