Neste Dia

Alboácem Ali ibne Otomão

Sultão merínida

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Alboácem Ali ibne Otomão (em árabe: أبو الحَسُنَ علي بن عثمان; romaniz.: Abū al-Ḥasan Ali ibn Uthman; m. maio de 1351) foi o sultão do Império Merínida (no atual Marrocos) de setembro de 1331 até setembro de 1348. Em 1333, capturou Gibraltar dos castelhanos, embora uma tentativa posterior de tomar Tarifa em 1339 tenha terminado em fiasco. No norte da África, estendeu seu domínio sobre Reino de Tremecém dos ziânidas e a Ifríquia do Reino Hafécida, que juntos cobriam o norte do que hoje é a Argélia e a Tunísia. Sob ele, o Império Merínida do Magrebe cobriu brevemente uma área que rivalizava com a do Califado Almóada anterior. No entanto, foi forçado a recuar devido a uma revolta das tribos árabes, perdendo muitos de seus apoiadores. Seu filho Abu Inane Faris tomaria o poder em Fez e Alboácem Ali morreu no exílio nas montanhas do Alto Atlas.

Alboácem Ali era filho do sultão Abuçaíde Otomão II (r. 1310–1331) e de mãe abissínia. Tinha pele escura e era conhecido como o 'sultão negro' do Marrocos. Era pai de Abomar Taxufine, Abu Inane Faris e Abu Maleque Abde Aluaide. Em data incerta próximo do fim do reinado de seu pai, foi nomeado herdeiro presuntivo, em substituição de seu irmão Abu Ali Omar, que havia se rebelado contra Abuçaíde e foi derrotado e confinado em Segelmeça. Em vista de garantir apoio do Reino Hafécida de Túnis contra o Reino de Tremecém dos ziânidas, o sultão arranjou o casamento Alboácem Ali com a princesa Fátima, filha do califa Abu Iáia Abu Becre II (r. 1318–1346). Quando se dirigia para buscar a pretendente em setembro de 1331, o sultão faleceu repentinamente e foi sucedido por Alboácem Ali. Ao ascender, optou por prosseguir às políticas intervencionistas de seu pai nos assuntos políticos dos vizinhos do Magrebe e do Alandalus, visando melhorar a posição político-econômica do Império Merínida. Embora tenha aceitado confirmar a posição de seu irmão Abu Ali Omar em Segelmeça, temia que se aliaria com os ziânidas de Tremecém e estrangularia economicamente os merínidas em Fez. Por esse motivo, decidiu construir uma poderosa frota de guerra para lutar contra os ziânidas na costa do Magrebe, e que também serviria às suas ações na área do estreito de Gibraltar contra a Coroa de Castela.

Em 1309, as tropas da Coroa de Castela comandadas por Fernando IV (r. 1295–1312) capturaram Gibraltar, então chamada Medinate Alfate (Cidade da Vitória), do Reino Nacérida de Granada. Em 7 de setembro de 1331, o sultão nacérida Maomé IV (r. 1325–1333) navegou pessoalmente ao Magrebe para se encontrar com Alboácem Ali em sua corte em Fez. O sultão merínida respondeu positivamente, prometendo enviar tropas para ajudar os muçulmanos de Granada e dando presentes a Maomé. A ajuda merínida consistia em cinco mil soldados, liderados pelo filho do sultão, Abu Maleque Abde Aluaide. Eles navegaram para Algeciras no início de 1333, logo cercando Gibraltar por mar e terra. O exército merínida juntou-se às tropas de Granada lideradas por Abu Nuaim Riduão. Os castelhanos estiveram distraídos com a coroação do rei Afonso XI (r. 1312–1350) e demoraram a responder à força de invasão, que foi capaz de começar o cerco antes que uma grande resposta pudesse ser organizada. O almirante castelhano Afonso Godofredo Tenório tentou entregar suprimentos a Gibraltar, mas foi impedido pelo bloqueio da frota merínida. Tentou atirar sacos de farinha na cidade usando os trabucos de seus navios, mas a maioria deles não alcançou o castelo.

