Albrecht Dürer (Nuremberga, 21 de maio de 1471 – Nuremberga, 6 de abril de 1528) foi um gravurista, pintor, ilustrador, matemático e teórico de arte alemão e, provavelmente, o mais famoso artista do Renascimento nórdico, tendo influenciado artistas do século XVI no seu país e nos Países Baixos. A sua maestria como pintor foi o resultado de um trabalho árduo e, no campo das artes gráficas, não tinha rival. As suas xilogravuras, consideradas revolucionárias, são ainda marcadas pelo estilo gótico. É considerado como o primeiro grande mestre da técnica da aguarela, principalmente no que diz respeito à representação de paisagens. Os seus interesses, no espírito humanista do Renascimento, abrangiam ainda outros campos, como a geografia, a arquitectura, a geometria e a fortificação.
Conseguiu chamar a atenção do imperador Maximiliano I para o seu trabalho, tendo sido por ele nomeado pintor da corte em 1512. Viveu, provavelmente, duas vezes na Itália em adulto. Em 1520, depois da morte do imperador, partiu para os Países Baixos, visitou muitas das cidades do norte e conheceu pintores e homens de letras, como Erasmo de Roterdão. Nos seus últimos anos, em Nuremberga, partindo de estudos de teoria da Arte italianos de autores que o antecederam, ocupou-se principalmente com a elaboração de tratados sobre a medida e proporções humanas, perspetiva e geometria como elementos estruturantes da obra de arte.
Chegou até nós uma quantidade apreciável de documentos pessoais e autobiográficos, como cartas, textos e desenhos acompanhados de anotações minuciosas que permitem uma boa compreensão da sua obra. Esta documentação é ainda enriquecida por diversas fontes que derivam da fama conquistada por Dürer numa idade relativamente jovem.
Primeiros anos e contexto cultural
Dürer nasceu no dia 21 de maio de 1471 em Nuremberga, cidade a que esteve intimamente ligado ao longo da sua vida. O seu pai, Albrecht Dürer, o Velho, era um ourives de origem húngara, filho de Anton Dürer, também ourives, teve 18 filhos – e Albrecht foi o terceiro, que em 1455 se mudou de Ajtós (ou Eytas, segundo as anotações de Dürer), perto de Gyula, na Hungria, para Nuremberga. Apelidado de "Ajtósi" (fabricante de portas), mudou o seu nome para Thürer, com o mesmo significado em alemão, mudando mais tarde para Dürer, de modo a ajustar o nome à pronúncia nuremburguesa. O brasão adquirido pela família, mais tarde desenhado por Dürer, contém no seu escudo, aliás, uma porta aberta. Em 1467, no mesmo ano em que se tornava mestre ourives depois de doze anos de aprendizado, Albrecht Dürer, o Velho, casou-se com Bárbara Hallerin, filha do seu mestre, Hieronymus Holper (também referido como Hyeronymus Haller), de quem teve dezoito filhos, Albrecht foi o terceiro e o segundo do sexo masculino.
Como era costume na época, depois de alguns anos de formação escolar, Albrecht entrou para o ateliê do seu pai como aprendiz na arte da ourivesaria. Foi aí, certamente, que utilizou pela primeira vez o cinzel, gravando adornos em peças de prata ou ouro. A técnica da gravura não é muito diferente, usando-se neste caso a folha de cobre que servirá para imprimir o papel usando uma prensa. De facto, sabe-se que os melhores gravadores do século XV, começaram como ourives.
Em princípio seguiria a profissão do pai, não tivesse ele demonstrado enorme talento, aos 15 anos de idade, quando começou como aprendiz de Michael Wolgemut em 1486, onde trabalhou durante três anos. Ao mesmo tempo em que aprendia pintura com Wolgemut, aprofundava os seus conhecimentos sobre técnicas de gravura em metal (como a técnica em ponta-seca) e em madeira, e artistas representativos do estilo alemão como Schongauer e o Mestre de Housebook inspiraram-no a criar o seu próprio estilo.
Wolgemut era, então, o artista mais conceituado de Nuremberga, com uma grande ateliê onde eram executadas as obras mais diversas, principalmente xilogravuras para livros. A cidade passava por um período de grande prosperidade, centro de publicações e de uma rica atividade comercial em produtos de luxo.
Nesta primeira etapa formativa, o jovem Dürer herdou os ensinamentos da arte alemã do século XV, legado em que estava bem presente a pintura flamenga do gótico tardio. Os artistas alemães tinham integrado na sua tradição o seu estilo de artistas flamengos, como Robert Campin, Jan van Eyck e, principalmente, Roger van der Weyden. A ligação comum era o conceito empírico do mundo comum aos povos do norte, mais fundamentado na observação que na teoria. Durante o século XVI, o aprofundamento de laços com a Itália através do comércio e difusão das ideias dos humanistas italianos pelo norte da Europa infundiu novas ideias artísticas no mundo cultural alemão, de tradição mais conservadora. Para os artistas alemães era difícil conciliar o seu imaginário medieval — representada com texturas requintadas, cores brilhantes e formas muito detalhadas, com a ênfase posta pelos artistas italianos na Antiguidade clássica, inspirando-se em temas mitológicos e figuras idealizadas.
