Álvaro Barreirinhas Cunhal (Sé Nova, Coimbra, 10 de Novembro de 1913 – São Jorge de Arroios, Lisboa, 13 de Junho de 2005) foi um político e escritor português, conhecido por ter sido opositor do Estado Novo e ter dedicado a vida ao ideal comunista e ao Partido Comunista Português (PCP). É descrito como uma das maiores personalidades políticas e intelectuais de Portugal do século XX, assim como do movimento comunista internacional.
Álvaro Cunhal nasceu na Estrada da Beira, n.º 67, freguesia da Sé Nova, em Coimbra, a 10 de novembro de 1913, filho de Avelino da Costa Cunhal (Seia, Seia, 28 de outubro de 1887 — São Jorge de Arroios, Lisboa, 19 de fevereiro de 1966) e Mercedes Simões Barreirinhas (São Bartolomeu, Coimbra, 5 de maio de 1888 – Lisboa, 12 de setembro de 1971).
Era o terceiro de quatro irmãos: António José (Coimbra, 1909–1933), Maria Mansueta (1912–1921) e Maria Eugénia (1927–2015). A família mudou-se para Seia quando Cunhal tinha três anos. Aí, não frequenta a escola primária, dada a violência exercida pelos professores, e passa a estudar no próprio lar com o pai, que era advogado e escritor, e desde 1918 exercia o cargo de administrador do concelho."Em Seia fui o primeiro dia à escola e aquilo era um espetáculo de selvajaria, a darem violentas palmatoadas e reguadas aos miúdos. Naquela escola era assim a educação. E eu saí da escola e fui para casa, contei ao meu pai o que vira e assim não fui mais à escola."Cunhal foi batizado a 5 de maio de 1919 na igreja matriz de Seia; o padrinho de baptismo foi o seu irmão António José, de 10 anos, e a madrinha foi Nossa Senhora da Conceição.
Enquanto criança, acompanhava a mãe, que era católica praticante, todos os domingos à igreja. O pai, que tinha um pensamento liberal, esteve na origem da sua "personalidade irreverente e criativa". O pai denunciava depreciativamente os títulos feudais, algo que se veio a refletir nos seus contos. Por exemplo, numa das suas obras descreve a amizade entre um padre e um velho fidalgo a respeito do vício dos jogos de azar e da bebida. Eugénia Cunhal, não obstante a omnipresente rejeição deste mundo na vida política de Cunhal, falou da "abertura de espírito do pai" quando este "mostrava aos filhos o Antigo Testamento e apelava a que cada um formasse a sua própria consciência". O republicanismo do pai fomentou na personalidade de Cunhal um sentimento de "solidariedade social" e de "insubmissão política". Tanto Álvaro como Maria Eugénia Cunhal irão mais tarde rejeitar a religião.
A sua irmã Maria Mansueta morre a 13 de janeiro de 1921, aos nove anos, de tuberculose, e um ano depois Avelino Cunhal torna-se governador civil do distrito da Guarda. Em 1924, a família muda-se para Lisboa, inicialmente para a Rua Pinheiro Chagas, onde nasce Maria Eugénia em 1927. Mais tarde mudam para uma casa maior em Benfica, na Avenida Grão Vasco, quando António já está muito enfermo. A necessidade de mais espaço em razão da contagiosidade da tuberculose terá sido um catalisador para a mudança de casa. António José morreria ao 24 anos, em 1932, de tuberculose e gangrena pulmonar. Após a morte do irmão, a família muda-se de novo para o centro de Lisboa, primeiro para a Avenida 5 de Outubro, e depois para a Avenida Miguel Bombarda, local onde Avelino e Eugénia seriam anos mais tarde presos pela PIDE.
Após mudar-se para Lisboa em 1924, fez o exame de admissão ao Liceu Pedro Nunes. Em 1929, transferiu-se para o Liceu Camões. Jogava futebol como ponta-direita, xadrez, damas, cartas, e praticava atletismo, além de tomar parte da publicação de livros infantis. A prática do atletismo viria ser-lhe útil na clandestinidade, dadas as longas distâncias que teria de percorrer de bicicleta para falar com pessoas do partido.
Acabou o liceu com uma média de 13 valores, e entrou na Universidade de Lisboa, no curso de Direito em 1931, pouco depois de fazer dezoito anos. Aqui tem o primeiro contacto com o Marxismo, e um contacto paulatino com o Partido Comunista Português (PCP), através de livros e jornais. No PCP, teve como principal referência política e mentor Bento Gonçalves.
