A data de nascimento de George Ivanovich Gurdjieff permanece envolta em incerteza, o que parece adequado para um homem cuja biografia inteira desafiou as categorias convencionais. As fontes apontam para 1866 ou 1877 como possíveis anos de nascimento, no Império Russo, e o próprio mestre não fazia questão de dissipar a ambiguidade. De origem greco-armênia, Gurdjieff cresceu em um ambiente de fronteira cultural e espiritual, no qual o encontro entre civilizações diferentes era parte cotidiana da existência.
Desde jovem, Gurdjieff manifestou uma curiosidade insaciável sobre as questões mais fundamentais da existência humana. Inconformado com as respostas que a religião convencional e a ciência de seu tempo ofereciam, ele partiu em longas viagens pelo interior da Rússia, pelo Afeganistão e por outros países do Oriente, buscando tradições e mestres que pudessem revelar algo mais profundo sobre a natureza do ser humano e do universo. Essas jornadas, cujos detalhes exatos ele sempre narrou de maneira fragmentária e enigmática, tornaram-se a base de todo o seu ensinamento posterior.
O sistema de conhecimento que Gurdjieff foi construindo ao longo dessas décadas de busca era ao mesmo tempo psicológico, espiritual e cosmológico. Ele partia de um diagnóstico radical da condição humana: os seres humanos, na sua grande maioria, vivem em um estado de sono, funcionando como máquinas controladas por mecanismos automáticos dos quais não têm consciência. O que as pessoas chamam de "eu" é, na verdade, uma coleção fragmentada de diferentes "eus" que se sucedem no controle da personalidade sem nenhuma coordenação verdadeira, sem nenhum centro unificador permanente.
Essa constatação sobre a mecanicidade humana levava Gurdjieff ao conceito central de seu ensinamento: a lembrança de si. Acordar significava, para ele, desenvolver uma consciência de si mesmo que a maioria das pessoas simplesmente nunca experimenta. Não se tratava de meditação passiva nem de crença religiosa, mas de um trabalho ativo e permanente sobre si mesmo, através da observação interior rigorosa e do esforço consciente de presença em cada momento da existência.
Gurdjieff começou a transmitir esses ensinamentos de forma sistemática em São Petersburgo e Moscou, onde reuniu grupos de discípulos no início do século XX. Foi nesse período que conheceu Piotr Ouspensky, um intelectual russo que se tornaria seu discípulo mais conhecido e o principal divulgador de seu sistema no Ocidente. Ouspensky recebeu autorização do mestre para tomar notas das conferências e aulas que ocorriam naquelas cidades russas, e o resultado desse trabalho foi o livro "Em Busca do Milagroso: Fragmentos de um Ensinamento Desconhecido", que permanece até hoje a exposição mais sistemática e acessível das ideias de Gurdjieff.
A Revolução Russa de 1917 e os tumultos que se seguiram obrigaram Gurdjieff a deslocar-se com seus discípulos em uma fuga dramática pelo Cáucaso e pela Turquia, até finalmente se estabelecer em Paris. Ali, fundou o Instituto para o Desenvolvimento Harmonioso do Homem em Fontainebleau, onde seu trabalho ganhou uma dimensão mais estruturada. No instituto, o "Trabalho", como ficou conhecido o conjunto de práticas gurdjieffianas, envolvia não apenas conferências e estudos, mas também trabalho físico, culinária, música e as famosas danças sagradas, movimentos que Gurdjieff havia trazido de suas viagens pelo Oriente, especialmente do contato com os dervixes da Turquia e de outras regiões islâmicas.
As danças sagradas tinham um papel central na pedagogia de Gurdjieff. Ele as considerava veículos de transmissão de conhecimento que ia além das palavras, capazes de criar estados de atenção e presença que dificilmente se alcançavam por outros meios. As músicas que acompanhavam essas danças foram elaboradas em colaboração com seu discípulo Thomas De Hartmann, e o próprio Gurdjieff se identificava, com uma ironia característica, como um "instrutor de dança".
O sistema cosmológico de Gurdjieff, exposto de maneira mais direta para seus discípulos próximos, partia do que ele chamava de "Raio de Criação", um modelo que descrevia a estrutura do universo como uma série de planos descendentes a partir de um ponto absoluto de unidade, correlato a uma inteligência organizadora que permeava tudo. O ser humano, nesse esquema, ocupava uma posição específica no cosmos, com possibilidades de desenvolvimento que dependiam de um trabalho consciente sobre si mesmo.
Um dos instrumentos centrais de seu ensinamento era o eneagrama, um símbolo geométrico de origem oriental que Gurdjieff apresentou ao Ocidente como chave para compreender a lei universal do processo e da transformação. O eneagrama expressava para ele as relações entre as "oitavas" da escala musical e os "choques" necessários para que qualquer processo se completasse, desde o funcionamento do cosmos até o desenvolvimento interior do ser humano. Os três "alimentos" que sustentavam a máquina humana, segundo ele, eram o alimento físico, o ar e as impressões, sendo estas últimas as mais importantes e ao mesmo tempo as mais negligenciadas.
Em meados dos anos 1930, Gurdjieff sofreu um grave acidente de automóvel nos Estados Unidos que o deixou em estado crítico. Contra todas as expectativas médicas, recuperou-se, e esse período de convalescença o voltou à escrita. Produziu então uma trilogia monumental: "Relatos de Belzebu a seu Neto", narrado na forma de uma longa alegoria cósmica; "Encontros com Homens Notáveis", que registrava as viagens e encontros de sua juventude; e "O Mundo só é Real quando Eu Sou", uma reflexão sobre a consciência e o autoconhecimento. O segundo livro foi adaptado para o cinema em 1979 pelo diretor Peter Brook, com assessoria de Jeanne de Salzmann, uma de suas discípulas mais próximas.
Gurdjieff faleceu em Neuilly-sur-Seine, na França, em 29 de outubro de 1949. Deixou para trás uma comunidade de discípulos espalhados pelo mundo, um corpo de ensinamentos que continua sendo estudado e praticado até hoje, e uma reputação de figura singular e insubstituível. Aqueles que o conheceram pessoalmente descreviam-no como um "despertador" de homens, alguém cuja simples presença tinha a capacidade de sacudir as pessoas de sua sonolência habitual e revelar possibilidades que elas nem suspeitavam existir.

