Abdelmalek Sayad (Beni Djellil, Argélia, 24 de novembro de 1933 – Dommartin, França, 13 de março de 1998) foi um sociólogo argelino dedicado ao estudo do fenômeno migratório de argelinos entre a Argélia e a França, durante e após o período da colonização francesa.
Apesar de ter trabalhado especificamente com a migração argelina, Sayad é considerado um dos principais teóricos dos estudos migratórios contemporâneos. Sua influência não se restringe à sociologia. Ela também se faz muito presente em áreas como antropologia, psicologia, geografia e direito, além da saúde. Sua produção intelectual ganhou destaque por estar engajada com a denúncia das contradições sociais vividas por migrantes tanto na sociedade de destino, quanto na de origem. Além disso, ficou conhecido nos estudos migratórios por se valer de técnicas de entrevistas que permitiam com que seus entrevistados desenvolvessem reflexões sobre o fenômeno migratório em si, bem como de suas próprias experiências. Isso lhe rendeu o apelido de “escrivão público”, dado por Pierre Bourdieu.
Começou sua carreira como professor primário em Argel. Em seguida, trabalhou como pesquisador vinculado à Association pour la Recherche Démographique, Économique et Sociale (ARDES) e, posteriormente, na École Pratique des Hautes Études (EPHE) e Centre National des Recherches Scientifiques (CNRS). Além disso, atuou em diversas associações políticas em defesa da causa migrante e contra a escalada de violência vivida na Argélia, durante a década de 1990.
Sayad deixou uma considerável produção científica através de artigos, livros, entrevistas e palestras. Seus livros mais conhecidos são A Imigração ou os Paradoxos da Alteridade, La double absence. Des illusions de l’émigré, que reúnem um importante conjunto de artigos publicados entre as décadas de 1970 e 1990. Nessas duas publicações, é possível compreender sua famosa definição do fenômeno migratório enquanto um fato social total. Em torno desse tema central, Sayad desenvolve reflexões sobre o estado, convenções internacionais, condições de trabalho, direito, saúde, família, diacronia e linguística. Além disso, explorou o tema em uma dimensão diacrônica.
Nasce como Malek Ath-Messaoud, em 24 de novembro de 1933. Contudo, foi registrado como Abdelmalek Sayad. Seu primeiro nome vem de um irmão que morreu dois anos antes de ele nascer. E seu sobrenome Sayad, por autoridade colonial e parental, substituiu seu nome "verdadeiro", o da tribo Ath-Messaoud. Sayad, portanto, nasceu na aldeia de Aguebala, na Pequena Cabília, região montanhosa e de difícil acesso. Aghbala era composta por clãs rivais e sua família era composta por lideranças locais em declínio político. Uma rivalidade que era alimentada pela longa ocupação francesa.
Seu bisavô materno, Abbas, na condição de cheikh (líder religioso e político) da tribo de At Djellil (tribo à qual Sayad e seus familiares também pertenciam), participou da Revolta Mokrani, em 1871, uma importante insurreição cabila contra as condições de vida paupérrimas, geradas pela metrópole, durante a passagem do Segundo Império para a Terceira República Francesa. Seu avô paterno, Mohand Oulhadj Sayad, foi um caïd do douar Ihadjadjen, cargo com funções intermediárias entre o regime colonial e a população colonizada. Foi, também, o responsável pela criação de, pelo menos, sete escolas locais. Seu primo mais próximo, Abdelaliz Sayad, em 1945, militou na seção local dos Les Amis du Manifeste et de la Liberté (AML), fundado por Ferhat Abbas, e, mais tarde, tornou-se presidente da seção regional de jovens da UDMA. Seu tio materno foi responsável pelo treinamento religioso de futuros líderes do Exército de Libertação Nacional (ALN) na região. Seu pai, Bashir, secretário de uma comunidade cabila, não poupou esforços em denunciar casos de corrupção, exploração trabalhista e desvio de recursos vitais de comunidades rurais, produzidos por lideranças locais aliadas com o regime colonial francês.
Sayad cresceu nessa atmosfera de insegurança e decadência política. E, em diversos momentos, de pobreza extrema, acerca da qual relata, inclusive, a falta de comida em casa. Único filho homem e irmão de quatro mulheres, o acesso à educação foi integralmente depositado sobre o próprio Sayad. Sua formação escolar ficou sujeita às mudanças constantes que a família teve que realizar, na medida em que seu pai buscava trabalho e fugia de ameaças.
