biografias

Necati Cumalı

Escritor turco

4 min01/01/2024
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Necati Cumalı nasceu em 13 de janeiro de 1921, na cidade de Florina, então parte do Império Otomano e hoje território da Grécia. Sua história pessoal começa, portanto, num cruzamento de nações e identidades que marcaria profundamente sua visão de mundo e sua literatura. Em 1923, o acordo de câmbio de populações entre a Grécia e a Turquia — um dos mais amplos processos de deslocamento humano já realizados de forma organizada — levou sua família a se instalar em Urla, cidade próxima a Izmir, na costa egeia da Turquia. Esse movimento fundador, essa separação forçada de uma terra para outra, seria uma das fontes inesgotáveis de suas obras.

Cumalı cresceu em Urla e fez seus estudos em Izmir. Depois, partiu para Istambul para iniciar os estudos em Direito na universidade local, concluindo a formação na Faculdade de Direito da Universidade de Ancara. Era um jovem intelectualmente inquieto, e foi durante os anos de formação que a escrita começou a tomar conta de sua vida. Ainda estudante, começou a escrever poesia, e seus poemas passaram a ser publicados no início da década de 1940 em importantes revistas e jornais turcos, como Varlık e Servet-i Fünun — publicações centrais na vida literária turca da época.

No final da mesma década, enquanto cumpria o serviço militar obrigatório, Cumalı expandiu sua escrita para o terreno dos contos. A influência mais evidente nesse momento era a de Sabahattin Ali, um dos maiores escritores turcos do século XX, cujo olhar comprometido com as classes populares e com a crítica social deixava marcas nítidas na ficção do jovem escritor. Essa afinidade temática com questões sociais mais amplas levou alguns críticos a classificar Cumalı ao lado dos chamados "escritores de esquerda", embora ele nunca tenha participado ativamente de questões políticas em sentido estrito. Sua escrita tinha consciência social, não programa político.

Um dos traços mais comentados de sua obra foi o retrato que fez das mulheres. Suas personagens femininas eram complexas, contraditórias, cheias de vida interior — num ambiente literário onde a mulher frequentemente aparecia como figura secundária ou alegórica, Cumalı optava por colocá-las no centro da narrativa, com profundidade psicológica e humanidade plena. Esse olhar sensível e respeitoso foi reconhecido por leitores e críticos ao longo de toda sua carreira.

A obra que lhe daria maior visibilidade internacional foi o romance curto Susuz Yaz, traduzido para o português como "Verão Seco". Adaptado para o cinema em 1964 pelo diretor Metin Erksan, com atuações de Hülya Koçyiğit e Erol Tas, o filme ganhou o Urso de Ouro no Festival de Cinema de Berlim naquele mesmo ano — um dos mais altos reconhecimentos do cinema mundial. Era a confirmação de que a ficção de Cumalı tinha uma força narrativa capaz de transcender fronteiras linguísticas e culturais quando traduzida para outras linguagens artísticas.

Outro trabalho de destaque em sua carreira foi o romance "Viran Dağlar: Makedonya 1900", publicado em português com o título "Devastadas Colinas: Macedônia 1900". Nele, Cumalı narrava a história de sua própria família, descendente de uma longa linhagem de turcos Beys — os Beys de Djuma, ou Cuma Beyleri —, com a crise nos Bálcãs do início do século XX como pano de fundo. A obra misturava memória familiar e história coletiva numa tapeçaria narrativa de rara riqueza. Décadas depois, em 2001, o romance foi adaptado para a televisão pelo diretor Michel Favart, numa produção multinacional da ARTE, sob o título "Le dernier Seigneur des Balkans" — embora a adaptação tenha sido reconhecida como pouco fiel ao original.

Ao longo de sua vida, Cumalı produziu cerca de quinze livros de poesia, além de numerosos volumes de contos, romances e peças de teatro. Sua poesia foi traduzida para o francês por Tahsin Saraç, e suas obras encontraram tradutores também no mundo alemão, onde foram publicadas pela editora Kitab-Verlag. Era uma voz literária de alcance amplo, capaz de transitar entre a lírica, a narrativa e o drama com naturalidade.

Necati Cumalı morreu em 10 de janeiro de 2001, em Istambul, três dias antes de completar oitenta anos. Deixou uma coleção valiosa de livros que foi doada à Universidade Koç, em Istambul, como legado para futuras gerações de leitores e pesquisadores. Seu nome permanece como um dos pilares da literatura turca moderna, a voz de um homem que nasceu entre duas nações, cresceu em terra adotada e usou as palavras para construir uma pátria que ninguém poderia tomar.

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