Alcuíno de Iorque (em latim: Alcuinus, também Albinus e Flaccus Albinus Alcuinus; em inglês antigo: Ealhwine; Nortúmbria, c. 735 – Tours, 19 de maio de 804) foi um erudito, poeta e professor anglo-saxão, diácono da Igreja de Iorque, conselheiro de Carlos Magno e abade de São Martinho de Tours. Formado na escola da catedral de Iorque, que depois dirigiu, passou em 782 ao serviço do rei dos francos, foi mestre da escola palatina e tornou-se uma das figuras centrais da Renascença carolíngia. Eginhardo, biógrafo de Carlos Magno, chamou-o "homem doutíssimo em tudo" (virum undecumque doctissimum).
Sua obra reúne manuais escolares em forma de diálogo, comentários bíblicos, tratados contra o adocionismo, vidas de santos, poemas e cerca de trezentas cartas. Atribui-se a ele, com probabilidade mas sem certeza, a coletânea de problemas matemáticos Propositiones ad acuendos iuvenes, em que aparece o problema do lobo, da cabra e da couve.
Alcuíno morreu no dia de Pentecostes de 804 e foi sepultado dentro da basílica de São Martinho. Uma Vita Alcuini, escrita entre 821 e 829, apresenta-o como santo, e textos carolíngios do século IX já o tratavam como tal. Não figura no cânon dos santos da Igreja Católica, mas a Igreja da Inglaterra e a Igreja Episcopal dos Estados Unidos celebram-no em 20 de maio.
Alcuíno nasceu por volta de 735 na Nortúmbria, provavelmente em Iorque ou em seus arredores. Segundo a Vita Alcuini, descendia de uma família nobre dos anglos, e o próprio Alcuíno teria dito a Carlos Magno que possuía na pátria uma herança considerável. A família estava ligada às missões anglo-saxãs no continente: Alcuíno era parente de Vilibrordo, o primeiro bispo dos frísios.
Ainda criança, foi entregue à escola da catedral de Iorque, que o arcebispo Egberto, discípulo de Beda, dirigia. Seu mestre foi Etelberto (Elberto), arcebispo de Iorque de 767 a 778, morto em 780. Acompanhou Etelberto em uma ou mais viagens a Roma. Numa carta de 799, recordou que, ainda adolescente, a caminho de Roma, passara alguns dias em Pavia e assistira ali ao debate entre um judeu chamado Lull e o mestre Pedro de Pisa.
Segundo a Vita, Alcuíno recebeu a tonsura e, anos depois, a ordenação de diácono no mesmo dia do calendário, a festa da Purificação de Maria. Ao que tudo indica, nunca passou do diaconato; em suas cartas, designava-se "Albino, humilde levita" (Albinus, humilis levita).
Quando Etelberto se tornou arcebispo, Alcuíno sucedeu-lhe à frente da escola catedralícia e ali ensinou por cerca de quinze anos. A Vita informa que Etelberto já o enviara antes à corte de Carlos Magno. O historiador Stéphane Lebecq relaciona essa missão a um poema de Alcuíno sobre uma viagem pelo vale do Reno e data-a, com base nas pessoas ali mencionadas, entre 775/776 e 778; nela o jovem diácono teria estabelecido relações com as elites leigas e eclesiásticas do reino franco.
A Vita conta que, pouco antes de morrer, Etelberto mandou Alcuíno ir a Roma e, na volta, visitar a Frância. Ali, segundo a profecia que o texto atribui ao arcebispo, Alcuíno combateria a heresia que fazia de Cristo homem um filho adotivo de Deus e permaneceria "em terra de peregrinação".
Na corte de Carlos Magno (781–796)
Em 781, o arcebispo Eambaldo, sucessor de Etelberto, enviou Alcuíno a Roma para buscar o seu pálio. Na volta, em Parma, Alcuíno encontrou Carlos Magno, que seguia para Roma a fim de celebrar a Páscoa, e o rei pediu-lhe que colaborasse na reforma religiosa e política de seu reino. Alcuíno aceitou, desde que o rei da Nortúmbria e o arcebispo o autorizassem. Depois de cumprir sua missão em Iorque, chegou à corte franca em 782 e permaneceu no continente até a morte.