Cunhal declara-se comunista aos dezassete anos, e contacta o PCP através das organizações periféricas por volta de 1931. A sua entrada formal no Partido deu-se nos finais de 1932, através da ala jovem do PCP recentemente criada — a Federação das Juventudes Comunistas Portuguesas (FJCP) — ao qual chegou a secretário-geral em 1935, com 21 anos, utilizando o pseudónimo Daniel. Envolveu-se também numa intensa atividade em outros organismos e organizações periféricas do Partido, como o Socorro Vermelho Internacional, a Liga Portuguesa contra a Guerra e o Fascismo, os Grupos de Defesa Académica, a Liga dos Amigos da União Soviética e por fim a Federação das Juventudes Comunistas, através da qual seria convidado a filiar-se no PCP em outubro de 1934. "A minha opção já estava feita e quando entrei na Faculdade [de Direito] procurei os comunistas para me filiar no Partido. As leituras começaram a trazer-me notícia da Revolução Russa, da luta dos comunistas e do marxismo, comecei a ter uns livros à mão a esse respeito, um pai muito respeitador, homem de espírito aberto e democrático, e portanto foi fácil"Ao longo da década de 1930, colabora com vários jornais e revistas como a Seara Nova, o O Diabo, Vértice e Sol Nascente, e nas publicações clandestinas do PCP, o Avante! e O Militante, com vários artigos de intervenção.
Em 1934 é eleito pelo núcleo comunista presente, representante dos estudantes no Senado da Universidade de Lisboa. Em 1935, com 22 anos, viaja clandestinamente para Moscovo, União Soviética (URSS), no âmbito do Congresso Internacional das Juventudes Comunistas e, no ano seguinte, participa dos primeiros cinco meses da Guerra Civil Espanhola ao lado dos comunistas espanhóis.
Álvaro Cunhal adquiriu uma influência crescente no PCP após a prisão de Bento Gonçalves, José de Sousa e Júlio Fogaça, em 1935, e a ascensão à liderança temporária de Francisco de Paula Oliveira, de pseudónimo Pável. A sua vida na universidade passou a ter uma essência política, passando a aluno voluntário na sequência da reprovação do primeiro ano universitário. As ações do PCP levaram Cunhal a sofrer um perigo constante e sempre presente, havendo o perigo de ser denunciado à polícia política, de ter a sua casa assaltada, de ser preso e torturado, e também para a sua família — os pais e a irmã. O fortalecimento da ligação ao comunismo fez com que o receio destes perigos aumentasse, mas nunca fez com que as suas atividades revolucionárias parassem. Assim, os contactos com a família tornam-se menos frequentes. Em 1936, após a visita à URSS, é indicado pelo PCUS para o Comité Central do PCP.
Devido aos seus ideais comunistas, à sua assumida e militante oposição ao Estado Novo e à acção violenta perpetrada por movimentos afectos ao partido, esteve preso entre junho de 1937 e julho de 1938, entre maio e novembro de 1940 e entre março de 1949 e janeiro de 1960, num total de 15 anos, oito dos quais em completo isolamento.
Foi preso pela PVDE pela primeira vez em junho de 1937, numa armadilha de um provocador infiltrado, quando estava a difundir em Lisboa panfletos pró-URSS. Passa dois meses na Prisão de Aljube, incomunicável, e aí é sujeito a tortura. A mãe visitou-o enquanto estava na prisão, e, como Cunhal tinha sido espancado, levou as suas roupas, todas ensaguentadas, para lavar. Transferido para Peniche, é libertado em 1938 e obrigado a cumprir o serviço militar na Companhia Disciplinar de Penamacor. Aí entra em greve de fome por duas semanas, e é em seguida enviado para o Hospital de Coimbra.
Em 1940, a cumprir pena de prisão pela segunda vez, Cunhal é escoltado pela polícia à Faculdade de Direito de Lisboa, onde apresenta a sua tese da licenciatura em Direito, preparada e concluída na cadeia, sobre a temática do aborto e a sua despenalização, tema pouco vulgar para a época em questão. A sua tese, apesar do contexto político pouco favorável, foi classificada com 16 valores. Do júri faziam parte Paulo Cunha, Manuel Cavaleiro de Ferreira e Marcello Caetano. Depois de solto, em 1941, trabalha como regente de estudos no Colégio Moderno, a convite de João Lopes Soares; em dezembro desse ano entra de novo na clandestinidade, sob o pseudónimo Duarte e assume informalmente a liderança do partido em 1942, com José Gregório.