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Michel Ney

Marechal Francês (nascido em 1769–1815)

8 min01/01/2024
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Michel Ney nasceu em 10 de janeiro de 1769 na cidade de Sarrelouis, na fronteira franco-alemã, filho de um mestre tanoeiro que havia servido na Guerra dos Sete Anos. Aquela região de fronteira era um cruzamento de culturas e línguas, e Ney cresceu bilíngue, familiarizado tanto com o francês quanto com o alemão, o que seria uma vantagem em suas futuras campanhas militares num continente onde os exércitos atravessavam inúmeras fronteiras linguísticas. Educado no Collège des Augustins até 1782, trabalhou depois como escrivão e em minas e forjas antes de tomar a decisão que definiria toda a sua vida: em 1787, alistou-se no Regimento do Coronel-General Hussar.

O jovem soldado chegou ao exército num momento em que a rígida hierarquia da monarquia Bourbon tornava a ascensão quase impossível para quem não fosse de linhagem nobre, já que a entrada no corpo de oficiais exigia comprovação de vários quartéis de aristocracia. Ney era filho de um artesão e não tinha esse pedigree. Mas a Revolução Francesa, que explodiu dois anos após seu alistamento, varreria essa barreira com a mesma impetuosidade que varreu tantas outras estruturas do Antigo Regime. No novo Exército Revolucionário Francês, o mérito em batalha substituiu o nascimento como critério de promoção, e Ney era exatamente o tipo de soldado que aquele novo sistema foi feito para revelar.

Sua estreia em combate veio em setembro de 1792, na Batalha de Valmy, o confronto que deteve o avanço prussiano e salvou a Revolução em seu momento mais crítico. Em outubro do mesmo ano, Ney foi comissionado como oficial da República, passando de suboficial a portador de espada num avanço que teria levado décadas sob a monarquia. Nos anos seguintes, ele lutou em Neerwinden em 1793, foi ferido no Cerco de Mainz, e demonstrou em múltiplos teatros de operações a combinação de coragem física, liderança carismática e instinto tático que logo se tornaria sua marca registrada.

O período revolucionário consolidou a reputação de Ney e o período napoleônico a transformou em lenda. Em agosto de 1796, foi promovido a general de brigada, comandando cavalaria nas frentes alemãs. Em abril de 1797, durante a Batalha de Neuwied, liderou uma carga de cavalaria para salvar canhões franceses de serem capturados por lanceiros austríacos, foi derrubado de seu cavalo e feito prisioneiro, sendo trocado por um general austríaco três semanas depois. Promoções e batalhas se sucederam num ritmo vertiginoso, e em 19 de maio de 1804, quando Napoleão lhe entregou o bastão de marechal, Ney era já um dos comandantes mais respeitados e queridos por seus soldados de todo o Grande Armée.

Os apelidos que recebeu dizem muito sobre o homem. Seus soldados o chamavam de Le Rougeaud, o vermelho ou rosado, referência ao rubor característico de seu rosto em combate. Napoleão, que lhe tributava uma admiração genuína misturada a exasperação periódica, cunhou a expressão que o imortalizaria: le Brave des Braves, o mais bravo dos bravos. O mesmo imperador também o chamou de fanfarrão sem julgamento e de Don Quixote, captando a dimensão ao mesmo tempo heroica e por vezes temerária de sua personalidade.

As campanhas de 1805 a 1812 acumularam feitos que encheram os livros de história militar. Em Elchingen, em 1805, sua conduta foi tão brilhante que lhe valeu o título de Duque de Elchingen em 1808. Em 1807, chegou a tempo de salvar Napoleão da derrota em Eylau. Na Península Ibérica, onde a guerra contra os anglo-portugueses era uma luta desgastante de posições, Ney capturou Ciudad Rodrigo e Almeida em 1810 e conduziu uma série de ações de retaguarda magistrais durante a retirada das Linhas de Torres Vedras, em Pombal, Redinha, Casal Novo e Foz d'Arouce, mantendo a coesão do exército francês que recuava diante de Wellington. A insubordinação que eventualmente lhe custou o comando naquela campanha era o reverso da mesma moeda de sua independência de espírito.

A campanha da Rússia em 1812 produziu seus momentos mais dramáticos. Ferido no pescoço em Smolensk, lutou em Borodino e depois assumiu o comando da retaguarda durante a catastrófica retirada de Moscou. Em Krasnoi, seu corpo de exército foi cortado do exército principal, e Ney atravessou o rio Dnieper no gelo, sob fogo inimigo, numa das fugas mais audaciosas de toda a história militar, reunindo-se ao grosso das forças em Orsha. Foi por isso que recebeu o título de Príncipe da Moskova em março de 1813. A lenda conta que ele foi o último francês a cruzar a ponte em Kovno, deixando o solo russo por fim.

O fim de Ney tem a grandeza trágica das figuras que não sabem como viver sem o calor do combate. Em 1815, quando Napoleão voltou do exílio na ilha d'Elba, Ney havia prometido a Luís XVIII que capturaria o imperador e o traria a Paris numa jaula de ferro. Em vez disso, quando se encontrou frente a frente com Napoleão, capitulou à lealdade mais profunda e se juntou a ele com todas as suas tropas. Lutou em Waterloo com a bravura costumeira, liderando cargas de cavalaria que impressionaram até os inimigos, mas a batalha foi perdida.

Com a segunda Restauração dos Bourbon, Ney foi preso, julgado por traição e condenado à morte. Seu fim chegou em 7 de dezembro de 1815, no jardim do Luxembourg em Paris, onde enfrentou o pelotão de fuzilamento com a compostura de um soldado que sempre soube que morreria em serviço. Conta-se que ele mesmo deu a ordem para os soldados atirarem. Michel Ney tinha quarenta e seis anos, havia sobrevivido a dezenas de batalhas e inúmeros ferimentos, e morreu não por uma bala inimiga, mas pela sentença dos compatriotas que ele havia servido com tudo o que tinha.

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