civilizacoes perdidas

Suméria

Civilização antiga e região histórica no sul da Mesopotâmia

4 min de leitura01/01/2024
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Na planície aluvial entre o Tigre e o Eufrates, no que hoje é o sul do Iraque, floresceu entre aproximadamente 3.300 e 1.200 antes da era cristã a civilização mais antiga que o mundo conhece. A Suméria, cujo nome em acádio deriva da palavra que designava seus habitantes, chamava a si mesma de Kengir, "Terra dos nobres senhores". Seus filhos desenvolveram a escrita, construíram as primeiras cidades, inventaram a roda como ferramenta de olaria e de transporte, codificaram as primeiras leis e deixaram os mais antigos textos literários da humanidade. Compreender a Suméria é compreender as fundações sobre as quais toda a civilização ocidental e próximo-oriental foi erguida.

Os primeiros sinais de ocupação permanente na região remontam a cerca de 5.500 antes da era cristã, quando grupos humanos que os historiadores chamam de ubaidianos se instalaram na planície alagadiça entre os dois rios. Esses povos drenaram os pântanos, desenvolveram sistemas de irrigação, cultivaram cereais em abundância, estabeleceram manufaturas de tecelagem, trabalho em couro, metalurgia e cerâmica, e criaram as bases de uma sociedade complexa antes mesmo de qualquer escrita ou registro histórico. O excedente agrícola que a irrigação permitia foi o motor fundamental que viabilizou a especialização profissional e o surgimento das cidades.

Por volta de 4.100 antes da era cristã, o Período de Uruque marcou a primeira grande explosão urbana da história. A cidade de Uruque, com seus monumentais templos de tijolo cru e complexos administrativos, tornou-se provavelmente o maior centro humano do mundo naquela época. Foi ali que os primeiros textos em protoescrita surgiram, por volta de 3.300 antes da era cristã, como instrumentos de controle de estoques e transações comerciais. A necessidade de registrar e transmitir informações para além da memória individual impulsionou a invenção de um sistema que, ao longo de séculos, evoluiria para a escrita cuneiforme plenamente desenvolvida.

A escrita cuneiforme, gravada em tábuas de argila com um estilete de ponta triangular, é um dos maiores legados da Suméria. Começando como pictogramas, os símbolos foram gradualmente simplificados em marcas em cunha que representavam sílabas e conceitos abstratos. Com esse sistema, os sumérios registraram inventários, contratos comerciais, mitos, poemas, encantamentos, receitas médicas e listagens de reis. O mais famoso texto literário sumério é a Epopeia de Gilgamesh, a história de um rei semilendário de Uruque que buscou a imortalidade e registrou nas tábuas um dilúvio universal de surpreendente semelhança com a narrativa bíblica de Noé.

Durante o Período Dinástico Arcaico, de aproximadamente 2.900 a 2.334 antes da era cristã, a Suméria era formada por um conjunto de cidades-estado independentes que competiam entre si: Uruque, Ur, Lagash, Nippur, Kish e Eridu, entre outras. Cada cidade era governada por um rei ou um conselho sacerdotal e tinha seu próprio deus protetor, seu templo principal chamado zigurate e sua economia agrária irrigada. As guerras entre cidades eram frequentes, mas também havia períodos de hegemonia compartilhada e de intercâmbio cultural intenso. Nippur, por exemplo, mantinha um estatuto sagrado reconhecido por todas as cidades, funcionando como centro religioso e cultural comum.

Por volta de 2.270 antes da era cristã, o rei Sargão de Acade, falante de uma língua semítica chamada acádio, conquistou as cidades sumérias e fundou o Império Acadiano, o primeiro grande império da história. A língua suméria, porém, não desapareceu; foi preservada como língua sagrada e administrativa, usada em textos religiosos e rituais ainda por séculos. A simbiose entre sumérios e acádios, com empréstimos lexicais massivos e convergência gramatical entre as duas línguas, é descrita pelos especialistas como um sprachbund, um fenômeno linguístico de fusão cultural profunda.

A Terceira Dinastia de Ur, que governou de aproximadamente 2.119 a 2.004 antes da era cristã, representou o último grande ressurgimento de um governo sumério nativo. Os reis de Ur, chamados de reis-deus, construíram enormes zigurates, como o grande zigurate de Ur dedicado ao deus-lua Nanna, uma das estruturas mais bem preservadas da Mesopotâmia. Esse período é também notável pela codificação de leis escritas, precursoras do famoso Código de Hamurabi babilônico, e pela organização burocrática mais sistemática que o mundo antigo havia visto até então.

O declínio definitivo da Suméria como civilização distinta ocorreu com as invasões dos amorreus e dos elamitas por volta de 2.004 antes da era cristã, que destruíram Ur e varreram as últimas dinastias de língua suméria. A língua foi desaparecendo como língua viva ao longo do segundo milênio, substituída pelo acádio e, mais tarde, pelo aramaico, mas sobreviveu nas escolas de escribas e nos rituais religiosos por mais de mil anos. A cidade de Eridu, na costa do então Golfo Pérsico, considerada pelos próprios sumérios como a mais antiga de todas as cidades, foi indicada por estudiosos modernos como o ponto onde três culturas se encontraram e se fundiram: camponeses irrigadores, pastores nômades e pescadores ribeirinhos.

O legado sumério permeia toda a civilização humana subsequente: a divisão do tempo em 60 minutos e 360 graus, os fundamentos da astronomia e da matemática, as primeiras noções de direito escrito, a arquitetura monumental, o comércio de longa distância organizado, a urbanização planejada. Tudo isso foi inaugurado, ou ao menos desenvolvido de forma sistemática, nas cidades da planície mesopotâmica há mais de cinco mil anos. A Suméria não é apenas o berço de uma civilização; é o berço das ferramentas intelectuais que tornaram a civilização possível.

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