Abderramão ibne Moáuia ibne Hixame ibne Abedal Maleque ibne Maruane (Abd ar-Rahman ibn Mu'awiya ibn Hixam ibn Abd al-Malik ibn Marwan), melhor conhecido somente como Abderramão I ou Abdarramão I, (em árabe: عبد الرحمن; romaniz.: Abd ar-Raḥman/Abderrahman; Damasco, março de 731 – Córdova, 30 de setembro de 788) foi um membro da dinastia omíada, emir de Córdova entre 756 e 788 e fundador do Emirado de Córdova e de uma dinastia muçulmana que governou grande parte da Península Ibérica durante quase três séculos. Os muçulmanos chamaram à região da Península sob o seu domínio de Alandalus.
Ficou conhecido como "O Falcão de Coraixe". O estabelecimento de um governo no Alandalus por Abderramão (r. 756–788) representou uma ruptura do restante do Império Islâmico, que era governado pelos Abássidas. A situação interna do emirado não permitiu que Abderramão I dirigisse as habituais incursões militares aos territórios cristãos do norte. O seu reinado de trinta e dois anos transcorreu entre lutas internas para sufocar a resistência do emir anterior, Iúçufe Alfiri e dos seus filhos, dos partidários sírios, abássidas e berberes que viviam na Península.
Abderramão era neto de Hixame ibne Abedal Maleque, o décimo califa omíada e filho do general Moáuia ibne Hixame. Dizia-se que o jovem príncipe era alto e esbelto. Sua mãe pertencia ao povo berbere, da tribo de Nafza e dela ele herdou o cabelo ruivo. Características curiosas atribuídas a Abderramão são as de que ele não enxergava de um olho, tinha uma verruga no rosto e seu olfato não era muito apurado.
Quando o califa Maruane II foi derrotado e morto em 750 no Egito e instaurou-se a nova dinastia dos Abássidas, o jovem omíada tinha menos de vinte anos de idade. Foi um dos poucos membros da dinastia que conseguiu escapar do massacre de Abú Futrus. Abderramão e uma pequena parte de sua família fugiram de Damasco, que tinha sido até então o centro do poder omíada. Alguns desses membros de sua família eram: seu irmão Iáia, seu filho de quatro anos Solimão e algumas de suas irmãs. Também fugiu com Abderramão seu ex-escravo (um liberto) Bedr. A família seguiu ao longo do rio Eufrates em direção ao sul.
Todo o trajeto da fuga foi sempre acompanhado de muito perigo. Os abássidas haviam espalhado cavaleiros por toda a região na tentativa de encontrar e assassinar o príncipe omíada. Os abássidas eram impiedosos com todos os omíadas que eles encontravam. Quando estavam escondidos em uma pequena aldeia, os agentes abássidas cercaram Abderramão e sua família. Ele deixou seu jovem filho com suas irmãs e fugiu com Iáia. As narrativas variam, contudo ao que tudo indica Bedr também fugiu com eles. Algumas histórias relatam que Bedr acabou encontrando-se com Abderramão posteriormente a esta data. Abderramão, Iáia e Bedr conseguiram fugir da aldeia, escapando dos assassinos abássidas.
Mais tarde, no caminho para o sul, os cavaleiros abássidas alcançaram novamente o trio. Tentando desesperadamente salvarem-se, Abderramão e seus companheiros atiraram-se nas águas do rio Eufrates. Na tentativa de atravessar à nado as águas perigosas do rio, Abderramão acabou separando-se de seu irmão. Iáia retornou nadando em direção onde se encontravam os cavaleiros, provavelmente com medo de afogar-se. Os cavaleiros pediam para os fugitivos retornassem, e que nada de mau lhes aconteceria. O historiador do século XVII, Amade Maomé Almacari, comoventemente descreve a reação de Abderramão implorando para que seu irmão Iáia não retornasse: "Oh irmão! Venha para mim, venha para mim"! Iáia retornou para perto da margem do rio e foi logo capturado pelos cavaleiros. Eles cortaram-lhe a cabeça, e deixaram o corpo de Iáia para apodrecer. Almacari cita que antigos historiadores muçulmanos relatam que Abderramão ficou com tanto medo naquele momento, que assim que chegou à margem oposta ele correu até a exaustão.
