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Abraham Hyacinthe Anquetil-Duperron

Orientalista francês

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Abraham Hyacinthe Anquetil-Duperron (Paris, 7 de dezembro de 1731 — Paris, 17 de janeiro de 1805) foi o primeiro indólogo profissional francês. Concebeu a estrutura institucional para a nova profissão. Inspirou a fundação da Escola Francesa do Extremo Oriente um século após sua morte. A biblioteca do Instituto Francês de Pondicherry leva seu nome. Através de suas traduções, ele ajudou a introduzir textos indianos, como os Upanixades, no Ocidente.

Abraham Hyacinthe Anquetil nasceu em Paris, em 7 de dezembro de 1731, como o quarto dos sete filhos de Pierre Anquetil, um importador de especiarias. Como era costume na época, o nome de uma das propriedades de seu pai, “Duperron”, foi acrescentado ao seu nome para distingui-lo de seus irmãos. Anquetil-Duperron inicialmente se destacou no estudo da teologia em Paris e Utrecht, com a intenção de se tornar padre como seu irmão mais velho, Louis-Pierre Anquetil. No entanto, no decorrer de seus estudos, ele adquiriu tanto interesse pelo latim, hebraico e grego que decidiu se dedicar inteiramente à filologia e aos estudos clássicos e interrompeu sua formação clerical. Viajou para Amersfoort, perto de Utrecht, para estudar línguas orientais, especialmente o árabe, com os jansenistas que estavam exilados lá. Ao retornar a Paris, sua presença na Biblioteca Real (Bibliothèque du Roi, hoje Biblioteca Nacional) atraiu a atenção do guardião dos manuscritos, Claude Sallier, que contratou Anquetil-Duperron como assistente com um pequeno salário.

Interesse inicial em manuscritos indianos

Em 1754, Michelangelo-André Le Roux Deshauterayes, que na época era professor de árabe no Collège Royal, mostrou a Anquetil-Duperron um fac-símile de quatro folhas de uma Vendidad Sade que havia sido enviada ao tio de Deshauterayes, Michel Fourmont, na década de 1730, na esperança de que alguém pudesse decifrá-la. O original estava na Biblioteca Bodleiana de Oxford, mas a escrita não foi reconhecida e, por isso, o manuscrito foi colocado em uma caixa acorrentada a uma parede próxima à entrada da biblioteca e mostrado a todos que pudessem identificar a curiosidade. Também na Bodleiana estava a coleção de manuscritos de James Fraser (1713–1754), que havia morado em Surrate (uma cidade na atual Guzerate, Índia) por mais de dezesseis anos, onde foi um comerciante que recebia e vendia mercadorias em comissão da Companhia Britânica das Índias Orientais e, mais tarde, Membro do Conselho. Fraser retornou à Grã-Bretanha com cerca de 200 manuscritos em sânscrito e avéstico, que ele pretendia traduzir, mas morreu prematuramente em 21 de janeiro de 1754.

Em seu relato de viagem posterior, Anquetil-Duperron critica duramente os ingleses, tanto pelo “fracasso” de Fraser em realizar o que pretendia, quanto pelo fato da Bodleiana não ter percebido que os manuscritos de Thomas Hyde, que a Bodleiana também possuía, incluíam uma tabela de transliteração para a escrita avéstica. Aproveitando a antipatia dos franceses em relação aos ingleses, em seu relato de viagem ele afirmou mais tarde que, após ver o fac-símile das páginas do manuscrito de Oxford, resolveu “enriquecer [seu] país com esse trabalho singular” e sua tradução.apud Havia um interesse do governo em obter manuscritos orientais;; Anquetil-Duperron obteve uma missão do governo para fazê-lo, mas, sem condições de pagar sua própria passagem para a Índia, alistou-se como soldado comum da Companhia Francesa das Índias Orientais em 2 ou 7 de novembro de 1754. Ele marchou com a companhia de recrutas das prisões parisienses para o porto atlântico de Lorient, onde uma expedição estava se preparando para partir. Seus amigos conseguiram sua dispensa e, em 7 de fevereiro de 1755, o ministro, tocado por seu zelo romântico pelo conhecimento, concedeu-lhe passagem gratuita, um lugar à mesa do capitão, uma mesada de 500 libras da biblioteca e uma carta de apresentação ao governador francês na Índia, o que lhe daria direito a um pequeno salário enquanto estivesse lá. Anquetil-Duperron deixou a França como passageiro livre em 24 de fevereiro de 1755.