A tarefa que Dürer prosseguirá seria a de fornecer um modelo em que os seus compatriotas poderiam combinar o interesse empírico pelos detalhes naturalistas com os aspectos teóricos da arte italiana. Na sua abundante correspondência, especialmente nas cartas ao humanista Willibald Pirckheimer, que se manteria seu amigo ao longo de toda a vida, e em diversas obras publicadas, Dürer defendeu que a geometria e as medidas eram a chave para a compreensão da arte renascentista italiana e, através dela, da arte clássica. Entre os amigos de Dürer contavam-se também matemáticos e astrónomos como Johannes Stabius, da corte de Maximiliano. Amizades que se refletem em trabalhos que desenvolveu, como os seus estudos sobre a construção de relógios de sol.
Cerca de 1507 até a data da sua morte foi tomando notas e executou desenhos para o seu tratado mais conhecido, Vier Bücher von menschlicher Proportion ("Quatro livros sobre as proporções humanas"), publicado postumamente em 1528. No entanto, outros artistas seus contemporâneos, com uma orientação mais visual que literária, deram mais atenção à obra calcográfica e xilográfica de Dürer que aos seus escritos, onde defendia um tipo de arte mais próximo das linhas mestras da Renascença italiana.
O padrinho de Dürer era Anton Koberger, que abandonou a carreira de ourives para se tornar num importante editor e impressor, provavelmente no ano do nascimento de Dürer. De facto, terá chegado a possuir vinte quatro prensas móveis e várias tipografias dentro e fora da Alemanha. A sua mais famosa publicação foram as Crónicas de Nuremberga, de Hartmann Schedel, publicadas em 1493. Continha um número sem precedentes de xilogravuras (1 809), muitas com uso repetido do mesmo bloco, executadas no ateliê de Wolgemut na altura em que Dürer aí era aprendiz, nomeadamente de 1488 e 1493, parecendo certo de que Dürer tenha trabalhado neste projeto, recebendo uma formação exaustiva quanto à execução de desenhos em placas de madeira.
Enquanto durou o Renascimento, o sul da Alemanha tornou-se no centro de numerosas publicações, sendo frequentes os pedidos de gravuras. Como era costume entre os jovens alemães acabados de terminar o seu período de aprendizagem, Dürer empreendeu os seus Wanderjahre ou anos de estudo em viagem (uma espécie de ano sabático), que lhe permitiriam conhecer o trabalho de outros artistas. Partiu em 1490, depois da Páscoa, passando pela Alemanha, pelos Países Baixos, Alsácia, Basileia e Estrasburgo. A viagem durou quatro anos, tendo terminado depois do Pentecostes. Em 1492, depois de ter passado provavelmente por Frankfurt e pelos Países Baixos, chegou a Colmar, onde tentou arranjar lugar no estúdio do pintor e gravurista alemão Martin Schongauer, talvez o mais importante gravador do Norte da Europa. Dürer desconhecia, no entanto, que o artista tinha morrido em 1491. Pôde, contudo, estudar o seu trabalho com os irmãos de Schongauer.
Estes, Caspar e Paul (ourives), e Ludwig (pintor), aconselharam-no a dirigir-se para Basileia, cidade que era, então, um florescente centro de publicações. Escreveram-lhe uma carta de recomendação para um seu outro irmão, Georg Schongauer, também um ourives, dono de um grande ateliê em Basileia. À chegada, foi recebido na própria casa de Geórg. Em 8 de agosto de 1492 o editor de Nicolaus Kessler publicou uma edição das Cartas de São Jerónimo ("Epistolare beati Hieronymi") e, no frontispício, aparecia um retrato do santo na sua cela, feito por Dürer. Apesar da sua juventude, o sucesso desta obra valeu-lhe mais ofertas de trabalho.Primeiro em Basileia e mais tarde em Estrasburgo, onde apreciou as esculturas de Nikolaus Gerhaert, Dürer executou ilustrações para várias publicações, entre as quais Das Narrenschiff (A Nave dos loucos), de 1494, de Sebastian Brant. Durante esta primeira etapa da sua vida, cobrindo o período de aprendizagem até ao seu retorno a Nuremberga em 1494, a sua obra reflete grande facilidade no traço do desenho e uma observação dos detalhes. Estas qualidades são especialmente evidentes numa série de retratos de que destacamos três: um dos seus mais antigos desenhos, executados a ponta de prata, de 1484 (atualmente na Galeria Albertina de Viena), quando tinha cerca de treze anos (quando ainda "era criança", como é referido na sua inscrição de data posterior); um retrato pintado em 1491 (Coleção da Universidade, Erlangen, Alemanha), onde mostra uma expressão séria, e outro retrato mais tardio, em 1493 (Louvre), onde se autorrepresenta como um jovem mais confiante, e que teria sido enviado para a sua noiva em Nuremberga.