Isabel Teresa de Lorena viveu por oitenta e três anos — tempo suficiente para testemunhar a ascensão e o ocaso de Luís XIV, a complexidade da corte de Versalhes e o lento enfraquecimento da aristocracia francesa que viria a se tornar fatal no século seguinte. Nascida em 5 de abril de 1664, ela pertencia ao ramo cadete da Casa de Guise, uma das mais antigas e distintas linhagens da nobreza francesa.
A família de Isabel Teresa tinha uma história intrincada de alianças, bastardias legitimadas e pretensões principescas. Seu pai, Francisco Maria, Príncipe de Lillebonne, era filho mais novo de Carlos II de Lorena, Duque de Elbeuf, e de Catarina Henriqueta de Bourbon, ela própria filha natural de Henrique IV de França com Gabrielle d'Estrées, a famosa favorita do rei. Assim, Isabel Teresa carregava nas veias sangue real francês, ainda que por uma linha ilegítima. Sua mãe, Ana, era filha única de Carlos IV de Lorena, fruto de um casamento secreto deste com Beatriz de Cusance — outro elemento de complexidade jurídica e dinástica.
Na corte, era chamada de "Mademoiselle de Commercy", título derivado do principado de Commercy, domínio subsidiário da Casa de Lorena. O principado funcionava como uma espécie de marca identitária que a distinguia entre as numerosas damas de origem nobre que circulavam pelos corredores de Versalhes. Quinta dos nove filhos de seus pais, Isabel Teresa foi a única entre os irmãos a se casar e a deixar descendência, circunstância que confere a sua trajetória uma importância genealógica particular.
Em 7 de outubro de 1691, uniu-se a Luís de Melun, Príncipe de Epinoy e Duque de Joyeuse. O noivo era nove anos mais jovem do que ela — diferença de idade nada incomum nas alianças aristocráticas do período, que priorizavam interesses dinásticos e políticos sobre afinidades pessoais. O casamento lhe conferiu o título pelo qual ficou mais conhecida: Princesa de Epinoy. O casal teve dois filhos, nascidos em 1694 e 1698 respectivamente; apenas a filha deixaria descendência.
Na vida de corte, Isabel Teresa exerceu a função de dama de companhia de Maria Ana de Bourbon, Princesa de Conti, filha legitimada do rei Luís XIV. Era uma posição de prestígio e de proximidade ao centro do poder, que implicava obrigações de representação, discrição e navegação habilidosa pelos jogos de influência que definiam a vida cortesã. Ela frequentou o círculo do Grande Delfim e manteve relações próximas com figuras importantes da corte.
As intrigas, inevitáveis naquele ambiente, também a alcançaram. O memorialista Saint-Simon, observador implacável e frequentemente maligno da corte versalhense, acusou Isabel Teresa e sua irmã de atuarem como espiãs a serviço de Françoise d'Aubigné, a célebre Madame de Maintenon, esposa morganática de Luís XIV. A acusação era grave, mas Saint-Simon não era homem de imparcialidade reconhecida, e a veracidade de suas afirmações sobre tantas personalidades da corte permanece objeto de debate histórico.
O ano de 1724 foi de tragédias em sequência. Em maio, sua filha Ana Júlia morreu de varíola, deixando cinco filhos ainda jovens — a doença era o grande assassino democrático da época, que não poupava nem a nobreza. Em julho do mesmo ano, seu filho Luís, Duque de Joyeuse, desapareceu em circunstâncias misteriosas durante um baile no Castelo de Chantilly, fato que nunca foi completamente esclarecido. Descobriu-se que Luís havia se casado secretamente com Maria Ana de Bourbon, filha de Luís III de Bourbon-Condé — um escândalo dinástico de consideráveis proporções.
Isabel Teresa e seu marido morreram no mesmo dia — 7 de março de 1748 —, no Hôtel de Mayenne, em Paris. A coincidência da data de morte é um daqueles fatos históricos que parecem improváveis, mas que os registros confirmam. Ela tinha oitenta e três anos. Por meio de sua filha Ana Júlia, Isabel Teresa tornou-se ancestral do atual Duque de Montbazon, da Casa de Rohan, linhagem que perpetua sua memória na nobreza europeia contemporânea e que traça até ela uma linha ininterrupta de descendência aristocrática.

