João Francisco dos Santos, mais conhecido como Madame Satã, nasceu no interior de Pernambuco em 1900, mas sua data exata é um mistério. Filho de Manuel Francisco dos Santos e Firmina Teresa da Conceição, ambos descendentes de africanos escravizados, João cresceu sob as penúrias das condições sociais do tempo. Apesar dos desafios iniciais, a família vivia momentaneamente bem até 1907, quando o pai faleceu e deixou os irmãos em situação precária.
Em meio à adversidade, Firmina Teresa decidiu trocar João por uma égua, um episódio marcado pela desumanização das relações sociais da época. O menino foi colocado para trabalhar como semiescra-vido na fazenda de Laureano, um negociante que prometeu educação e estudo a João. No entanto, os anos em que João viveu naquela casa foram brutais e marcaram o início de uma trajetória de resistência e coragem que se tornaria lendária.
Em 1908, fugindo do trabalho forçado, João encontrou refúgio com a senhora Dona Felicidade em Itabaiana, na Paraíba. Aí começou sua jornada para o Rio de Janeiro, onde Dona Felicidade estabeleceu um negócio chamado Hotel Itabaiano. Como uma forma de sobrevivência, João trabalhou na pensão quase como escravo antes de escapar definitivamente para a Lapa em 1913.
Na Lapa, o jovem João Francisco passou por uma série de experiências que moldariam seu futuro. Ele aprendeu vários ofícios: segurança, garçom e cozinheiro. Além disso, foi introduzido ao mundo da malandragem pelo famoso Sete Coroas, um cafetão respeitado na Lapa. O jovem João, conhecido inicialmente como Caranguejo da Praia das Virtudes, ganhou destaque local e tornou-se um criminoso notório.
Em 1928, ocorreu o episódio que daria a João Francisco seu apelido eterno: Madame Satã. Numa noite em um boteco, ele entrou em conflito com um guarda noturno e acabou em prisão por porte ilegal de arma. O delegado, ao perceber a atitude audaciosa do jovem, decidiu chamar João Francisco de Madame Satã, apelido que se tornaria famoso.
Madame Satã era assumidamente homossexual, mas isso não impediu que ele se casasse aos 34 anos com Maria Faissal. Juntos, criaram e educaram seis filhos. Sua vida foi marcada por uma intensa atividade criminal, com mais de trinta processos ao longo dos anos.
Entre os muitos desafios enfrentados por Madame Satã, seu papel no carnaval de 1938 foi um momento crucial. Ele se destacou naquele ano e passou a ser conhecido nacionalmente como o vencedor do concurso de fantasia. No entanto, sua vida continuou repleta de conflitos e prisões.
Nos anos seguintes, Madame Satã manteve-se ativo no mundo da arte e da criminalidade, até que em 1976 foi encontrado internado em um hospital em Angra dos Reis. Dois meses depois, o transformista morreu aos 76 anos devido a um câncer pulmonar, deixando uma legado único na história do Rio de Janeiro e das artes cênicas brasileiras.
Madame Satã é lembrada não apenas pela sua vida cheia de conflitos, mas também pelo seu talento como transformista. Seu papel no carnaval de 1938 foi um marco na história da festa em São João. Sua trajetória demonstra a complexidade da sociedade carioca e a resiliência humana diante das circunstâncias adversas.