Depois de uma viagem de seis meses, Anquetil-Duperron desembarcou em 10 de agosto de 1755 na colônia francesa de Pondicherry, na costa do sudeste da Índia. Conforme sua correspondência particular, parece que ele pretendia se tornar “mestre das instituições religiosas de toda a Ásia”, que no século XVIII ainda se imaginava derivar dos Vedas indianos. Para isso, Anquetil-Duperron sabia que precisaria aprender sânscrito. Inicialmente, ele estudou persa (a língua franca da Índia Mogol), que os europeus no século XVIII ainda presumiam ser descendente do sânscrito. Seu plano era, então, visitar os brâmanes em Benares para aprender sânscrito “em algum pagode famoso”.apud Meio ano depois, ele estava vivendo de arroz e vegetais e economizando dinheiro para “encontrar algum brâmane” de quem pudesse se tornar discípulo. Como também queria “estudar os livros indianos”, decidiu viajar para a colônia francesa de Chandannagar, também conhecida em francês como Chandernagor, em Bengala, onde chegou em abril de 1756. Logo adoeceu; por coincidência, foi parar no hospital do missionário jesuíta Antoine Mozac, que alguns anos antes havia copiado os “Vedas de Pondicherry”. Anquetil-Duperron permaneceu no hospital até setembro ou outubro de 1756 e começou a se perguntar se não deveria se tornar padre, como havia pretendido anos antes. Enquanto isso, a eclosão da Guerra dos Sete Anos na Europa renovou as hostilidades entre as forças francesas e britânicas na Índia, onde o conflito ficou conhecido como a Terceira Guerra Carnática. A Companhia Britânica das Índias Orientais, sob o comando de Robert Clive, e a Marinha Britânica, sob o comando de Charles Watson, bombardearam e capturaram Chandannagar em 23 de março de 1757, e Anquetil-Duperron resolveu deixar o território. Sem conseguir acesso aos Vedas, Anquetil-Duperron planejou viajar para o Tibete e a China para encontrar os antigos textos indianos lá. Desanimado com a notícia de que não havia textos a serem encontrados lá, Anquetil-Duperron retornou por terra a Pondicherry ao longo de uma caminhada de cem dias. Lá, ele encontrou seu irmão Etienne Anquetil de Briancourt, que havia sido nomeado cônsul em Surrate.

Como Etienne garantiu a Abraham que os sacerdotes zoroastristas de Surrate lhe ensinariam seus textos sagrados, bem como os idiomas em que estavam escritos, ele decidiu acompanhar o irmão. Desejando explorar o país, no entanto, ele desembarcou do navio do irmão em Mahé e viajou por terra o resto do caminho a pé e a cavalo. Chegou a Surrate em 1 de março de 1758, em uma época em que os zoroastristas indianos (parses) estavam envolvidos em uma amarga disputa sobre a intercalação do calendário zoroastriano, que hoje é chamada de “controvérsia Kabiseh”. Uma facção (os shahenshahis, liderados por um certo Muncherji Seth) tinha vínculos com a Companhia Holandesa das Índias Orientais. A outra (os kadmis, liderados por um certo Darab Kumana) mantinha laços com a Companhia Britânica das Índias Orientais e com comerciantes armênios. No relato de viagem, a cooperação de Darab com Anquetil-Duperron é atribuída à necessidade de garantir a proteção francesa. Parece que Darab (e outro sacerdote, um certo Kaus) tentou dar a Anquetil-Duperron uma educação semelhante à dada aos sacerdotes. Seu ensaio Exposition du système théologique alinha-se com os textos e fornece apenas vislumbres do que os parses realmente acreditavam na época. Anquetil-Duperron reclama do interesse dos sacerdotes pela lei e pelo ritual, em vez de pela filosofia ou teologia. Anquetil-Duperron ficou impaciente com os métodos metódicos dos sacerdotes e com sua incapacidade de obter manuscritos. Segundo seu relato de viagem, os sacerdotes também não desejavam ensinar-lhe avéstico e não esperavam que ele o dominasse suficientemente bem para traduzir seus textos. Ainda segundo Anquetil-Duperron, os sacerdotes estavam cometendo um grande sacrilégio ao familiarizá-lo com os textos e as aulas eram ministradas em persa para que o servo zoroastrista do sacerdote não soubesse o que estava acontecendo. A ansiedade de Kaus aumentou quando Anquetil-Duperron exigiu uma interpretação adequada e não apenas uma tradução. Através do persa, os dois sacerdotes lhe ensinaram o que sabiam do avéstico (o que não era muito) e de teologia zoroastriana (o que era ainda menos). Em junho de 1759, 16 meses após sua chegada a Surrate, ele enviou a Paris a notícia de que havia concluído (em três meses) uma tradução do “Vendidade”. No mesmo mês de junho, o sacerdote Darab providenciou para que Anquetil-Duperron participasse – disfarçado, mas armado com uma espada e uma pistola – de uma cerimônia em um templo de fogo “em troca de um pequeno presente e da esperança de passear pela cidade em meu palanquim”.apud Anquetil-Duperron também sugere que Darab tentou convertê-lo, mas que ele “corajosamente se recusou a vacilar”.apud Dois séculos depois, J. J. Modi explicaria que o convite de Anquetil-Duperron para entrar em um templo só seria possível se o fogo sagrado tivesse sido temporariamente removido porque o templo estava sendo reformado.cf. Por outro lado, Anquetil-Duperron afirma que lhe foi dado uma sudra e um kusti e que ele pode ter sido formalmente investido com eles, o que o teria tornado um zoroastrista na visão do sacerdote e, portanto, teria sido aceito em um templo em funcionamento.

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Abraham Hyacinthe Anquetil-Duperron | World in Stories