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Paul Henreid

Paul Georg Julius Freiherr von Hernried Ritter von Wasel-Waldingau (Trieste, 10 de janeiro

4 min01/01/2024
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Paul Henreid é um daqueles atores cujo nome evoca imediatamente duas imagens específicas: a cena dos dois cigarros acesos simultaneamente em Now, Voyager, e o rosto corajoso e nobre de Victor Laszlo em Casablanca. Nascido com o nome completo Paul Georg Julius Freiherr von Hernried Ritter von Wasel-Waldingau, em Trieste, em 10 de janeiro de 1908, ele carregava num único nome toda a pompa aristocrática do Império Austro-Húngaro. Sua vida, no entanto, seria marcada pelos mesmos convulsionamentos históricos que destruíram esse mundo.

Trieste, à época do nascimento de Paul, era uma das cidades mais cosmopolitas do Adriático, um porto vibrante onde se cruzavam culturas italiana, eslava, alemã e austríaca sob a bandeira dos Habsburgo. Seu pai, o Barão Carl Alphons, era um banqueiro vienense, e sua mãe, Maria-Luise, completava o quadro de uma família da alta burguesia austro-húngara. Essa origem moldou o porte distinto e a elegância natural que Henreid carregaria para o resto da vida, qualidades que o cinema de Hollywood soube capturar e explorar.

A formação artística de Paul começou em Viena, onde estudou teatro e estreou no palco sob a direção de Max Reinhardt, um dos maiores nomes do teatro europeu da primeira metade do século XX. Reinhardt era célebre por suas produções grandiosamente concebidas e por sua capacidade de revelar talentos. Ter sido dirigido por ele numa das primeiras experiências teatrais era uma credencial de peso no mundo das artes europeias. Nos anos 1930, Paul deu seus primeiros passos no cinema em produções alemãs.

O cenário político europeu, no entanto, forçou Paul Henreid a tomar decisões que alterariam permanentemente o curso de sua vida. Em 1935, emigrou da Áustria para a Grã-Bretanha, um ano após a brutal Guerra Civil Austríaca que resultou no assassinato do chanceler socialdemocrata Engelbert Dollfuss e na instauração do regime austrofascista de Kurt Schuschnigg. Quando o conflito maior eclodiu em 1939 com o início da Segunda Guerra Mundial, Paul enfrentou o risco real de ser preso ou deportado como cidadão de um país inimigo. Sua permanência em solo britânico foi garantida pela intervenção do ator Conrad Veidt, um colega alemão que usou sua influência para assegurar a liberdade de Henreid na Inglaterra.

Foi nesse período britânico que Paul deu seus primeiros passos importantes no cinema anglofônico. Um pequeno papel em Goodbye, Mr. Chips — um dos filmes mais celebrados da era — foi seguido por um papel secundário como oficial nazista em Night Train to Munich, de 1940. Esse último trabalho chamou a atenção de Hollywood, e Paul Henreid foi contratado pela RKO Pictures, chegando aos Estados Unidos em 1942 já com o nome simplificado que usaria até o fim da vida.

O ano de 1942 foi um divisor de águas na carreira de Henreid. Em Now, Voyager, ele contracenou com Bette Davis numa das colaborações mais memoráveis da era clássica de Hollywood. A cena em que seu personagem, Jeremiah Durrance, acende dois cigarros ao mesmo tempo e entrega um a Davis tornou-se uma das imagens mais icônicas e imitadas da história do cinema, representando num gesto simples uma intimidade carregada de romantismo contido. A elegância do gesto e a química entre os dois atores elevaram aquele momento a símbolo de uma época.

No mesmo ano, Henreid foi escalado para o papel de Victor Laszlo em Casablanca, o épico de resistência antinazista dirigido por Michael Curtiz, que reuniu Humphrey Bogart e Ingrid Bergman num dos triângulos amorosos mais famosos da história do cinema. Laszlo era o líder heroico da resistência europeia, um homem de convicções inabaláveis disposto a sacrificar tudo pela causa. Para um ator que havia fugido da Europa por razões político-ideológicas, havia uma ressonância particular em habitar aquele personagem. Casablanca seria eleito décadas depois o maior filme americano de todos os tempos por diversas instituições do cinema.

Em 1946, Paul Henreid tornou-se cidadão americano, formalizando o vínculo com o país que o acolhera e onde construíra sua maior carreira. Ao longo da segunda metade dos anos 1940, continuou trabalhando em Hollywood em papéis variados. No início da década de 1950, começou a transitar para a direção, tanto para o cinema quanto para a televisão. Dirigiu séries de grande prestígio como Alfred Hitchcock Presents, Maverick, Bonanza e The Big Valley, demonstrando que seu talento ia além da performance.

No cinema, sua contribuição como diretor inclui o filme Dead Ringer, de 1964, novamente com Bette Davis, com quem manteve uma parceria criativa que atravessou décadas. Pessoalmente, Paul viveu uma vida estável: casou-se em 1936 com Elizabeth Gluck, com quem teve duas filhas, e permaneceu casado até o fim da vida. Morreu de pneumonia em Santa Mônica em 29 de março de 1992, aos 84 anos. Foi enterrado no Woodlawn Memorial Cemetery, na mesma cidade californiana que o abrigou por décadas. Hollywood o honrou com duas estrelas na Calçada da Fama, uma pelo trabalho no cinema e outra pela contribuição à televisão, perpetuando numa calçada o nome que o Império Austro-Húngaro havia adornado com títulos de nobreza.

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