A escolarização em uma escola francesa torna-se uma questão de honra para seu pai. A condição social de sua família obriga Sayad a estar entre os melhores alunos da turma, não só para seguir estudando, mas, também, para conquistar ascensão social em um sistema colonial marcado por profunda desigualdade social. É durante esse processo de alfabetização que Sayad relata ter descoberto sua condição dupla de dominado (de nativo em um país colonizado e, também, de alguém pertencente a uma classe social desprivilegiada). Essas são condições sociais que, somadas ao histórico político-social da família, viriam a ter um peso considerável em seu envolvimento precoce em movimentos anticoloniais.
Após completar os estudos primários, em 1945, Sayad é aprovado no concurso para iniciar seus estudos secundários em Bougie. Todavia, é acometido por pleurisia e, em seguida, por tuberculose. Isso o obriga a parar seus estudos durante dois anos. Em 1950-1951, o jovem estudante ingressa em uma célula do Partido Popular Argelino (PPA), onde eram discutidas as ideias apresentadas no jornal nacionalista L'Algerie libre, que estava sob apreensão preventiva desde agosto de 1949. Durante esse período, viria a aprender sobre o funcionamento burocrático das organizações militantes e receber forte inspiração de seu professor de árabe Mostefa Lacheraf, futuro líder da revolução argelina e ministro da Educação da Argélia, entre 1977 e 1979. Nessa fase, Sayad descobre escritores argelinos críticos ao sistema colonial francês e pensadores anti-imperialistas.
Com auxílio de seu primo, Abdelaliz Sayad, instala-se na capital argelina. Após estudar no Liceu de Boufarik, logo no início da guerra pela Independência argelina, Sayad ingressa com sucesso no prestigioso liceu École Normale d'Instituteurs de Bouzareah, no subúrbio de Argel. Com o objetivo de licenciar-se como professor escolar, ele estudará psicologia geral e infantil até 1956. Em seguida, obtém uma vaga nas aulas preparatórias do liceu francês Montaigne de Toulouse, para concorrer à vaga na Ecole Normale Supérieure de Saint-Cloud, na França. Porém, diante da greve geral para todos os estudantes do ensino médio e universitário na Argélia, comandada pelo Comitê Diretor da União Geral dos Estudantes Muçulmanos Argelinos (U.G.E.M.A.), Sayad regressa para a Argélia.
Durante esse período de formação, o jovem estudante mergulha na leitura de escritores anarquistas, sindicalistas revolucionários e militantes comunistas antistalinistas, caracterizados por um indissociável compromisso reflexivo e político ao lado do movimento operário. Torna-se, então, professor primário em Argel, em 1957. Filia-se à União Geral dos Trabalhadores Argelinos (UGTA) e participa da formação da Frente de Forças Socialistas (FFS).
Entre 1958 e 1961, Sayad cursa Filosofia e Psicologia, bem como Moral e Sociologia, na Universidade de Argel. A capital argelina encontra-se no final de um período sangrento conhecido como a Batalha de Argel (1954-1957). Nessa etapa, Sayad inicia uma ativa militância anticolonial. Acompanhou, com crescente interesse, os movimentos reivindicatórios pela independência argelina e adere ao movimento Liberal.
Como o próprio sociólogo reflete em suas entrevistas, a Universidade de Argel era um ambiente demasiado provinciano. Contava com um corpo docente com baixa formação acadêmica e comprometimento com a pesquisa empírica. Atrelado a isso, o público estudantil, diante do tenso clima vivido na capital argelina, dividia-se entre os “ultras” (estudantes que, através de organizações fascistas, apoiavam a Argélia Francesa), os moderados, apoiadores da FLN e os que foram classificados como “liberais” (estudantes defensores de uma ordem democrática e secular e, portanto, críticos aos nacionalistas da FLN e da “Argélia Francesa”, por ambos movimentos excluírem a convivência entre as diversas nacionalidades de europeus e mulçumanos). Sayad apoiava a luta pela independência argelina. Porém, se identificava com os liberais. Entendia esse como um movimento democrático, secular e com uma agenda progressista, voltada para os efetivos desafios vividos pela sociedade argelina, ao contrário dos outros dois movimentos.