Nas categorias do futebol brasileiro, a posição de lateral-esquerdo raramente é sinônimo de artilharia. A função exige disciplina tática, capacidade de marcação e, nos momentos mais favoráveis, a ousadia de chegar ao ataque. Athirson Mazzoli e Oliveira, carioca nascido em 16 de janeiro de 1977, transformou essa convenção ao longo de sua carreira, tornando-se um dos laterais mais ofensivos que o Flamengo já produziu em suas divisões de base.
Descoberto com apenas onze anos para o futebol de salão no America, o menino logo chamou a atenção dos olheiros do Flamengo, que o encaminharam para o futebol de campo. Nos anos seguintes, as categorias de base rubro-negras moldaram seu estilo irreverente, combinando velocidade, habilidade e um faro para o gol incomum para a posição. Quando chegou ao profissional, em 1996, o técnico Joel Santana não hesitou em escalá-lo: estreou em 4 de setembro daquele ano contra o Bragantino, em Bragança Paulista, pelo Campeonato Brasileiro, após um amistoso preparatório contra o América em Natal.
A chegada de Athirson ao time principal foi avassaladora. Em pouco tempo, seu talento apagou da titularidade o experiente Gilberto, e a torcida rubro-negra adotou o jovem lateral como um de seus preferidos. Naquele mesmo ano, o clube conquistou o Campeonato Carioca, e Athirson também levantou a Copa de Ouro Nicolás Leoz, consolidando-se como peça fundamental do esquema do Flamengo. O início parecia prefigurar uma trajetória sem obstáculos, mas 1997 trouxe uma lesão no púbis que o afastou por seis longos meses, colocando à prova sua resistência física e mental.
Recuperado, o lateral voltou melhor. Em 1998, passou um período emprestado ao Santos, onde conquistou a Copa CONMEBOL, antes de retornar ao ninho. A boa fase o projetou para além das fronteiras do Rio de Janeiro, e as convocações para a Seleção Brasileira não tardaram. Athirson disputou a Copa das Confederações de 1999 — ano em que o Brasil também ergueu a Copa América — e participou dos Jogos Olímpicos de Sydney em 2000, integrando o grupo que ganhou o Torneio Pré-Olímpico daquele ano. Com o Flamengo, as conquistas do Carioca de 1999 e 2000 e da Copa Mercosul de 1999 reforçavam sua trajetória vitoriosa.
Em 15 de junho de 2000, um exame detectou a substância femproporex na urina do jogador após uma partida da Copa do Brasil entre Flamengo e Bahia realizada em maio. A acusação de doping ameaçou manchar sua reputação, mas Athirson foi absolvido pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva, saindo ileso da polêmica. Na mesma temporada, foi eleito o melhor jogador do Campeonato Carioca, coroando sua fase mais brilhante com o clube.
O mercado europeu logo se movimentou. Em janeiro de 2001, Athirson recusou uma proposta do Barcelona — um gesto que surpreendeu — e preferiu assinar com a Juventus após uma batalha judicial para desvincular-se do Flamengo. Desembarcou em Turim comparado a nomes como Júnior e Roberto Carlos, com contrato de quatro temporadas pela frente. A realidade, porém, foi dura: fez apenas cinco jogos com a camisa bianconera, não marcou gols e foi progressivamente afastado depois que Marcello Lippi assumiu o comando técnico. A Juventus, contudo, conquistou a Serie A naquele ciclo 2001-02, e Athirson integrava o elenco.
De volta ao Brasil em 2002, inicialmente emprestado ao Flamengo, o lateral reencontrou seu melhor futebol. Dedicou-se com afinco às cobranças de falta e ao jogo ofensivo, colhendo os frutos quando a Revista Placar lhe concedeu a Bola de Prata pelo desempenho no Campeonato Brasileiro de 2002. Após romper definitivamente com a Juventus em 2004, ainda passou cinco meses no CSKA Moscou antes de retornar pela quarta vez ao Flamengo. Mais tarde, uma negociação o levou ao Bayer Leverkusen, da Alemanha, onde ficou duas temporadas entre 2005 e 2007.
O retorno definitivo ao Brasil veio marcado por um episódio pessoal delicado: um problema de saúde de uma de suas filhas o trouxe de volta apressado, e o Botafogo o repatriou em agosto de 2007. A passagem foi breve e frustrante, com apenas seis partidas disputadas e rescisão após três meses. A carreira então seguiu caminhos menos iluminados, pelo Brasiliense na Série B de 2008 e pela Portuguesa, onde reencontrou consistência e chegou a ser capitão e destaque, antes de uma passagem pelo Cruzeiro em 2009, clube com o qual levantou o Campeonato Mineiro. Em 2011, encerrou o ciclo na Portuguesa na Série B de 2010 e iniciou nova fase no Duque de Caxias.
Em 2012, Athirson aceitou compor o elenco do Showbol do Flamengo, modalidade que concilia futebol e espetáculo, e naquele mesmo ano sagrou-se campeão do Mundialito de Futebol 7 com a Seleção Brasileira. Foi também o momento em que decidiu encerrar formalmente a carreira de jogador e migrar para o universo da comunicação, sendo contratado pelo Fox Sports Brasil como comentarista. Mais tarde, passaria pelo BandSports e pela CazéTV.
Mas a maior curiosidade da vida de Athirson está gravada na memória coletiva dos torcedores do Maracanã. Em partida que entrou para a história, o lateral marcou três gols num único jogo disputado no estádio mais famoso do Brasil. Nenhum outro lateral, antes ou depois, repetiu tal feito no Maracanã. O hat-trick de um defensor numa arena com aquela envergadura simboliza bem o perfil do jogador: alguém que nunca aceitou os limites impostos pela posição que ocupava em campo. Esse legado, mais do que qualquer título ou estatística, define quem foi Athirson no futebol brasileiro.

