Zinédine Zidane é uma das figuras mais emblemáticas do futebol mundial, um nome que transcende gerações e fronteiras. Nascido em Marselha, em 1972, filho de imigrantes argelinos, ele carregava em seu DNA a resiliência de quem precisou batalhar para conquistar espaço em um esporte dominado por estruturas tradicionais. Atuando como meio-campista, Zidane se tornou um dos maiores "maestros" do futebol, um jogador que não precisava marcar gols para ser decisivo, mas que ditava o ritmo das partidas com passes milimétricos, controle de bola e uma visão de jogo que poucos conseguiram igualar. Sua trajetória, dividida entre a glória como jogador e a admiração como treinador, transformou-o em um símbolo de excelência técnica e inteligência tática.
O início de sua carreira foi marcado por dificuldades e oportunidades inesperadas. Antes de sequer sonhar com um contrato profissional, Zidane treinava em times amadores do sul da França, como o Victório Mello e o Septèmes-les-Vallons. Seu talento, no entanto, chamou a atenção do Cannes, onde chegou para um estágio de seis semanas e nunca mais saiu. Estreou como profissional em 1989, mas foi somente em 1991 que marcou seu primeiro gol, um feito que lhe rendeu até um carro como prêmio. Mesmo com a má fama de não brilhar em momentos decisivos no Cannes — e com a equipe sendo rebaixada em 1992 —, seu potencial já era inegável. O Bordeaux, então, apostou nele, pagando sete milhões de euros pelo seu passe, um valor considerável para a época, e foi lá que Zidane deu os primeiros passos rumo ao estrelato.
Foi no Bordeaux que Zidane conquistou seu primeiro título profissional, a Copa Intertolo da UEFA, mas foi na Copa da UEFA de 1996 que ele realmente chamou a atenção do mundo. O clube, que não vivia seu auge, chegou à decisão do torneio e enfrentou times poderosos, como o Milan, até então campeão europeu. Embora tenham perdido para o Bayern de Munique na final, a campanha foi suficiente para projetar Zidane como um dos meio-campistas mais promissores da Europa. Curiosamente, antes de sua transferência para a Juventus, dois dos maiores treinadores da época, Alex Ferguson e Ray Harford, demonstraram interesse nele. Ferguson, do Manchester United, chegou a cogitar sua contratação quando Zidane ainda era jovem no Bordeaux, mas hesitou por dúvidas sobre sua adaptação ao futebol inglês. Já Harford, do Blackburn Rovers, não conseguiu convencer seu presidente, que preferiu dispensá-lo em favor de um jogador local, Tim Sherwood. Esses "quase" contratos mostram como o futebol, às vezes, pode ser imprevisível.
A Juventus foi o palco onde Zidane consolidou seu nome entre os melhores do mundo. Chegou ao clube bianconero, que acabara de vencer a Liga dos Campeões, em um momento em que as comparações com Michel Platini — ídolo francês que brilhou na Juve décadas antes — eram inevitáveis. Porém, Zidane não demorou a provar seu valor. Seu primeiro título na equipe foi a Copa Intercontinental de 1996, uma vitória que teve um significado especial: ele enfrentou o River Plate e, no processo, teve a chance de jogar contra seu ídolo, Enzo Francescoli, um uruguaio que havia defendido o Olympique de Marseille anos antes. A admiração era tanta que Zidane batizou seu filho com o nome do craque sul-americano e chegou a dormir usando a camisa do River Plate, um detalhe que revela sua personalidade humilde e apaixonada.
Na Juventus, Zidane se tornou peça fundamental em um time repleto de estrelas, como Alessandro Del Piero, Filippo Inzaghi e Edgar Davids. Com Marcello Lippi no comando, a equipe viveu uma era de ouro, conquistando títulos como a Serie A e chegando a mais uma final da Liga dos Campeões. Embora não tenha levantado a taça continental pela Juve, seu desempenho o levou de volta à Seleção Francesa, onde se tornaria um dos líderes da equipe que mudaria a história do futebol francês. Antes de 1998, a França era vista como uma seleção mediana, sem grandes conquistas. Tudo mudou com a chegada de jogadores como Zidane, Thierry Henry e Patrick Vieira, que formaram o núcleo de uma equipe que não só ganhou a Copa do Mundo daquele ano, como também a Eurocopa de 2000, repetindo o feito de Platini em 1984.
A final da Copa do Mundo de 1998 contra o Brasil é um dos momentos mais icônicos da carreira de Zidane. Ele não era um goleador nato, mas marcou dois gols de cabeça em cobranças de falta, selando a vitória por 3 a 0. Aquele feito não apenas coroou a França como campeã do mundo pela primeira vez, mas também transformou Zidane em um herói nacional. A comemoração, com ele ajoelhado no gramado, simbolizou a ascensão de uma nação que, até então, não tinha tradição no futebol. A comparação com a Queda da Bastilha, feita por muitos, não era exagerada: assim como a revolução francesa mudou o país, Zidane e seus companheiros revolucionaram o esporte no país.
Sua carreira também foi marcada por momentos de controvérsia, como a final da Copa do Mundo de 2006, quando ele foi expulso por dar uma cabeçada em Marco Materazzi. Apesar do final trágico, aquele torneio consolidou ainda mais seu status de lenda. Zidane foi um dos poucos jogadores a marcar gols em duas finais de Copas do Mundo, ao lado de nomes como Pelé e Mbappé. Além disso, seus três prêmios de Melhor Jogador do Mundo pela FIFA — empatado com Ronaldo como os segundos mais laureados — atestam sua consistência e influência no jogo. Sua habilidade em momentos decisivos, combinada com sua elegância em campo, fez com que revistas como a World Soccer e a UEFA o colocassem entre os maiores jogadores de todos os tempos.
Após pendurar as chuteiras em 2006, Zidane não se afastou do futebol. Como treinador, assumiu o Real Madrid em 2016 e, em um feito histórico, levou a equipe a três títulos consecutivos da Liga dos Campeões, algo que não acontecia desde a década de 1970. Seu estilo de comando, discreto mas eficiente, e sua capacidade de extrair o melhor de jogadores como Cristiano Ronaldo e Sergio Ramos, mostraram que ele tinha o mesmo brilho fora dos gramados. Mesmo sem clube atualmente, sua influência no esporte permanece intacta, e seu legado como um dos maiores meio-campistas da história está assegurado.
Fora dos campos, Zidane se tornou um embaixador da ONU na luta contra a fome, usando sua imagem para causas sociais. Sua trajetória, que começou nas ruas de Marselha e o levou aos palcos mais importantes do futebol mundial, é um testemunho de que o talento, aliado à determinação e à humildade, pode transformar não apenas carreiras, mas também realidades. Hoje, Zidane é mais do que um ex-jogador ou treinador: é um símbolo de como o esporte pode ser uma ferramenta de mudança, tanto dentro quanto fora de campo.

