Neste Dia

Adoniran Barbosa

Cantor e compositor brasileiro (1910–1982)

Anúncio

Adoniran Barbosa, nome artístico de João Rubinato (Valinhos, 6 de agosto de 1910 – São Paulo, 23 de novembro de 1982), foi um compositor, cantor, comediante e ator brasileiro. Conhecido como o "Pai do samba paulista" , destacou-se como uma das figuras mais relevantes da música popular brasileira ao criar uma identidade única do samba e como um dos principais difusores da cultura e da produção artística do estado de São Paulo. Entre as características mais marcantes de suas canções estavam o uso do dialeto ítalo-paulista e o retrato sensível do cotidiano das camadas populares e marginalizadas da população urbana origem italiana de alguns bairros paulistanos, como Barra Funda e Brás, em oposição à letra do samba fluminense, que "exalta a figura do morro, do malandro, em oposição à figura do trabalhador".

Nascido no interior paulista e criado na capital, Adoniran lançou, em 1934, a marcha carnavalesca "Dona Boa", que conquistou o primeiro lugar em um concurso promovido pela Prefeitura de São Paulo. Seu reconhecimento em âmbito nacional, contudo, consolidou-se a partir da década de 1950, quando o grupo paulistano Demônios da Garoa interpretou sua canção "Saudosa Maloca". Em 1964, lançou outro grande sucesso, "Trem das Onze", que rapidamente se tornou conhecido no Brasil e no exterior, solidificando a imagem do cantor como "ícone da música paulista" e transformando a canção em um símbolo cultural da cidade de São Paulo. Seus outros sucessos incluem "Tiro Ao Álvaro" e "Samba do Arnesto".

Seu legado e influências têm sido reconhecidos por diversas publicações especializadas, com a Rolling Stone Brasil elegendo "Trem das Onze" entre as 100 maiores músicas nacionais e Adoniran entre os maiores artistas da música brasileira.

Morreu em São Paulo no dia 23 de novembro de 1982, aos 72 anos, por enfisema pulmonar.

Adoniran era filho de Francesco "Fernando" Rubinato e Emma Ricchini, imigrantes italianos da comuna de Cavarzere, província de Veneza. Seus avós paternos eram Angelo Rubinato e Anna Manfrinato, e os maternos, Francesco Ricchini e Antonia Freddo. Seus pais casaram-se em Cavarzere em 23 de maio de 1895, desembarcaram em Santos em 15 de setembro de 1895, passaram pela Hospedaria dos Imigrantes e foram trabalhar nas lavouras do município de Tietê. Sua mãe morreu em 1939 e seu pai em 1943.

João Rubinato nasceu em 6 de agosto de 1910 em Valinhos, localidade que foi distrito do município de Campinas até 1953. Numa entrevista em 1972 ao programa Ensaio Especial da TV Cultura, Adoniran disse que na verdade nascera em 1912, mas sua família teria adulterado os documentos para 1910, para que começasse a trabalhar mais cedo, pois a fábrica em que iria trabalhar não admitia quem tivesse menos de doze anos. Porém no documentário “Meu Nome é João Rubinato”, o neto de Adoniran Barbosa, João Rubinato, afirma que conseguiu ter acesso a certidão de nascimento original do cartório Campinas, estando lá escrito que Adoniran nasceu mesmo em 1910, e não em 1912.

Abandonou a escola cedo, pois não gostava de estudar. Necessitava trabalhar para ajudar a família numerosa – Adoniran tinha sete irmãos. Procurando resolver seus problemas financeiros, os Rubinato viviam mudando de cidade. Moraram primeiro em Valinhos (então distrito de Campinas), depois Jundiaí, Santo André e finalmente São Paulo.

Em Jundiaí, Adoniran exerce seu primeiro ofício: entregador de marmitas. Aos doze anos andava pelas ruas da cidade e surrupiava alguns bolinhos pelo caminho. "A matemática da vida lhe dá o que a escola deixou de ensinar: uma lógica irrefutável. Se havia fome e, na marmita oito bolinhos, dois lhe saciariam a fome e seis a dos clientes; se quatro, um a três; se dois, um a um”.

O compositor e cantor tem um longo aprendizado, num arco que vai do marmiteiro às frustrações causadas pela rejeição de seu talento. Quer ser artista – escolhe a carreira de ator. Procura de várias maneiras fazer seu sonho acontecer. Tenta, antes do advento do rádio, o palco, mas é sempre rejeitado. Sem padrinhos e sem instrução adequada, o ingresso nos teatros como ator lhe é para sempre abortado. O samba, no início da carreira, tem para si caráter acidental. Escolado pela vida, sabia que o estrelato e o bom sucesso econômico só seriam alcançados na veiculação de seu nome na caixa de ressonância popular que era o rádio.

