Anatoli Nikoliavich Boukreev nasceu em 16 de janeiro de 1958 em Korkino, cidade localizada no oblast de Chelyabinsk, na então República Socialista Federativa Soviética Russa. Cresceu num ambiente distante das grandes montanhas que marcariam sua vida, mas com uma inquietação física que o distinguia dos colegas. Após concluir o ensino médio em 1975, frequentou a Universidade de Pedagogia de Chelyabinsk, onde se formou em Física em 1979, paralelamente a um programa de treinamento de esqui cross-country que adicionou resistência e técnica ao seu corpo em formação.
Com vinte e um anos, Boukreev tomou uma decisão que mudaria tudo. Sonhando com montanhas, mudou-se para Alma-Ata, então capital da República Socialista Soviética do Cazaquistão, situada às margens da imponente cordilheira Tian Shan. Ali, em 1985, uniu-se a uma equipe de montanhismo cazaque que se tornaria sua família esportiva. Com a dissolução da União Soviética em 1991, adquiriu a cidadania da nova República do Cazaquistão, país pelo qual representaria internacionalmente.
As primeiras marcas de grandeza vieram em 1987, quando Boukreev realizou a primeira subida solo do pico Ibn Sina — anteriormente chamado Pico Lenine —, com seus 7.137 metros de altitude. Dois anos depois, em 1989, ele abriu uma nova rota no Kangchenjunga, montanha de 8.556 metros, numa expedição soviética que se tornaria histórica: dias após a ascensão inaugural, Boukreev escalou isoladamente todos os quatro picos acima de oito mil metros da mesma montanha, um feito de resistência e técnica que a comunidade alpinista não esqueceria. No total, entre 1989 e 1997, realizaria dezoito ascensões bem-sucedidas em picos acima de oito mil metros, sete delas sem o uso de oxigênio suplementar.
Apesar de respeitado nos círculos especializados, Boukreev era relativamente desconhecido do público internacional até a primavera de 1996, quando a tragédia do Everest o colocou no centro de uma das controvérsias mais acaloradas da história do alpinismo. Contratado pela empresa Mountain Madness como guia da expedição comercial liderada por Scott Fischer, ele participou da tentativa ao cume em 10 de maio daquele ano. Naquele dia, uma tempestade devastadora surpreendeu as equipes nas altitudes mais extremas da montanha, matando oito alpinistas de diversas expedições, incluindo o próprio Fischer.
No centro do drama, a conduta de Boukreev dividiu opiniões de forma profunda. Ele havia chegado ao cume entre os primeiros, descido ao Campo IV sem usar oxigênio suplementar e retornado à sua tenda às cinco da tarde, horas antes de qualquer outro membro de sua equipe. O escritor Jon Krakauer, sobrevivente da catástrofe e autor do livro "Into Thin Air", criticou duramente o comportamento de Boukreev, descrevendo-o como "extremamente estranho" e acusando-o de ter "cortado e corrido quando mais importava". Para Krakauer, um guia que escala sem oxigênio e desce à frente de seus clientes põe em risco o princípio fundamental de responsabilidade que define a função.
Boukreev respondeu às críticas com o livro "The Climb", escrito em parceria com Gary Weston DeWalt, onde defendeu que a descida antecipada foi a única estratégia racional: ao chegar ao campo descansado, pôde executar um resgate que a maioria considerou impossível. Quando a tempestade finalmente amenizou, por volta da meia-noite, Boukreev saiu sozinho na escuridão e no frio extremo, a mais de oito mil metros de altitude, e conseguiu encontrar e conduzir três alpinistas perdidos de volta à segurança. Todos os seis clientes da Mountain Madness sobreviveram ao desastre. Alpinistas veteranos descreveram o resgate como "um dos mais surpreendentes da história do montanhismo, realizado por um homem sozinho, horas após escalar o Everest sem oxigênio".
O debate jamais foi encerrado de forma definitiva. O que ficou incontestável foi o heroísmo noturno de Boukreev, independentemente das escolhas que fizera durante o dia. Em 1996, ele ainda escalou o Lhotse em solo batendo um recorde de velocidade, além do Cho Oyu e do Shishapangma. No ano seguinte, novamente no Everest e no Lhotse, acrescentou o Broad Peak e o Gasherbrum II à sua lista de conquistas.
Em dezembro de 1997, Boukreev integrou uma expedição audaciosa ao Annapurna — 8.091 metros — ao lado do cineasta Dimitri Sobolev e do alpinista italiano Simone Moro. Tentavam uma nova rota extremamente difícil em condições de inverno. Em 25 de dezembro daquele ano, a cerca de 5.700 metros de altitude, uma avalanche arrastou os três homens. Moro, que estava numa posição mais elevada e havia cruzado a zona de maior perigo, foi levado quinhentos metros abaixo mas sobreviveu. Boukreev e Sobolev desapareceram. Várias tentativas de resgate foram impedidas pelo mau tempo e por novas avalanches. Em 3 de janeiro de 1998, a equipe de busca finalmente conseguiu alcançar o Campo I, mas encontrou apenas a tenda vazia. No acampamento base do Annapurna, seus companheiros erigiram um chorten em sua memória, com uma de suas citações gravada na pedra. Anatoli Boukreev tinha trinta e nove anos.