A situação em Gibraltar era desesperadora em meados de junho. A comida acabou e os habitantes da cidade e a guarnição foram reduzidos a comer seus próprios escudos, cintos e sapatos na tentativa de ganhar sustento com o couro de que eram feitos. Em 17 de junho, Vasco Peres de Meira rendeu Gibraltar depois de acertar os termos com Abu Maleque. Os defensores foram autorizados a partir com honra em sinal de respeito por sua coragem em defender a cidade por tanto tempo. Afonso XI ouviu a notícia três dias depois, quando seu exército de socorro estava a apenas alguns dias de marcha de Xerez. A queda de Gibraltar foi recebida com entusiasmo no Magrebe; o cronista mouro ibne Marzuque registrou que, enquanto estudava em Tremecém, seu professor anunciou à classe: "Alegrem-se, comunidade de fiéis, porque Deus teve a bondade de nos devolver Gibraltar!" De acordo com ibne Marzuque, os jubilosos alunos explodiram em gritos de louvor, agradeceram e derramaram lágrimas de alegria.

Afonso XI apressou sua marcha, cruzando o Guadarranque em Castelar em 26 de junho e logo sitiando para retomar Gibraltar. Os muçulmanos reforçaram a cidade transportando suprimentos de Algeciras, e as tropas de Abu Maleque estacionadas naquela cidade se opuseram ao exército de Afonso. Para desviar a atenção de Castela, Maomé VI liderou um contra-ataque em território castelhano, capturando Benamejí e invadindo as áreas ao redor de Córdova. Ele não encontrou resistência porque o exército de Afonso foi imobilizado pelas forças de Abu Maleque e os nobres castelhanos que deveriam se opor a Maomé se rebelaram e atacaram os castelos de Afonso, acompanhados por João Manuel, que havia desertado do acampamento de Afonso. Maomé então marchou em direção a Gibraltar. Inicialmente acampou nas margens do Guadiaro perto da cidade sitiada e depois foi à Serra Carbonera para unir forças com Abu Maleque. Os exércitos muçulmano e cristão se enfrentaram por vários dias, mas depois de várias escaramuças nenhum dos lados estava confiante numa vitória decisiva. Afonso também estava preocupado com a destruição de seu reino por seus nobres rebeldes. Uma trégua foi acordada em 24 de agosto. O sucesso da campanha de Gibraltar alimentou temores na corte de Granada de que os merínidas se tornariam muito influentes e provocou o assassinato de Maomé IV em 25 de agosto por nobres ressentidos de Granada. No entanto, Alboácem não estava pronto para invadir a Península Ibérica, pois estava envolvido em hostilidades com Tremecém. O irmão e sucessor de Maomé IV, Iúçufe I (r. 1333–1354), manteve a aliança com o sultão merínida.

Alboácem Ali conquistou os vales dos rios Suz e Drá com ajuda de seus aliados, os árabes maquilitas, que receberam concessões territoriais e se tornaram os senhores virtuais da região. Na sequência, em 1332, o sultão tomou controle da costa do Magrebe Central. No interior, o sultão de Tremecém, Abu Taxufine I (r. 1318–1337), iniciou hostilidades contra a Ifríquia, sitiou Bugia e enviou um exército que derrotou o califa hafécida Abu Iáia Abu Becre II, que fugiu para Constantina enquanto os ziânidas ocupavam Túnis. Alboácem era casado com uma princesa hafécida e, em 1334, os hafécidas pediram ajuda a ele, dando-lhe uma boa desculpa para invadir seu vizinho. No início de 1335, as forças merínidas comandadas pelo sultão iniciaram um cerco contra a Tremecém, que caiu em maio de 1337. Abu Taxufine morreu durante a luta. Seus irmãos foram capturados e mortos e o Reino de Tremecém (cobrindo aproximadamente a metade ocidental da moderna Argélia) foi anexado pelos merínidas. Alboácem recebeu delegados do Egito, Granada, Túnis e Mali parabenizando-o por sua vitória, pela qual obteve o controle total do comércio transaariano.

Desde 1333, o irmão e sucessor de Maomé IV, o sultão nacérida Iúçufe I (r. 1333–1354), solicitou a proteção de Alboácem Ali contra as investidas dos cristãos. A paz que Maomé IV garantiu após o cerco de Gibraltar foi, pelos princípios da época, anulada por sua morte, e representantes de Iúçufe se reuniram com os de Afonso XI e Alboácem Ali. Assinaram um novo tratado em Fez em 26 de fevereiro de 1334 com uma duração de quatro anos. Como os tratados anteriores, autorizava o livre comércio entre os três reinos, mas, excepcionalmente, não incluía o pagamento de tributos de Granada a Castela. Os navios merínidas deveriam ter acesso aos portos castelhanos, e Alboácem Ali prometeu não aumentar suas guarnições na Península Ibérica - mas ainda poderia rotacioná-las. A última condição era favorável não apenas para Castela, mas também para Granada, que estava desconfiada de um possível expansionismo merínida na península.

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