Depois de escaparem da Síria apenas com a roupa do corpo, Abderramão e Bedre continuaram a fuga em direção ao sul passando pela Palestina, Sinai e Egito. Abderramão seguiu em direção ao noroeste da África, onde pretendia refugiar-se entre os berberes da Mauritânia da tribo Nafza de onde era originária sua mãe. Os muçulmanos referiam-se àquela parte do Império Islâmico de "Magrebe", ou o "oeste". Seus predecessores Omíadas haviam conquistado partes do Magrebe e da Ibéria e agora com a confusão generalizada que se estabeleceu no califado pela mudança da dinastia, aquela região havia ficado nas mãos das autoridades locais, antigos emires ou tenentes dos califas de omíadas, mas agora aspirando pela independência. A travessia do Egito provaria ser muito perigosa. Abderramão ibne Habibe Alfiri era o governador da África Oriental e tinha sido um antigo colaborador do Califado Omíada. Porém, com os Abássidas agora no controle ibne Habibe enviou espiões para procurarem pelo príncipe sobrevivente dos Omíadas. Com seu cabelo ruivo, Abderramão não seria difícil de ser identificado. Abderramão e Bedre ficaram no acampamento de um comandante berbere solidário com sua difícil situação. Um dia, os soldados de ibne Habibe entraram no acampamento procurando pelo fugitivo omíada. Tecfá, a esposa do comandante berbere escondeu Abderramão sob os seus pertences pessoais e conseguiu salvá-lo.
Demorou vários anos até que Abderramão conseguisse chegar ao oeste. Em 755, Abderramão e Bedre chegaram à região do atual Marrocos, perto de Ceuta. Foi provavelmente de lá que ele pela primeira vez avistou uma faixa estreita de terra: Alandalus, onde Abderramão não tinha a certeza se seria bem recebido ou não naquela longínqua província do império. Ele provavelmente enviou Bedre para a Ibéria com uma mensagem; uma mensagem na que ele proclamava-se o herdeiro verdadeiro omíada daquela terra. Alandalus havia sido conquistada no governo do avô de Abderramão. Um grande número de sírios vivia na província de Elvira, atual Granada e Abderramão esperava apelar por sua lealdade ao príncipe dos omíadas. Entretanto, a província encontrava-se em um estado de muita confusão causado pela fraca administração do emir de então, Iúçufe Alfiri.
A comunidade muçulmana estava abalada por lutas tribais entre os árabes e tensões raciais entre estes e berberes. Abderramão provavelmente viu então ali um local propício para recuperar seu poder, coisa que ele não havia encontrado na África. Bedr apressou-se em retornar à África. À convite de seguidores leais omíadas e dos iamanitas, inimigos do governador, Abderramão foi chamado para conhecer Alandalus. Logo após isto, Abderramão juntamente com Bedr e um pequeno grupo de seguidores começaram a prepara-se para seguirem para a Europa.
Quando alguns berberes locais souberam que Abderramão estava indo para Alandalus, eles apressaram-se para encontrá-lo na costa. Os berberes pretendiam fazê-lo refém e forçá-lo a pagar uma taxa para deixar a África. Ele realmente teve que pagar uma importância em dinares mediante a súbita hostilidade dos berberes locais. No mesmo instante em que Abderramão lançava ao mar o seu barco, outro grupo de berberes chegou, também com a intenção de fazer com que Abderramão pagasse uma taxa por partir. Um dos berberes agarrou o barco de Abderramão para impedi-lo de partir e teve a sua mão cortada por um membro da tripulação do barco. Abderramão desembarcou em Almuñécar no Alandalus, a leste de Málaga, em setembro de 755; contudo, o local do desembarque não é confirmado.
Abderramão foi saudado pelos comandantes locais ao desembarcar no Alandalus. Durante sua curta estadia em Málaga, Abderramão conseguiu rapidamente o apoio local. Caravanas de pessoas dirigiram-se para Málaga a fim de prestarem solidariedade ao príncipe omíada que eles pensavam estar morto. Uma das mais famosas histórias sobre o período em que Abderramão esteve em Málaga diz respeito ao presente que lhe foi ofertado. O presente foi uma bela jovem escrava, mas Abderramão humildemente a devolveu ao seu proprietário dizendo: "Eu não me entregarei a nenhuma distração, seja ela de visão ou de coração, até que a Espanha esteja sobre o meu controle". A notícia sobre a chegada do príncipe espalhou-se pela Península.