Na corte, Alcuíno dirigiu a escola palatina, que acompanhava os deslocamentos do rei, mas funcionava sobretudo em Aquisgrão. Ensinou os filhos de Carlos Magno, os filhos de seus amigos e o próprio rei. Segundo Eginhardo, Carlos aprendeu gramática com Pedro de Pisa e as demais disciplinas com Alcuíno, a cujo lado dedicou muito tempo à retórica, à dialética e sobretudo à astronomia. Alcuíno dispunha de uma pequena residência perto do palácio, que deixava com frequência para cumprir missões oficiais.
Nesse período, voltou duas vezes à Inglaterra. Em 786, participou de um concílio de reforma das igrejas da Nortúmbria, provavelmente a pedido de Eambaldo e do rei Elfualdo I, e levou as decisões desse concílio a Ofa da Mércia. No fim de 790, partiu de novo, encarregado por Carlos Magno de uma missão diplomática junto a Ofa. Teria ficado de bom grado na Inglaterra se o rei franco não o chamasse de volta em 793 para combater o adocionismo. Em 796, depois do assassinato do rei Etelredo, escreveu a Ofa que preferia continuar no estrangeiro a voltar a uma terra onde ninguém estava em segurança.
O adocionismo, defendido pelo bispo Félix de Urgel e pelo arcebispo Elipando de Toledo, sustentava que Cristo, enquanto homem, era filho adotivo de Deus. Os bispos reunidos no Concílio de Frankfurt de 794 contra essa doutrina hesitavam em admitir um simples diácono, e Carlos Magno teve de impor a participação de Alcuíno, alegando que ele era versado em assuntos eclesiásticos. Num sínodo reunido depois em Aquisgrão, Alcuíno disputou com Félix, que acabou por se retratar.
Abade de São Martinho de Tours (796–804)
Carlos Magno confiou a Alcuíno vários mosteiros. Antes de Tours, deu-lhe as abadias de Ferrières e de Saint-Loup de Troyes; a cella de Saint-Josse, vizinha do porto de Quentovic, foi ligada a Ferrières provavelmente em 793. Em 796, Alcuíno tornou-se abade de São Martinho de Tours, mosteiro riquíssimo e de grande prestígio por guardar o túmulo de São Martinho, e no fim desse ano instalou-se ali definitivamente. Segundo a historiadora Martina Hartmann, ele recebeu ainda as abadias de Flavigny e de Berge, perto de Liège, visitava todas regularmente e provavelmente fiscalizava sua administração.
Em Tours, Alcuíno organizou uma escola monástica que serviu de modelo e reuniu muitos livros. Embora retirado da corte, continuou a viajar a serviço das abadias e do rei, até que a idade e a doença o imobilizaram; nos últimos anos, queixava-se a Carlos Magno de não poder mais atender a seus chamados. Na primavera de 800, os dois encontraram-se várias vezes, inclusive em Tours, aonde o rei foi consultar São Martinho e o guardião de seu santuário. A Vita narra uma visita de Carlos Magno e seus filhos ao túmulo do santo, durante a qual o rei teria perguntado a Alcuíno qual dos filhos deveria sucedê-lo; o abade teria apontado Luís, o mais novo e o mais desprezado por sua humildade. Christiane Veyrard-Cosme admite que o episódio possa ter servido à propaganda imperial.
A condição religiosa de Alcuíno em Tours é discutida: os historiadores divergem sobre se ele fez votos monásticos ou permaneceu no clero secular, mesmo como abade. A própria Vita conta que, sentindo-se velho e doente, ele pediu ao rei licença para viver como monge em Fulda, junto ao túmulo de São Bonifácio, segundo a Regra de São Bento. Carlos Magno recusou e exigiu que permanecesse em Tours, embora o dispensasse dos encargos temporais, que foram repartidos entre os discípulos. O hagiógrafo acrescenta que a vida de Alcuíno "não foi inferior à monástica".
Alcuíno caiu doente na noite da festa da Ascensão de 804. Segundo a Vita, pedira a Deus para morrer no dia de Pentecostes e, nos últimos tempos, cantava as vésperas no lugar que escolhera para sepultura, junto à igreja de São Martinho. Morreu no dia de Pentecostes, 19 de maio de 804, ao amanhecer, depois do ofício de matinas, à hora em que costumava ir à missa.