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Sudão

País de África

7 min de leitura01/01/2024
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O Sudão é uma das nações mais antigas do mundo em termos de ocupação humana contínua e organização política. Situado no nordeste da África, o país faz fronteira com nada menos do que sete nações, além de ter acesso ao Mar Vermelho a leste. Com área de quase 1,9 milhão de quilômetros quadrados, é o terceiro maior país do continente africano, e sua capital, Cartum, está estrategicamente localizada na confluência dos rios Nilo Azul e Nilo Branco, uma posição que já moldou impérios e civilizações ao longo de milênios.

As raízes históricas do Sudão são mais profundas do que muitos imaginam. O sítio arqueológico de Affad 23, na região sul do Alcance de Dongola, abriga vestígios de acampamentos pré-históricos e locais de caça e coleta com cerca de 50 000 anos. Até o oitavo milênio antes de Cristo, populações neolíticas já viviam em vilas fortificadas de tijolo de barro, praticando caça, pesca e agricultura incipiente às margens do Nilo. A guerra de Jebel Sahaba, ocorrida por volta de 11 500 a.C., é considerada por muitos pesquisadores o conflito armado mais antigo documentado na história da humanidade.

O Reino de Kerma, florescido entre 2 500 e 1 500 a.C. na Alta Núbia, foi uma das primeiras grandes civilizações do vale do Nilo, contemporânea e rivale das antigas dinastias egípcias. A cultura Kerma desenvolveu arte, arquitetura funerária e organização social sofisticadas, com influências que se estenderam tanto ao norte quanto ao sul. Posteriormente, o Império Novo Egípcio dominou a região por cerca de quatro séculos, seguido pelo florescimento do Reino de Cuxe, que chegou a dominar o próprio Egito no século VIII antes de Cristo e perdurou até o século IV da era comum.

Após a queda de Cuxe, os núbios formaram três reinos cristãos: Nobácia, Macúria e Alódia, que mantiveram a fé cristã e a organização política por séculos, mesmo cercados por um mundo cada vez mais islâmico. A islamização gradual da região intensificou-se entre os séculos XIV e XV, com a chegada de nômades árabes. Do século XVI ao XIX, o sultanato de Funj controlou o centro e o leste do país, enquanto o Darfur dominava o oeste e os otomanos ocupavam o leste. A conquista egípcia sob a dinastia de Maomé Ali, no século XIX, unificou o território sob um único poder.

O final do século XIX trouxe novos turbilhões. A Revolta Mahdista mobilizou um fervor religioso-nacionalista que desafiou o domínio egípcio e britânico, mas as forças mahdistas foram eventualmente derrotadas por uma expedição militar conjunta egípcio-britânica liderada por Lord Kitchener, na Batalha de Omdurman em 1898. Em 1899, sob pressão britânica, o Egito concordou em compartilhar a soberania sobre o Sudão num condomínio formal. Na prática, o país era administrado como possessão britânica, com os egípcios desempenhando papel simbólico.

A Revolução Egípcia de 1952, que derrubou a monarquia e levou ao poder os Oficiais Livres liderados por Muhammad Naguib e Gamal Abdel Nasser, mudou o cenário radicalmente. Naguib, meio-sudanês e criado no Sudão, fez da independência sudanesa uma prioridade pessoal e política. Em primeiro de janeiro de 1956, o Sudão tornou-se um estado independente, o primeiro da região a alcançar a soberania no pós-guerra. A data marcava o início de uma história independente que seria marcada por ciclos recorrentes de conflito, autoritarismo e crise humanitária.

A independência trouxe consigo tensões que remontavam ao período colonial. O abismo entre o norte islâmico, sede do poder central, e as populações animistas e cristãs do sul gerou a primeira guerra civil sudanesa, entre 1955 e 1972. Um acordo temporário de paz foi alcançado, mas a instabilidade persistiu. O regime de Gaafar Nimeiry introduziu a lei islâmica da Sharia em 1983, reacendendo o conflito. Uma segunda guerra civil devastou o país por décadas, envolvendo as forças governamentais, influenciadas pela Frente Islâmica Nacional, e os rebeldes do Exército de Libertação do Povo do Sudão, ligado ao sul.

Entre 1989 e 2019, o general Omar al-Bashir governou o Sudão com mão de ferro. Seu regime foi responsável por violações sistemáticas dos direitos humanos, incluindo torturas, perseguição de minorias étnicas e religiosas, e suspeitas de apoio ao terrorismo internacional. O genocídio no Darfur, entre 2003 e 2020, durante o qual estimativas apontam entre 300 000 e 400 000 mortos, levou Bashir a ser indiciado pelo Tribunal Penal Internacional por crimes de guerra e crimes contra a humanidade. A independência do Sudão do Sul, aprovada por referendo e proclamada em 2011, foi o desfecho do longo conflito norte-sul e resultou na perda de importante parte do território e da produção petrolífera sudanesa.

Protestos populares que explodiram em 2018 exigindo a saída de Bashir culminaram num golpe de Estado em 11 de abril de 2019. O general foi deposto, preso e submetido a julgamentos no próprio país. O período de transição que se seguiu foi instável, marcado por negociações entre militares e forças civis e pela promessa de uma democratização que se revelou difícil de concretizar. Em 2023, o Sudão mergulhou numa terceira guerra civil, desta vez entre as Forças Armadas do Sudão e os paramilitares das Forças de Apoio Rápido, desencadeando uma das maiores crises humanitárias do mundo contemporâneo.

A lei islâmica da Sharia, vigente desde 1983, foi formalmente abolida em 2020, quando o Sudão declarou-se um Estado laico, numa das reformas mais simbólicas do período de transição pós-Bashir. No entanto, o país permanece entre os mais pobres do mundo, ocupando a 170ª posição no Índice de Desenvolvimento Humano em 2024. Mais de 60% da população vive na pobreza, e a economia depende fortemente da agricultura, prejudicada por décadas de sanções internacionais, isolamento diplomático e instabilidade interna.

O nome Sudão deriva do árabe bilād as-sūdān, que significa "a terra dos negros", denominação que os árabes medievais davam à vasta região do Sahel subsaariano. Antes disso, o território era conhecido como Núbia pelos egípcios antigos, que o nomeavam também em homenagem aos arqueiros núbios. Esse acúmulo de nomes e denominações reflete a riqueza e a complexidade de uma história que atravessa cinco milênios, tornando o Sudão uma das regiões de mais intensa sedimentação histórica do continente africano, ainda que sua tradução em prosperidade e paz para seus 51 milhões de habitantes permaneça como um objetivo distante.

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