misterios

Vasily Golovnin

Vasily Mikhailovich Golovnin (em russo: Василий Михайлович Головнин, 19 de abril [Calend.

6 min01/01/2024
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No panteão dos grandes exploradores russos do século XIX, poucos nomes se destacam tanto quanto o de Vasily Mikhailovich Golovnin. Navegador de talento excepcional, escritor perspicaz e administrador naval de primeira linha, viveu uma série de aventuras que pareceriam exageradas mesmo num romance de ficção — incluindo uma fuga cinematográfica sob os canhões britânicos e dois anos de cativeiro no Japão, que se transformaram numa das descrições mais vívidas da cultura nipônica já escritas por um ocidental.

Golovnin nasceu em 19 de abril de 1776 em Gulyniki, numa propriedade rural no oblast de Ryazan. Seus antecessores tinham longa tradição de serviço militar ao Império Russo — tanto o pai quanto o avô serviram no prestigioso Regimento Preobrazhensky. Mas o pai morreu cedo, e o jovem Vasily, ainda criança, foi encaminhado ao Colégio Naval Russo, ingressando como cadete. Completou o curso em 1792. Em 1790, antes mesmo de se formar, já havia participado de batalhas navais contra a frota sueca, um batismo de fogo precoce para quem tinha apenas quatorze anos.

Entre 1793 e 1798, Golovnin cumpriu diversas campanhas no exterior. De 1798 a 1800, serviu como ajudante e intérprete do vice-almirante M.K. Makarov, comandante de um esquadrão russo que operava em parceria com a frota britânica no Mar do Norte. A experiência com os ingleses foi tão marcante que o czar Alexandre I decidiu enviá-lo, juntamente com outros oficiais russos, para receber treinamento formal a bordo de navios britânicos. Golovnin serviu três anos na Marinha Real, de 1802 a 1805, sob as ordens dos almirantes Nelson, Collingwood e Cornwallis. Quando a guerra foi redeclarada entre britânicos e franceses durante esse período, participou de operações de combate real ao lado de Nelson. De volta à Rússia em 1806, utilizou o que aprendera para compilar um código de sinais navais baseado nos padrões ingleses, documento que permaneceria em uso pela frota russa por mais de vinte anos.

O grande capítulo seguinte de sua vida começou com o comando da chalupa Diana. Em 1806, Golovnin foi nomeado comandante do navio e em 7 de julho de 1807 zarpou de Kronstadt em sua primeira viagem ao redor do mundo, com a missão de fazer levantamentos das costas do Pacífico Norte e entregar suprimentos a Okhotsk, posto avançado russo no Extremo Oriente. A jornada começou mal: uma violenta tempestade em abril de 1808 impediu a contornação do Cabo Horn, forçando Golovnin a rumar para o Cabo da Boa Esperança na África do Sul para reabastecer. Ancorou em Simon's Town em maio de 1808. O que ele não sabia era que, durante os dez meses em que estivera no mar, as relações entre a Rússia e a Grã-Bretanha haviam se deteriorado completamente: os russos passaram a ser aliados de Napoleão. O Diana foi imediatamente retido como navio inimigo por um esquadrão naval britânico.

O que se seguiu foi um calvário burocrático. Golovnin e sua tripulação ficaram detidos a bordo do Diana em Simon's Town por mais de um ano, aguardando instruções que nunca chegavam de Londres. Quando ficou claro que nenhuma decisão seria tomada em tempo razoável, o comandante russo começou a planejar a fuga. Em 28 de maio de 1809, a oportunidade se apresentou: vento favorável e visibilidade reduzida. A tripulação cortou os cabos da âncora e o Diana passou diretamente entre vários navios de guerra britânicos, saindo da baía antes que os ingleses percebessem o que estava acontecendo. Quando a perseguição começou, o Diana já era veloz demais. A notícia da audaciosa fuga logo se espalhou pelas costas dos dois oceanos. Em 1819, Golovnin publicaria um relato detalhado de toda a viagem, da detenção e da fuga.

O episódio mais extraordinário de sua carreira ocorreria em 1811, durante uma missão de levantamento cartográfico das Ilhas Curilas. Ao explorar a ilha de Kunashir, Golovnin foi atraído a terra e feito prisioneiro pelas autoridades japonesas, que o acusaram de violar a sakoku, a política de isolamento que proibia a entrada de estrangeiros no Japão. Levado à ilha de Hokkaido, Golovnin permaneceu cativo por dois anos. Uma primeira tentativa de fuga falhou. Em vez de desperdiar sua situação em amargura, o capitão russo decidiu mergulhar na experiência: aprendeu o idioma japonês, estudou a cultura, os costumes, a organização social e os valores do país que o mantinha prisioneiro. Esse esforço intelectual produziria um dos documentos mais importantes já escritos sobre o Japão oitocentista por um ocidental.

Libertado em 1813, Golovnin retornou à Rússia e publicou Cativeiro no Japão nos Anos 1811, 1812, 1813, um livro que se tornou instantaneamente um clássico. A obra foi amplamente lida e discutida na Rússia, moldando a percepção de toda uma geração sobre o Japão e seus habitantes. Golovnin descreveu os japoneses com evidente respeito e admiração, chamando-os de "tão inteligentes, tão patrióticos e tão valorosos rivais" dos russos no Pacífico — uma caracterização notavelmente generosa para a época.

Em 1817, embarcou em sua segunda circum-navegação, desta vez a bordo da fragata Kamchatka. A viagem levou a bordo jovens exploradores que se tornariam figuras proeminentes da exploração russa: Fyodor Litke, Fyodor Matyushkin e Ferdinand von Wrangel. O objetivo era entregar suprimentos a Kamchatka, mapear ilhas inexploradas na costa do que hoje é o Alasca e investigar as relações entre os nativos da ilha Kodiak e os funcionários da Companhia Russo-Americana. De volta à Rússia em setembro de 1819, Golovnin publicou À Volta do Mundo no Kamchatka, obra que acrescentou à ciência russa um volume considerável de informações astronômicas e geográficas.

A última fase de sua vida foi dedicada à administração naval. Em 1821, tornou-se diretor assistente da Escola Naval Russa; em 1823, assumiu como quartel-mestre da frota. Sob sua supervisão, mais de duzentos navios foram construídos, incluindo os primeiros vapores da Marinha russa. Foi também mentor dedicado de novos exploradores, transmitindo a Litke e Wrangel o mesmo espírito de rigor científico e curiosidade intelectual que havia caracterizado sua própria carreira. Golovnin morreu em 11 de julho de 1831, em São Petersburgo, vítima da epidemia de cólera que então devastava a cidade. Tinha 55 anos. Deixou um legado que vai muito além das cartas náuticas que produziu: foi um dos primeiros oficiais russos a documentar o encontro com culturas do Pacífico com empatia e profundidade intelectual genuínas.

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