O magistral período das rádios, também no Brasil, criou diversas modas, mexeu com os costumes, inventou a participação popular – no mais das vezes, dirigida e didática. Têm elas um poder e extensão pouco comuns para um país que na época era rural. Inventam a cidade, popularizam o emprego industrial e acendem os desejos de migração interna e de fama. Enfim, no país dos bacharéis, médicos e párocos de aldeia, a ascensão social busca outros caminhos e pode-se já sonhar com a meteórica carreira de sucesso que as rádios produzem. Três caminhos podem ser trilhados: o de ator, o de cantor ou o de locutor.

Adoniran percebe as possibilidades que se abrem a seu talento. Quer ser ator, popularizar seu nome e ganhar algum dinheiro, mas a rejeição anterior o leva a outros caminhos. Sua inclinação natural no mundo da música é a composição mas, nesse momento, o compositor é um mero instrumento de trabalho para os cantores, que compram a parceria e, com ela, fazem nome e dinheiro. Daí sua escolha recair não sobre a composição, mas sobre a interpretação.

Busca conquistar seu espaço como cantor – tem boa voz, poderia tentar os diversos programas de calouro. Já com o nome de Adoniran Barbosa – tomado emprestado a um companheiro de boemia e de Luís Barbosa, cantor de sambas, que admira – João Rubinato estreia cantando um samba brejeiro de Ismael Silva e Nilton Bastos, o Se você jurar. É gongado, mas insiste e volta novamente ao mesmo programa; agora cantando o belo samba de Noel Rosa, Filosofia, que lhe abre as portas das rádios e ao mesmo tempo serve como mote para suas composições futuras.

A vida profissional de Adoniran Barbosa se desenvolve a partir das interpretações de outros compositores. Sua primeira composição gravada foi Dona Boa, na voz de Raul Torres, uma marcha que venceu o concurso de canções carnavalescas promovido pela prefeitura municipal de São Paulo no ano de 1935. Depois grava em disco Agora pode chorar, que não faz sucesso algum. Aos poucos se entrega ao papel de ator radiofônico; a criação de diversos tipos populares e a interpretação que deles faz, em programas escritos por Osvaldo Moles, fazem do sambista um homem de relativo sucesso. Embora impagáveis, esses programas não conseguem segurar por muito tempo ainda o compositor que teima em aparecer em Adoniran. Entretanto, é a partir desses programas que o grande sambista encontra a medida exata de seu talento, em que a soma das experiências vividas e da observação acurada dá ao país um dos seus maiores e mais sensíveis intérpretes.

O mergulho que o sambista fará na linguagem, suas construções linguísticas, pontuadas pela escolha exata do ritmo da fala paulistana, irão na contramão da própria história do samba. Os sambistas sempre procuraram dignificar sua arte com um tom sublime, o emprego da segunda pessoa, o tom elevado das letras, que sublimavam a origem miserável da maioria, e funcionavam como a busca da inserção social. Tudo era uma necessidade urgente, pois as oportunidades de ascensão social eram nenhumas e o conceito da malandragem vigia de modo coercitivo. Assim, movidos pelos mesmos desejos que tinha Adoniran de se tornar intérprete e não compositor, e a partir daí conhecido, os compositores de samba, entre uma parceria vendida aqui e outra ali, davam o testemunho da importância que a linguagem assumia como veículo social.

Todavia, a escolha de Adoniran é outra, seu mergulho também outro. Aproveitando-se da linguagem popular paulistana – de resto do próprio país – suas canções dele são o retrato exato desta linguagem e, como a linguagem determina o próprio discurso, os tipos humanos que surgem deste discurso representam um dos painéis mais importantes da cidadania brasileira. Os despejados das favelas, os engraxates, a mulher submissa que se revolta e abandona a casa, o homem solitário, social e existencialmente solitário, estão intactos nas criações de Adoniran, no humor com que descreve as cenas do cotidiano. A tragédia da exclusão social dos sambistas se revela como a tragicômica cena de um país que subtrai de seus cidadãos a dignidade.

Anúncio

Em breve no aplicativo World in Stories

Áudio, download offline, sem anúncios e muito mais.

Conhecer Premium
Adoniran Barbosa | World in Stories