Em 2 de março de 1996, um sábado ao anoitecer, o mundo dos Mamonas Assassinas foi abruptamente interrompido quando seu jato executivo Learjet 25 se chocou com a Serra da Cantareira durante uma tentativa de pouso no Aeroporto Internacional de São Paulo-Guarulhos. A banda, que havia estourado nos anos anteriores com o álbum "Mamonas Assassinas", não apenas com sucessos como "Pelados em Santos" e "Robocop Gay", mas também com seu estilo único que misturava escracho, virtuosismo musical e ironia, estava no auge de sua popularidade quando o acidente ocorreu. O desfecho foi brutal: todos os seis integrantes da banda — Dinho, Bento Hinoto, Júlio Rasec, Samuel Reoli e Sérgio Reoli —, além do piloto Jorge Luiz Martins, do copiloto Alberto Yoshiumi, do segurança Sérgio Saturnino Porto e do roadie Isaac Souto, primo de Dinho, morreram instantaneamente.
O acidente aconteceu quando o avião tentava pousar no aeroporto às 23h20. As operações de resgate começaram na madrugada seguinte com 50 homens do Comando de Operações Especiais da Polícia Militar (COE) e bombeiros que vasculharam a mata com lanternas. O primeiro corpo foi encontrado às 6h45, e o resgate se estendeu por quase uma hora até que os corpos pudessem ser levados de helicópteros. As imagens chocantes do acidente foram registradas pelo fotógrafo Fernando Cavalcanti, jornalista do extinto Notícias Populares (NP), que foi o primeiro profissional a chegar ao local e tirar fotos do trágico cenário.
Cavalcanti, acompanhado por Hélio Santos, ouviu sobre o acidente pela frequência da polícia de rádio. Ao entrar no local, encontrou outros jornalistas mas sem acesso. Usando roupas escuras para passar despercebido na mata, ele se infiltrou nos socorristas à meia-noite e fotografou os destroços do avião, equipamentos da banda e os corpos dos artistas em diferentes estados de decomposição. As fotos chocantes foram publicadas no NP, mas a decisão foi controversa.
A divulgação das imagens explícitas gerou comoção nacional e debate público sobre ética jornalística. Apesar disso, o NP bateu seu recorde de tiragem com 250 mil exemplares vendidos. Em um segundo momento, o jornal publicou um pedido de desculpas aos leitores por não ter conseguido suprir a demanda da notícia sensacionalista. O acidente marcou uma época e deixou cicatrizes profundas na memória coletiva do Brasil, com os quase irreconhecíveis corpos dos Mamonas Assassinas ainda compartilhados em páginas sensacionalistas duas décadas depois.
O trágico final da banda trouxe à tona questões sobre responsabilidade social e ética no jornalismo. Fernando Cavalcanti, que se isentou de qualquer culpa editorial, reconheceu a dificuldade de lidar com o desespero diante do primeiro corpo encontrado. O caso permanece como um dos momentos mais marcantes da história do jornalismo brasileiro, refletindo os dilemas que ainda persistem em matéria sensacionalista e tragédia.