Charles Henry Davis nasceu em Boston, Massachusetts, em 16 de janeiro de 1807, e construiu uma carreira naval que combinava ciência, diplomacia e combate de maneira pouco comum entre os oficiais de sua época. Astrônomo, hidrógrafo, comandante de batalha e administrador naval, Davis representou um tipo de oficial que o século XIX americano produziu em número reduzido mas com influência desproporcional sobre o desenvolvimento das instituições do país.
Sua formação começou na Boston Latin School, uma das mais antigas e tradicionais instituições educacionais da América. Ingressou no Harvard College em 1821, mas interrompeu os estudos dois anos depois quando foi nomeado aspirante da Marinha dos Estados Unidos, em 12 de agosto de 1823. A carreira naval estava escolhida, e os anos seguintes seriam de aprendizado progressivo em navios e missões diversas. Entre 1827 e 1828 serviu a bordo da fragata Estados Unidos, no Pacífico, e em 1829 foi promovido a aspirante aprovado. De 1830 a 1833 serviu no saveiro Ontário, e em 1834 foi promovido a tenente e designado ao Vincennes. A progressão era constante, marcada por serviços em diferentes tipos de embarcações e teatros de operação.
Em 1841, Harvard lhe concedeu o título honorário de Bacharel em Artes, reconhecendo os estudos interrompidos anos antes. Em 1843, ingressou na Sociedade de Massachusetts de Cincinnati, sucedendo ao próprio avô, o coronel Constant Freeman, que vivera entre 1757 e 1824. Esses laços com as tradições coloniais e revolucionárias americanas faziam parte de uma identidade familiar que Davis cultivava com orgulho.
Entre 1846 e 1849, Davis desempenhou uma das missões mais significativas de sua carreira até então, trabalhando no United States Coast Survey a bordo do Nantucket. Foi durante esse serviço que localizou um banco de areia até então completamente desconhecido pelos cartógrafos, uma formação submersa que havia sido responsável por naufrágios ao longo da costa de Nova York. A descoberta tinha importância prática imediata: ao identificar o obstáculo e incluí-lo nas cartas náuticas, Davis potencialmente salvou vidas e embarcações futuras. Além dessa descoberta, realizou pesquisas sistemáticas sobre marés e correntes na costa leste, trabalho que gerou dados fundamentais para a navegação de longo prazo.
De 1849 a 1855, Davis exerceu o cargo de primeiro superintendente do American Nautical Almanac Office, produzindo o American Ephemeris and Nautical Almanac, publicação de referência para a navegação astronômica. Em 1854 foi promovido a comandante e recebeu o comando do navio St. Mary's, com o qual protagonizaria um dos episódios mais singulares de sua carreira.
Em 30 de abril de 1857, ao largo de San Juan del Sur, na Nicarágua, Davis mediou a rendição do aventureiro americano William Walker, um filibusteiro que havia tentado apoderar-se do controle político da Nicarágua à frente de um grupo de mercenários. Walker e seus cerca de 300 homens capitularam para Davis, que os transportou a bordo do St. Mary's até o Panamá no dia seguinte, protegendo os prisioneiros da retaliação que forças locais, financiadas pelo magnata americano Cornelius Vanderbilt, lhes preparariam caso ficassem em terra. O episódio demonstrava a capacidade de Davis para navegar situações politicamente delicadas com equilíbrio.
Em 1859, durante novo comando do St. Mary's, Davis recebeu ordens de ir à Ilha Baker, território americano no Pacífico, para obter amostras de guano, o fertilizante natural extraído de depósitos de excrementos de aves marinhas que naquela época tinha grande valor econômico. Tornando-se provavelmente o primeiro americano a pisar na ilha desde sua anexação pelos Estados Unidos em 1857, Davis executou a missão onde um comodoro anterior havia fracassado por considerar a ilha inacessível.
Com a eclosão da Guerra Civil Americana, Davis foi nomeado para o Blockade Strategy Board em junho de 1861, e em novembro do mesmo ano foi promovido a capitão. Assumiu o comando interino da Western Gunboat Flotilla, a força naval que operava nos rios do interior do continente. O batismo de fogo com essa flotilha não foi glorioso: em 10 de maio de 1862, na batalha de Plum Point Bend no rio Mississippi, seus navios foram pegos despreparados pelos confederados, dois deles foram seriamente danificados e tiveram de ser encostados em banco de areia para não afundar, enquanto os inimigos escapavam com danos leves.
A redenção veio poucos dias depois. Em 6 de junho de 1862, Davis comandou a batalha de Memphis, que se tornou uma das vitórias navais mais completas da guerra no teatro ocidental. Seus navios enfrentaram a frota fluvial confederada e a destruíram quase inteiramente, afundando ou capturando sete dos oito navios inimigos enquanto apenas uma embarcação da União sofria danos. A vitória abriu o rio Mississippi até Memphis e foi celebrada em todo o Norte. Em julho, Davis cooperou com o almirante David G. Farragut num ataque a Vicksburg, no Mississippi, mas a operação conjunta não alcançou seus objetivos e os dois oficiais foram forçados a recuar. Em agosto, conduziu uma expedição bem-sucedida pelo rio Yazoo, apreendendo suprimentos e munições confederados.
Após essas campanhas foi nomeado Chefe do Bureau de Navegação e retornou a Washington. Em 7 de fevereiro de 1863 foi promovido a contra-almirante. No período pós-guerra, de 1865 a 1867, serviu como Superintendente do Observatório Naval dos Estados Unidos e em 1867 assumiu o comando do Esquadrão do Atlântico Sul, com o Guerriere como nau capitânia. Em 1868 Harvard lhe concedeu um doutorado honorário. Davis morreu em Washington em 18 de fevereiro de 1877 e foi sepultado em Cambridge, Massachusetts. Seus filhos perpetuaram o legado familiar: sua filha Anna Cabot Mills Davis casou-se com o senador Henry Cabot Lodge, e seu filho Charles H. Davis Jr. dirigiu o serviço de inteligência naval no fim do século.

