misterios

Stephen King

Escritor norte-americano

7 min01/01/2024
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Stephen Edwin King é o mais popular escritor de terror da história da literatura americana e possivelmente do mundo. Nascido em Portland, no Estado do Maine, em 21 de setembro de 1947, ele transformou o medo, o sobrenatural e as sombras da psique humana em uma obra de proporções monumentais que já vendeu mais de quatrocentos milhões de cópias em mais de quarenta países. Classificado como o nono autor mais traduzido no mundo, King construiu um universo narrativo tão vasto e internamente coerente que seus fãs mais dedicados o estudam como se fosse um cosmos literário autônomo.

A infância de King foi marcada pela ausência e pela dificuldade. Quando ele tinha apenas dois anos de idade, seu pai Donald abandonou a família, deixando sua mãe, Nellie Ruth Pillsbury, para criar sozinha Stephen e seu irmão mais velho adotivo, David, enfrentando sérias dificuldades financeiras. A família se mudou diversas vezes entre cidades de diferentes estados, e a instabilidade das mudanças conviveu com a estabilidade de uma coisa: a presença constante dos livros e dos quadrinhos na vida de Stephen. Leitor fanático das histórias de terror das revistas em quadrinhos EC Comics — incluindo Tales from the Crypt —, o jovem King absorvia narrativas de horror ao mesmo tempo que desenvolvia seu próprio senso de narrar.

Ainda na escola, King começou a escrever suas próprias histórias, em geral baseadas nos filmes de terror que assistia. Copiava os textos com a ajuda do irmão David e os vendia aos colegas, até que os professores intervieram e o obrigaram a parar. A reação dos adultos diante de seu talento precoce foi, de certa forma, um presságio das tensões que seu trabalho provocaria em parcela conservadora do público leitor ao longo de toda a sua carreira. Entre 1966 e 1971, estudou inglês na Universidade do Maine, onde escreveu uma coluna chamada King's Garbage Truck para o jornal estudantil. Foi lá que conheceu Tabitha Spruce, com quem se casou em 1971 e que seria sua companheira de vida.

O início da carreira profissional foi marcado pela luta financeira. King ensinava na Academia Hampden, no Maine, e a família vivia em um trailer. Ele escrevia contos para revistas masculinas nas horas livres para complementar a renda, um período que inspirou histórias como The Mangler. A virada chegou de maneira improvável: ele havia começado a escrever um romance sobre uma jovem com poderes psíquicos, mas descartou a ideia, achando-a sem futuro. Sua esposa Tabitha resgatou os rascunhos do lixo e o encorajou a continuar. O resultado foi Carrie, publicado em 1974, que lhe rendeu um adiantamento de apenas 2.500 dólares da editora Doubleday. A venda dos direitos de publicação em brochura, porém, gerou duzentos mil dólares — um número que transformou definitivamente a situação financeira da família King.

O sucesso de Carrie abriu as portas de uma carreira que se tornaria uma das mais férteis da literatura contemporânea. King publicou romances em ritmo acelerado: O Iluminado, Salem's Lot, A Hora do Pesadelo, Cujo, It — A Coisa, A Torre Negra, Misery, e dezenas de outros títulos que se tornaram clássicos instantâneos do gênero. Ao longo da carreira, publicou sessenta romances, incluindo sete sob o pseudônimo de Richard Bachman, adotado inicialmente por receio de que o mercado editorial não absorveria tamanha produtividade. Acrescentou ainda doze coletâneas de contos e seis livros de não ficção ao seu currículo, além de aproximadamente duzentos contos publicados em diversas coleções.

Paralelamente ao sucesso literário, King enfrentou uma batalha pessoal com o alcoolismo e o abuso de outras substâncias que marcou mais de uma década de sua vida. Ele próprio reconheceu publicamente que desenvolveu uma grave dependência alcoólica logo após o lançamento de Carrie, e que o problema se agravou ao longo dos anos 1980 a ponto de comprometer sua memória sobre a criação de alguns de seus livros — ele mal conseguia se lembrar de ter escrito Cujo, por exemplo. A intervenção decisiva veio de sua família e amigos, que reuniram diante dele evidências físicas de seus vícios retiradas do escritório. King cortou o álcool e outras drogas por volta de 1980 e manteve a sobriedade desde então.

Em 1999, King sofreu um acidente gravíssimo. Durante uma de suas caminhadas nos arredores de sua casa de veraneio no Maine, foi atropelado por um motorista distraído. Os ferimentos foram severos: traumatismo craniano, fraturas múltiplas na perna direita e perfurações num dos pulmões exigiram três cirurgias. A recuperação foi longa e dolorosa, e King transformou a experiência em material literário para seu livro autobiográfico On Writing, publicado em 2000, obra que se tornou uma referência essencial para escritores de todos os gêneros.

A capacidade de King vai muito além do gênero terror. Algumas de suas obras mais aclamadas pertencem a outros campos: a novela que originou o filme Um Sonho de Liberdade está entre as narrativas mais emocionantes da literatura contemporânea; Conta Comigo, adaptada ao cinema por Rob Reiner, é uma história de amizade e iniciação que pouquíssimos associam ao terror; À Espera de um Milagre explora a redenção e a compaixão com profundidade humanista. Essa versatilidade foi fundamental para que a National Book Foundation lhe concedesse, em 2003, a Medalha por Contribuição de Destaque à Literatura dos Estados Unidos, reconhecimento que chegou acompanhado de alguma polêmica entre críticos literários mais conservadores, mas que refletia a realidade de um autor que havia moldado o imaginário de gerações inteiras.

King também recebeu o Bram Stoker Award, o World Fantasy Award em 2004, o prêmio da Mystery Writers of America em 2007 e a Medalha Nacional das Artes do National Endowment for the Arts em 2015. Muitas de suas obras foram adaptadas para o cinema, a televisão, minisséries e histórias em quadrinhos. Escreveu roteiros de episódios para séries como Arquivo X. Sua vida pessoal permaneceu centrada em torno de Tabitha, com quem criou três filhos; dois deles, Owen King e Joseph Hillstrom King — que escreve sob o pseudônimo de Joe Hill —, também se tornaram escritores, perpetuando uma tradição familiar de narrativa que promete ainda muitos capítulos.

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