Lionel Mpasi-Nzau é um dos nomes que têm ganhado destaque no futebol africano nos últimos anos, não apenas por suas atuações em campo, mas também pela trajetória singular que mistura raízes francesas e congolesas. Nascido em Meaux, na região parisiense, em 1994, o goleiro representa uma geração de atletas que navegam entre duas identidades culturais, escolhendo qual bandeira defender quando a oportunidade surge. Sua história reflete os dilemas e as possibilidades de jogadores com dupla nacionalidade, especialmente em um continente onde o futebol é mais do que esporte — é paixão, orgulho e, por vezes, uma ferramenta de afirmação política e social.
A carreira de Mpasi começou nos gramados modestos do US Torcy, clube amador da periferia de Paris, onde deu os primeiros passos no futebol. Sua habilidade sob os postes logo chamou a atenção do Paris Saint-Germain, um dos maiores clubes do mundo, que o integrou às suas categorias de base. Embora tenha passado pelo time B do PSG em 2011, sua trajetória no futebol francês foi marcada por idas e vindas entre equipes menores, como o Toulouse, onde atuou na reserva por quatro anos. Foi apenas em 2016, quando se transferiu para o Rodez, que Mpasi encontrou estabilidade e começou a se destacar. Sua estreia como profissional, em 2020, na Ligue 2, marcou o início de uma nova fase, na qual o goleiro passou a ser visto como uma promessa em ascensão.
O Rodez se tornou um ponto de virada na carreira de Mpasi. Em 2017, o clube conquistou o Championnat National 2, a quarta divisão francesa, e dois anos depois repetiu o feito na terceira divisão, garantindo acesso à Ligue 2. Esses títulos não apenas consolidaram o time como uma força emergente no futebol francês, mas também deram a Mpasi a oportunidade de mostrar seu talento em um nível mais competitivo. Sua presença no gol foi fundamental para as campanhas vitoriosas, e seu desempenho chamou a atenção de observadores internacionais, incluindo os responsáveis pela seleção da República Democrática do Congo.
A escolha de representar a RD Congo, em vez da França, foi um momento decisivo na carreira de Mpasi. Nascido em solo francês e com cidadania local desde a infância, ele chegou a defender as seleções de base da França entre 2010 e 2011. No entanto, em 2021, optou por vestir a camisa dos Leopardos, a seleção congolesa, após um convite pessoal do atacante Cédric Bakambu, outro jogador de origem congolesa que havia tomado decisão semelhante anos antes. A mudança não foi apenas esportiva, mas simbólica: Mpasi passou a representar um país com o qual tinha laços familiares, mas que conhecia principalmente através das histórias de seus parentes. Sua estreia, em um amistoso contra o Bahrein em 2022, foi o primeiro passo de uma jornada que o levaria a um dos palcos mais importantes do futebol africano.
A Copa das Nações Africanas de 2023, realizada na Costa do Marfim, foi o cenário onde Mpasi se tornou conhecido para além das fronteiras do continente. Como titular da seleção congolesa, ele foi peça-chave em uma campanha surpreendente, que viu os Leopardos chegarem às semifinais do torneio. Em seis partidas, Mpasi demonstrou reflexos rápidos, segurança nas saídas e uma capacidade notável de liderar a defesa, mesmo diante de adversários de alto nível. A eliminação para a anfitriã Costa do Marfim, em um jogo decidido por um gol acidental de Sébastien Haller — uma bola mal rebatida que enganou o goleiro —, não ofuscou seu desempenho. Pelo contrário, a partida serviu para mostrar a resiliência de Mpasi e de sua equipe, que lutou até o fim em um torneio marcado por surpresas e emoções.
Além dos gramados, Mpasi também enfrentou desafios extracampo que revelam as dificuldades de ser um atleta negro no futebol europeu. Em 2021, durante uma partida pelo Rodez contra o Toulouse, sua antiga equipe, ele foi alvo de ofensas racistas por parte de torcedores. O episódio resultou em uma punição inédita para o clube francês: a perda de um ponto na tabela. O caso ganhou repercussão na mídia e reacendeu o debate sobre o racismo no esporte, mostrando como jogadores como Mpasi precisam lidar não apenas com a pressão das partidas, mas também com o preconceito enraizado em alguns setores da torcida. Sua reação, mantendo o foco no jogo e superando as adversidades, reforçou sua imagem como um profissional maduro e determinado.
Atualmente, Mpasi defende o Le Havre, clube tradicional da Ligue 1, a primeira divisão francesa. Sua transferência para o time normando, em 2023, representou um novo desafio em sua carreira, colocando-o novamente no centro das atenções do futebol europeu. No Le Havre, ele tem a oportunidade de mostrar seu talento em um nível ainda mais competitivo, ao lado de jogadores experientes e sob o comando de técnicos exigentes. Sua trajetória até aqui, porém, já é suficiente para inspirar jovens atletas, especialmente aqueles que, como ele, cresceram entre duas culturas e precisam fazer escolhas que definirão suas identidades dentro e fora de campo.
A história de Lionel Mpasi é um exemplo de como o futebol pode ser um espaço de reinvenção e pertencimento. Para muitos jogadores com origens africanas na Europa, a decisão de representar uma seleção do continente não é apenas esportiva, mas também uma forma de reconectar-se com suas raízes. No caso de Mpasi, a escolha pela RD Congo foi além: significou abraçar uma herança familiar e contribuir para o crescimento de uma seleção que, apesar de talentosa, ainda luta para se firmar como potência no futebol africano. Sua presença na Copa das Nações Africanas ajudou a colocar os Leopardos no mapa do esporte mundial, mostrando que, mesmo sem os holofotes dos grandes centros, há talento e paixão em abundância.
O futuro de Mpasi reserva ainda muitas páginas a serem escritas. Aos 30 anos, ele está em um momento crucial de sua carreira, equilibrando experiência e ambição. Se continuar a evoluir, pode se tornar um dos principais goleiros do continente, servindo de referência para uma nova geração de jogadores congoleses e africanos. Além disso, sua trajetória levanta questões importantes sobre representatividade, identidade e as barreiras que atletas de origem africana ainda enfrentam no futebol europeu. Independentemente do que vier pela frente, uma coisa é certa: Lionel Mpasi já deixou sua marca, não apenas como goleiro, mas como um símbolo de resiliência e orgulho para aqueles que, como ele, carregam mais de um país no coração.